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(A) :: Mélenchon na segunda volta, Glucksmann em luta com PS para lá chegar e ecologistas indecisos. Fragmentação inédita marca corrida à esquerda

Mélenchon na segunda volta, Glucksmann em luta com PS para lá chegar e ecologistas indecisos. Fragmentação inédita marca corrida à esquerda

Mélenchon segue à frente nas presidenciais. PS deixou cair primárias à esquerda para as fazer com o centro-esquerda. Eleitores de esquerda são 30% do total, mas não há acordo sobre como os captar.

Madalena Moreira
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Em abril deste ano, faltava ainda um ano para as eleições presidenciais, as sondagens mostravam já uma tendência clara: a extrema-direita reunia mais de um terço das intenções de voto, com mais de dez pontos percentuais de vantagem sobre os restantes potenciais candidatos. Sem anúncios oficiais, multiplicavam-se os nomes que namoravam o lugar que Emmanuel Macron vai vagar no Eliseu — e essa fragmentação refletia-se nas sondagens.

Foi neste contexto que, no dia 3 de maio, um veterano das eleições presidenciais em França deu o tiro de partida para a corrida: Jean-Luc Mélenchon lançava a sua quarta candidatura à Presidência. Ao contrário das eleições legislativas de 2024, a França Insubmissa (LFI, na sigla em francês) avançava a solo na corrida para o Eliseu, sem colocar a possibilidade de uma coligação com os antigos parceiros da esquerda. Para o cientista político Benjamin Morel, citado pela BFMTV, o timing do anúncio procurava “mostrar que há um partido pronto para as eleições enquanto os outros não estão”.

Quase quatro meses depois do anúncio de Mélenchon, as eleições aproximam-se a passos largos, a extrema-direita e o centro já apresentaram os seus candidatos e a esquerda continua a não estar “pronta” para se apresentar a eleições. Pelo caminho ficou o plano de uma primária única à esquerda. Em vez disso, os socialistas do PS e os sociais-democratas do Place Publique chegaram esta terça-feira a acordo para realizar umas primárias fechadas, exclusivas aos partidos do centro-esquerda e em que se impõe, por agora, um único nome de peso: Raphaël Glucksmann.

Para além do PS e da LFI, o Partido Comunista Francês e os ecologistas — os outros dois membros da Nova Frente Popular, a coligação de esquerda que foi a votos nas legislativas de 2024 — avançaram com as suas próprias candidaturas independentes. “Seria preciso recuar muito na história política para encontrar este nível de fragmentação”, afirma Daniel Boy ao La Dépêche. “A esquerda sempre foi marcada por grandes correntes e divergências ideológicas, mas tradicionalmente conseguiu manter uma frente de unidade eleitoral”, continua o cientista político e diretor de investigação emérito da Sciences Po.

A menos de oito meses das presidenciais — com primeira volta marcada para o dia 18 de abril de 2027 —, estas forças políticas lutam por uma parte do eleitorado de esquerda (que representa cerca de 30% do eleitorado francês) que permita passar a uma muito provável segunda volta contra a União Nacional de Marine Le Pen e Jordan Bardella. Para alcançar esse objetivo terão de ultrapassar uma longa lista de desafios: divergências internas, ataques da direita, distanciamento do centro-direita e a possibilidade de um outro peso pesado ainda ir entrar na corrida.

Mélenchon, de olho na segunda volta, não fecha a porta aos ecologistas

23 de agosto de 2026, o último dia da escola de verão da LFI. Em Châteauneuf-sur-Isère, 10 mil pessoas reuniram-se para ouvir Jean-Luc Mélenchon, que não se coibiu nos ataques aos candidatos do centro, Édouard Philippe e Gabriel Attal. Os dilemas dos socialistas e a candidatura de Raphaël Glucksmann, oficializada horas mais tarde, pareceram incomodar pouco ou nada o candidato mais à esquerda. “Eles que deem o seu melhor”, desvalorizou aos jornalistas, ao ser questionado sobre as primárias do centro-esquerda.

Os estudos de opinião alimentam a confiança de Mélenchon na sua candidatura. A mais recente sondagem da Harris-Interactive-Toluna para a RTL, realizada nos dias 18 e 19 de agosto, coloca o líder da LFI com 16% ou 17% dos votos, dependendo das restantes candidaturas apresentadas. Nos cinco cenários testados pela empresa de sondagens, Mélenchon só não chega à segunda volta — sempre contra Marine Le Pen — num cenário em que Édouard Philippe é candidato, mas Gabriel Attal e Raphaël Glucksmann não.

