É uma das últimas imagens do documentário com o seu nome na Netflix, era uma imagem que já não se via há 13 anos. Mais de uma década depois, José Mourinho subia ao relvado do Santiago Bernabéu para liderar o Real Madrid numa versão 2.0 de um projeto com tanto de grande como de ambicioso. Agora, tal como em 2010, o objetivo era claro – mitigar uma hegemonia crescente do Barcelona em termos nacionais e voltar a chegar às grandes decisões europeias. Com uma nuance: se quando chegou a primeira vez era visto como um salvador entre os adeptos pelo sucesso conseguido entre FC Porto, Chelsea e Inter, agora também havia o sentimento de desconfiança de quem parece ter perdido aquele toque de Midas para “transformar” clubes.
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“Não mudaria nada. Nem posso, por isso não vou pensar nisso. Ficou o facto de ter dado tudo. Quando dás tudo, mesmo que cometas erros, é uma satisfação, não lamentas nada”, comentara Mourinho quando ainda era treinador do Benfica e defrontou os merengues pela segunda vez na Liga dos Campeões. “Fui dos poucos treinadores que saí do Real sem ser despedido. Quando sais por tua decisão, não tens de lamentar ou invejar nada. O que na altura me disseram foi: ‘O bom e o fácil vêm agora, o difícil está feito’. Na altura decidi que era melhor sair, a minha família é o mais importante para mim. E penso que foi também o melhor para o Real, mudar depois de três anos duros, intensos, quase violentos. Separámo-nos no momento justo e ideal. Depois disso, o que o Real Madrid conseguiu só me deu alegrias. Não tenho mérito nisso, é de quem lá esteve e ganhou”, acrescentou nessa mesma conferência. 13 anos depois, o desafio trazia muitas semelhanças.
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Após uma despedida de Carlo Ancelotti em decréscimo e sem títulos, a última temporada da formação da capital espanhola acentuou uma quebra quase em contraponto com a ascensão do Barcelona de Hansi Flick. Mais: Florentino Pérez, que voltou a cair no erro de apostar num técnico e deixar que caísse apenas seis meses depois (Xabi Alonso), sentiu-se pela primeira vez obrigado a reforçar a sua liderança avançando para eleições, derrotando Enrique Riquelme com boa margem mas perdendo entre os associados com menos anos de filiação. Também aqui, era um início de uma nova era que tentava recorrer a uma fórmula antiga. O líder do clube sabia-o, José Mourinho também. Faltava agora perceber o que achava o “tribunal” do Bernabéu em relação a esse plano, com a receção à Real Sociedad a servir de primeiro julgamento a esse plano merengue.
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“Não quero que o Bernabéu me receba de uma forma particular, quero que receba a equipa com a sua paixão. Gostaria que a equipa sentisse algo diferente do que sentiu na temporada passada, eu não sou importante. Sou capaz de controlar as minhas emoções e jogar com normalidade um jogo que vale três pontos. Não é uma coisa de agora, sinto-me mais calmo e controlo melhor as minhas emoções. As situações de dificuldade chegarão. Ou então talvez seja porque os jogadores e as pessoas que trabalham aqui me estão a proteger do meu lado negro da personalidade…”, comentou numa conferência de antevisão que acabou a dizer que era preciso ter cuidado com um jornalista da COPE presente… porque “tem muitos contactos”.
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Plantel? Para mim, está fechado mas o mercado está aberto. Nunca se sabe se um jogador vai chegar e dizer que quer sair. Em princípio, não, mas é algo que pode acontecer. Na minha cabeça, está fechado e não tenho nenhum pedido. Estou contente”, referiu sobre a equipa.
