Hoje vinha lançado para falar de pensões, mas agora hesito. Se na América, que é a América (pelo menos à hora que escrevo), a Women’s National Basketball Association ainda não conseguiu explicar claramente por que razão os auto-identificados como senhoras, Enes Kanter Freedom — 2,08m, 121Kg — e Royce White — 2,03m e 120kg —, não podem disputar a dita liga feminina de basquetebol, como é que eu, em Portugal (que é Portugal; fui agora lá fora confirmar), vou conseguir explicar claramente a questão das reformas?
Eu nem consigo explicar como é que o governo ainda não reformou Luís Neves, calha bem. No entanto, segundo percebi, pode ter a ver com o facto do primeiro-ministro não querer abdicar do líder da administração interna quando ainda estamos em época de risco elevado de incêndios. Ou seja, do ponto de vista destes Luíses, Montenegro e Neves — que, sem dúvida, querem manter a actual liderança do MAI —, a permanência do ex-director da PJ no governo estará tanto mais justificada quanto mais incêndios houver este verão?… Será isto? Estando nós a falar de malta com óptimos contactos ao nível dos materiais altamente inflamáveis? Vamos falar um bocadinho de incentivos errados?
Se calhar não porque, como é óbvio, não pode ser esta a razão para manter o ministro em funções. Eu avisei que não sabia explicar este fenómeno, não vieram ao engano. Não vos aconteceu como ao primeiro-ministro, que encomendou o estudo sobre a sustentabilidade da Segurança Social, mas assim que o documento chegou foi peremptório: “O estudo diz o quê? Pois, não, não fui eu quem o encomendou. Isso deve ter vindo enganado. Leve de volta, que eu não tenho interesse, minha senhora. Aliás, eu só abri porque pensei que eram as Testemunhas de Jeová. Adeusinho e até nunca antes de 2029!”
Ou seja, este governo é como um frequentador da Universidade de Verão do PSD após escutar as formações de Paulo Portas, Marques Mendes e João Soares: tem imensos estudos que não servem para nada. Se excluirmos, claro, fazer uma carreira de retumbante sucesso na política portuguesa, que redunda em tomadas de decisão assustadoramente duvidosas, que redundam em crónicas razoavelmente exasperadas.
Uma coisa é certa em termos de pensões: para o nosso Presidente da República, António José Seguro, as reformas são sagradas. É um bocado como as vacas na Índia. Só que por lá produzem imenso leite, enquanto por cá o eleitoralismo há de secar essa tetinha em menos de nada. Outra forma de ver o problema, para os menos familiarizados com o gado vacum, é desde a perspectiva do alojamento turístico de qualidade duvidosa. No fundo, tudo se resume a estarmos na presença da pensão sagrada que quase já não tem águas correntes.
O que o corrente estudo sobre as pensões sagradas demonstra é um problema mais complexo do que o Último Teorema de Fermat. Também porque, em Portugal, a esquerda — não se deixem enganar pelo nome: inclui quase toda a “direita” — torna impossível investir mais do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS, para os amigos) no mercado bolsista e torna, quiçá, ainda mais impensável o dinheiro dos descontos de cada contribuinte entrar numa conta em nome desse mesmo contribuinte, investida num índice acionista mundial. Ui, vá de retro! Investir todinhas as fichas no futuro da fulgurante economia portuguesa e suas pujantes empresas? Estupendo! Diversificar esse investimento por imensas das maiores empresas das maiores economias mundiais? Satanás!
Agora, ao contrário do que podem pensar, esta repulsa visceral pelo investimento em acções não é ideológica. É uma repulsa visceral geográfica. Senão, reparem: enquanto os investimentos bolsistas feitos pelo Estado português ou pelos portugueses são pecado mortal, os mesmos investimentos bolsistas feitos, digamos, pelo Fundo Soberano da Noruega são obra divina daquilo a que a esquerda chama, ignorante e muito engraçadamente, “socialismo”. É verdade, meus caros, os mistérios do esquerdismo são insondáveis.
Dá-se o caso de eu ser um reputado especialista em colonoscopias políticas. Não precisam de agradecer, eu faço a inspeção por vocês e clarifico que, na verdade, os mistérios do esquerdismo são até muito facilmente sondáveis: junta-se uma dose generosa de analfabetismo funcional puro a duas boas medidas de complexo de superioridade moral e intelectual, envolve-se tudo em profundo ressentimento, e aí têm o esquerdismo. Confesso que só mencionei que os mistérios eram insondáveis porque a frase me soou bem para fechar o parágrafo anterior. Que é uma boa maneira de fechar este parágrafo.