A popularidade de Mélenchon é assegurada por um dos eleitorados mais fiéis. Numa análise aos eleitores de esquerda, o cientista político da Fondation Jean Jaurès Antoine Bristielle conclui que 20% deste eleitorado (cerca de 6% dos eleitores franceses na sua totalidade) são firmes apoiantes de Mélenchon e da LFI, uma lealdade que não se verifica em nenhum dos outros candidatos. “Mais do que o apoio a Jean-Luc Mélenchon, este grupo é caracterizado por uma forte coerência ideológica e adesão a uma estratégia de rutura política, económica e institucional”, aponta o especialista.

O verdadeiro teste de Mélenchon não será, portanto, conquistar os eleitores mais à esquerda, mas conseguir mobilizar o centro-esquerda numa potencial segunda volta contra a extrema-direita. Segundo a análise de Antoine Bristielle, o maior grupo de eleitores é o grupo do “voto útil à esquerda”: representam 32% da esquerda ou 9% do eleitorado francês. É este voto que Mélenchon precisa de conquistar para chegar ao Eliseu.

"A social democracia e o comunismo que, formaram a esquerda histórica, colapsaram porque a sua única estratégia que sobravava era a sobrevivência organizacional. [Os Ecologistas são] os únicos capazes de terem um programa e uma visão para a sociedade como a [da LFI]."
Jean-Luc Mélenchon

A consciência dessa segunda volta parece pesar nas palavras do líder “insubmisso”. Sem nunca se distrair da linha ideológica mais radical que lhe garante o apoio anteriormente mencionado, é notável, por um lado, o seu relativo silêncio sobre os socialistas e sociais-democratas e, por outro, o estender da mão aos ecologistas. A preponderância do discurso sobre ecologia no seu discurso no encerramento da universidade de verão foi apenas uma faceta desta abertura.

“A social democracia e o comunismo, que formaram a esquerda histórica, colapsaram porque a sua única estratégia que sobrava era a sobrevivência organizacional”, argumentou em entrevista à publicação Reporterre, no final de julho, em que apontou os ecologistas como “os únicos capazes de terem um programa e uma visão para a sociedade como a [da LFI]”. Apesar das semelhanças e de ter garantido que o partido “não está a abandonar uma estratégia unificada”, Mélenchon deixou claro que irá avançar sempre com a sua campanha e que não se deixará “arrastar por discussões infindáveis”.

Primárias à esquerda, primárias ao centro-esquerda? O dilema dos socialistas

Mélenchon pode ter disparado o tiro de partida em maio, mas as preparações nos blocos de partida andavam a ser feitas desde o verão passado. Foi em julho de 2025 que ecologistas, socialistas e antigos nomes da Nova Frente Popular (NFP) e da LFI anunciaram a realização de uma primária de esquerda, com data prevista para outubro deste ano. A ideia era simples — concentrar os muitos votos de esquerda numa candidatura única —, mas rapidamente caiu por terra, sem conseguir reunir concordância sequer entre socialistas e ecologistas.

Um dos nomes em contraciclo é Yannick Jadot, senador dos ecologistas que, desde a primeira hora, se colocou ao lado de uma possível candidatura de Raphaël Glucksmann. As ambições do eurodeputado e fundador do Place Publique eram conhecidas e as sondagens mostravam-no bem colocado na corrida. Contudo, faltavam ao pequeno partido de centro-esquerda os meios para se atirar a uma campanha ao Eliseu.

A solução acabou por ser negociada com os socialistas, que reconheciam, apesar do fracasso de umas primárias à esquerda, a necessidade de apresentar um candidato único neste espaço político. “Não sou um fetichista das primárias. Não há nenhum benefício óbvio nesta ferramenta, mas precisamos de criar uma alternativa”, afirmava Olivier Faure, secretário-geral do Partido Socialista ao Le Monde, ainda em abril. E o resultado, apesar de todas as reservas, foi mesmo a realização de umas primárias.

O acordo entre socialistas e sociais-democratas ficou fechado esta terça-feira, com as eleições marcadas para dois fins de semana consecutivos: 9 e 10, 16 e 17 de outubro. Mas, para aqui chegar, foi necessária uma longa negociação e a definição de uma carta de valores a respeitar pelo candidato eleito durante a campanha. Para além disso, o direito a votar está reservado a militantes da Place Publique e do PS e, avança a imprensa francesa, ao pequeno partido Esquerda Republicana e Socialista (GRS na sigla em francês).