Em paralelo, Mourinho abordou também as ligações que tenta criar num Real Madrid com nomes como Kylian Mbappé, Jude Bellingham ou Vinícius Jr. “O mais complicado é quando não se tem jogadores de topo. Eu quero os três e o positivo compensa sempre. Também estou aqui para tentar ajudar”, assegurou, antes de voltar a sair em defesa do brasileiro, protagonista no triunfo na Catalunha frente ao Espanyol por ter andado “pegado” com os adeptos ao longo da partida: “O Vini não é santo mas o que lhe fazem é demasiado. Um adversário dá-lhe, depois dá-lhe outro. Continua a sofrer bullying, tanto dos rivais como do público”.
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Com melhores ou piores comportamentos, havia um dado estatístico desenvolvido pela Marca que motivava uma reflexão, não só para a estreia na Liga em casa mas também para o resto da temporada: nos mais de dois anos em que jogaram juntos, estando em campo em simultâneo em 89 dos 125 encontros, a ligação direta entre Mbappé e Vinícius Jr. rendeu apenas 19 dos 192 golos da equipa, num peso abaixo dos 10%, que se voltou a sentir frente ao Espanyol com os golos marcados por Jude Bellingham e Carlos Espí aos 90′. Até aqui o primeiro passo foi dado e, numa noite que acabou em goleada, foi a ligação entre a dupla, a que se juntou o inevitável Jude Bellingham, que fez a diferença numa partida que chegou a estar complicada até aos 60′.
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A apresentação das equipas mostrou aquilo que Mourinho mais queria: começa tudo do zero. Mais do que a ovação que ouviu quando foi anunciado no estádio antes do arranque do jogo, jogadores como Vinícius Jr. e Mbappé, que chegaram a ser assobiados na última temporada, ouviram também muitos aplausos, quase num sinal de que a nova época trazia uma nova vida a Madrid. Houve ainda tempo para uma homenagem a Marc Cucurella e Oyarzabal, capitão da Real Sociedad, após sagrarem-se campeões mundiais por Espanha. Depois, o jogo. E, aí, as coisas deixaram de estar naquele ambiente de lua de mel que se estava a sentir antes apesar de uma primeira ameaça de Mbappé após passe de Vinícius Jr. defendida por Álex Remiro (7′).
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O arranque prometeu mas não teve continuidade. Vinícius Jr. também teve uma oportunidade flagrante para marcar que voltou a ser travada por Remiro com o pé (21′) mas o bloco baixo dos bascos ia conseguindo levar a melhor face às tentativas demasiado previsíveis dos merengues, que ainda apanharam dois sustos saídos de transições com Courtois a defender um remate de Oyarzabal (11′) e Sergio Gómez a atirar a rasar o poste (35′). Só mesmo nos minutos finais antes do intervalo chegariam os golos, com Kylian Mbappé a inaugurar o marcador depois de um lance fantástico pelo meio de Valverde (40′) e Luka Susic a empatar de seguida numa jogada que começou com uma bola em profundidade nas costas de Konaté (44′). Mourinho não saía satisfeito para o intervalo, os adeptos começavam a demonstrar algum desagrado.
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Mbappé teve mais uma boa oportunidade para marcar logo no arranque da segunda parte após uma ida de Arda Güler ao meio mas a partida estava muito mais aberta do que na metade inicial, com tudo o que isso ia ter de positivo para a velocidade das unidades ofensivas do Real e para saídas em transição sempre a passar por Oyarzabal da Real Sociedad. Ainda assim, seria a qualidade individual a fazer a diferença, com uma tabelinha entre Mbappé e Bellingham a isolar o francês para o 2-1 (60′). O inglês que também foi um dos grandes destaques do Mundial estava com a corda toda e voltaria a estar em destaque pouco depois, com a assistência para Vinícius Jr. numa insistência na área para o 3-1 (68′). O jogo estava de vez “arrumado” mas ainda haveria tempo para o hat-trick de Mbappé, neste caso depois de um passe de Vinícius Jr. (80′). Com a goleada selada, tudo estava de novo “em paz” e o Bernabéu aproveitou para cantar por… José Mourinho.
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