Para concorrerem, os candidatos precisam de garantir um certo número de apoios internos e pagar uma taxa de 15 euros. O objetivo, escreve o Le Monde, é limitar uma possível infiltração da LFI na eleição. O fantasma de Mélenchon paira, ainda assim, sobre as primárias. Glucksmann terá pressionado a que a carta de valores incluísse um cordão sanitário à colaborações com a LFI, mas a exigência não foi aceite pelos socialistas, adiando a questão para ser decidida pelo vencedor da primária.

O cientista político Daniel Boy encontra, ainda assim, uma outra limitação nesta organização: a quantidade de nomes que vão a jogo. Até agora, contam-se apenas Glucksmann, a antiga candidata presidencial Ségolène Royal e os deputados socialistas Philippe Brun e Jérôme Guedj. “É uma situação paradoxal, em que o processo de seleção está a ser organizado, mas os principais jogadores ou estão a ignorar ou a excluir-se logo à partida”, destaca Boy.

O “elitismo” e a “falta de carisma” de Glucksmann que lhe podem custar a eleição

A candidatura às primárias socialistas para o Eliseu está efetivamente nos planos de Olivier Faure, o que faria dele um dos “principais jogadores” na corrida. Contudo, o líder socialista deixou claro ao seu círculo interno que esse anúncio nunca seria feito antes da universidade de verão do PS, que se irá realizar este fim de semana, uma vez que não queria que o evento se tornasse um comício de pré-campanha.

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O compasso de espera de Faure foi aproveitado por Raphaël Glucksmann, segundo o próprio disse aos membros do seu partido na semana antes de anunciar a candidatura, avança o Le Monde. A jogada é a mesma que Mélenchon utilizou em maio: adiantar-se à sua concorrência mais direta, ganhando espaço político e mediático.

As sondagens realizadas ainda antes do seu anúncio oficial são generosas, mas insuficientes: o eurodeputado aparece no quarto lugar com 10% a 11% das intenções de voto. Até agora, e como transparece no distanciamento insistente da LFI, Glucksmann parece estar a jogar ao centro. “Eu não vou estar a jogar ao ‘vejam quem está mais à esquerda do que eu'”, afirmou no seu anúncio de candidatura, numa entrevista à TF1 em que também recusou comparações com Macron. “Eu estou a propor algo muito diferente, tanto em substância como no estilo”, argumentou.

"A verdadeira divisão está menos no destino e mais no caminho: devemos priorizar mudança radical ou reforma? Confronto ou cedências? A questão central nos meses não será sobre qual a fação de esquerda que tem uma maioria. Antes, vai ser sobre determinar qual a candidatura que melhor convence um eleitorado partilhado que é o mais capaz de traduzir as suas expectativas numa vitória política."
Antoine Bristielle, cientista político da Fondation Jean Jaurès

Lançados os dados, Raphaël Glucksmann depara-se agora com uma longa lista de desafios. Por um lado, a conquista do voto da classe trabalhadora avizinha-se difícil. Um memorando encomendado pela sua equipa e tornado público em maio pelo Politico revelava que Glucksmann tinha sido encorajado a não perseguir os votos dos mais jovens (entre 18 e 25 anos), das famílias monoparentais e com rendimentos mais baixos por serem “difíceis de mobilizar” para a sua campanha. Em causa está a imagem do eurodeputado como uma figura elitista, mais próxima da bolha de Bruxelas do que do dia a dia do povo francês.

Por outro lado, Glucksmann pode ter um problema de falta de carisma político. A crítica foi feita pela própria companheira, a jornalista Léa Salamé, confidenciou o próprio eurodeputado ao Nouvel Obs em 2025. O treino político — e as aparentes críticas de Salamé — contribuíram para uma melhoria na popularidade de Glucksmann, mas este continua sem conseguir “converter esse apoio em votos de forma tão eficaz como Jean-Luc Mélenchon”, aponta Jean-Yves Dormagen, fundador da empresa de sondagens Cluster17 ao Le Monde.

O problema para o candidato é que esta característica poderá ser essencial para decidir a eleição. A conclusão é do especialista Antoine Bristielle que, na sua análise, descreve que as plataformas ideológicas da esquerda têm semelhanças suficientes para mobilizar qualquer eleitor: preocupações ambientais e com a saúde, o custo de vida, o fortalecimento do sistema de educação e a redução de desigualdades sociais.

“A verdadeira divisão está menos no destino e mais no caminho: devemos priorizar mudança radical ou reforma? Confronto ou cedências?”, escreve. “A questão central nos próximos meses não será sobre qual a fação de esquerda que tem uma maioria. Antes, vai ser sobre determinar qual a candidatura que melhor convence um eleitorado partilhado que é o mais capaz de traduzir as suas expectativas numa vitória política”, conclui o cientista político.

Um wildcard e uma indecisa: o peso das candidaturas de François Hollande e Marine Tondelier

UnirNouveau monde, nouvelle gauche” [nome que pode ser traduzido por “Unir — Novo mundo, nova esquerda”], chega às livrarias no dia 3 de setembro. Assinado por François Hollande, o livro tem sido o foco do antigo Presidente francês. Porém, a promoção literária pode ser utilizada como oportunidade para lançar projetos mais ambiciosos, como o regresso ao Eliseu. Oficialmente, Hollande não confirmou, mas também não recusou a candidatura — e os seus adversários tentam antecipar já essa possibilidade.

Na LFI, a candidatura de Hollande é dada como certa, sendo até bem-vinda. “Mesmo que Raphaël Glucksmann ganhe a primária, ele vai ter uma luta a sério com François Hollande. Ele está apenas a começar a corrida dos 110 metros barreiras”, afirmou Manuel Bompard, coordenador dos insubmissos, ao Le Monde.

Entre os socialistas, pelo contrário, o nome de Hollande — que teve a pior taxa de popularidade alguma vez registada por um Presidente francês — é visto como “incapaz de ganhar um único voto”. No início do ano, com a corrida ainda longe da velocidade cruzeiro, uma figura proeminente do PS argumentava ao Le Figaro que o antigo Presidente não tinha ganhado qualquer margem de manobra na década que passou fora do Eliseu. “Imaginemos por um momento que ele era candidato, toda a gente ia falar da lei laboral, do fim da cidadania, dos rebeldes dentro do partido, das promessas quebradas”, elencou.

Colocado de lado o “problema Hollande”, a verdadeira preocupação dos socialistas vai ao encontro das prioridades de Mélenchon: estender a mão aos ecologistas. Na carta de valores das primárias, pode ler-se que todos os candidatos têm de se comprometer com “uma reunião de todos os partidos na esquerda democrática, republicana e ecologista” e o próprio Olivier Faure marcou presença na escola de verão dos ecologistas para mostrar que nem todas as pontes da antiga NFP foram queimadas. “Hoje, ninguém à esquerda imagina ganhar a segunda volta sem o apoio de todos os eleitores da esquerda”, declarou o líder socialista no passado sábado.

Cortejada à sua esquerda e à sua direita, Marine Tondelier ainda não decidiu o caminho a seguir. Nas sondagens, a sua candidatura não descola de uns tímidos 4%, mas a líder dos ecologistas insiste que não quer “fazer campanha por Jean-Luc Mélenchon ou Raphaël Glucksmann, mas pelo ambiente”.

Dentro do partido, a divisão é igualmente evidente. Uma parte, pela qual Yannick Jadot dá a cara, recusa colar-se a Mélenchon, receosa das consequências que isso terá a longo prazo. “Acham mesmo que os eleitores de Édouard Philippe vão mudar de ideias em relação a Mélenchon só porque a Marine Tondelier o apoia? Só nos íamos tornar igualmente intocáveis”, afirmou um deputado ecologista ao Le Monde.

Do outro lado, emerge Sandrine Rousseau, deputada ecologista pronta a aceitar a mão estendida da LFI. “A candidatura de Tondelier claramente não está a ganhar tração nas sondagens e não podemos acrescentar mais candidaturas à esquerda”, alertou em entrevista este fim de semana à franceinfo. Com as eleições cada vez mais perto, as sondagens mostram que a fragmentação que continua a atormentar a esquerda não impediria um candidato de esquerda de chegar à segunda volta, mas também deixam claro que, neste contexto, a derrota face a Marine Le Pen em maio seria quase certa. Por agora, as discussões internas não permitem antever uma cedência que ajude a esquerda a regressar ao Eliseu.