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(A) :: Porque precisamos de falar do que nos assusta?

Porque precisamos de falar do que nos assusta?

Uma sociedade que proíbe a dúvida em nome da verdade acaba por produzir precisamente o contrário daquilo que pretendia.

Nuno Nabais Freire
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Vivemos num tempo em que o debate público parece condenado a uma escolha impossível: ou o silêncio dogmático ou a fogueira da polarização.

Sempre que alguém questiona uma decisão de grande impacto, seja a gestão de uma crise sanitária, os limites da intervenção do Estado, os custos de uma política económica ou os efeitos de uma medida seja ou não de emergência a reação tende a surgir antes da discussão.

Em vez de perguntas, aparecem rótulos. Em vez de dados, aparecem trincheiras.

De um lado, quem questiona pode ser imediatamente acusado de querer destruir as instituições, espalhar desinformação ou alimentar teorias da conspiração. Do outro, quando as instituições recusam discutir abertamente os seus próprios erros, contradições ou incertezas, criam precisamente o ambiente que dizem querer evitar.

Quando uma instituição admite que não sabe, que errou ou que uma determinada decisão pode ser reavaliada, não está necessariamente a perder autoridade. Pode estar, pelo contrário, a demonstrar que merece confiança.

O problema começa quando se confunde autoridade com infalibilidade.

O objetivo de escrutinar o passado não pode ser a caça às bruxas. Não deve servir para transformar cada erro numa conspiração nem cada decisão errada numa prova de que tudo estava manipulado.

Mas também não pode existir uma espécie de imunidade institucional perante a crítica.

Questionar não é conspirar.

Pedir dados não é negar a ciência.

Exigir explicações não é atacar a democracia.

E admitir que uma decisão foi errada não significa necessariamente que todos aqueles que a tomaram fossem incompetentes ou mal-intencionados.

Esta distinção parece simples, mas tornou-se surpreendentemente difícil de fazer.

O debate público recompensa os extremos. O escândalo chama mais atenção do que a nuance. Uma acusação absoluta circula mais depressa do que uma explicação cuidadosa. E, perante esta lógica, tanto os defensores cegos das instituições como os seus adversários mais radicais acabam por se alimentar mutuamente.

Uns dizem: “Não questiones.”

Os outros respondem: “Não acredites em nada.”

E talvez ambos estejam errados.

A nossa dificuldade em aceitar o erro

Existe aqui um problema mais profundo.

A sociedade moderna desenvolveu uma enorme expectativa de certeza. Durante séculos, essa certeza foi muitas vezes procurada na religião. Hoje, procuramo-la também na ciência, na tecnologia, nos governos e nas instituições.

Esperamos respostas definitivas para problemas que, muitas vezes, não permitem respostas definitivas.

Mas a ciência não é uma religião. Um cientista pode mudar de opinião perante novos dados. Uma hipótese pode ser corrigida. Uma previsão pode falhar. Uma política pública pode produzir consequências que não estavam previstas.

Isso não destrói a ciência.

É precisamente assim que o conhecimento avança.

O mesmo deveria acontecer na política e nas instituições.

Um Governo pode errar. Uma Câmara Municipal pode errar. Um tribunal pode tomar uma decisão que mais tarde seja revista. Uma autoridade pública pode comunicar mal uma situação. Uma medida tomada numa emergência pode revelar-se excessiva quando analisada com a distância que só o tempo permite.

Reconhecer tudo isto não significa destruir a autoridade do Estado.

Significa compreender a natureza humana.

O que é verdadeiramente perigoso é a tentativa de esconder a imperfeição por medo de perder autoridade.

Porque os cidadãos são mais capazes de compreender a complexidade do que muitas instituições parecem imaginar.

Os adultos conseguem ouvir: “Não sabíamos.”

Conseguem ouvir: “Errámos.”

Conseguem ouvir: “Com os dados que hoje temos, faríamos diferente.”

O que dificilmente perdoam é a infantilização.

E, sobretudo, o fingimento.

A dúvida não é inimiga da verdade

Uma democracia saudável precisa de cidadãos capazes de desconfiar.

Mas precisa igualmente de cidadãos capazes de distinguir desconfiança de paranoia.

Esta é talvez uma das tarefas mais difíceis do nosso tempo.

Não podemos transformar qualquer dúvida numa conspiração. Mas também não podemos transformar qualquer resposta oficial numa verdade que dispensa escrutínio.

A verdade não precisa de proteção contra perguntas.

Precisa de perguntas.

A ciência não precisa de cidadãos que acreditem nela como quem acredita num dogma. Precisa de cidadãos que compreendam como funciona: através de hipóteses, evidências, erros, correções e revisões.

E a democracia não precisa de cidadãos obedientes.

Precisa de cidadãos livres.

É precisamente por isso que o combate à desinformação não pode significar simplesmente fechar portas ao debate. Quando uma sociedade começa a tratar determinadas perguntas como proibidas, alguém acabará por fazê-las.

E se as instituições legítimas se recusarem a responder, outros responderão por elas.

É aí que a dúvida legítima pode transformar-se em ressentimento.

O perigo dos extremos

A grande ironia é que os dois extremos acabam frequentemente por precisar um do outro.

Quanto mais uma instituição responde a uma pergunta legítima com um rótulo, mais força dá a quem afirma que existe algo escondido.

Quanto mais os críticos transformam cada erro numa conspiração, mais fácil se torna às instituições apresentarem qualquer crítica como radicalismo.

E assim se constrói um círculo vicioso.

O silêncio alimenta a suspeita.

A suspeita alimenta a paranoia.

A paranoia alimenta o medo.

E o medo produz ainda mais silêncio.

É uma máquina perfeita para destruir a confiança pública.

A alternativa não é difícil de compreender, embora seja muito mais difícil de praticar: transparência, dados, contraditório e humildade.

Precisamos de voltar a falar

Talvez a verdadeira maturidade democrática não esteja em escolher entre acreditar em tudo e desconfiar de tudo.

Talvez esteja em aprender a viver com a incerteza.

Não precisamos de instituições perfeitas. Precisamos de instituições capazes de reconhecer as suas imperfeições.

Não precisamos de uma ciência transformada em autoridade moral absoluta. Precisamos de ciência capaz de ser questionada, testada e corrigida.

Não precisamos de cidadãos que aceitem tudo o que lhes é dito. Precisamos de cidadãos que saibam distinguir uma pergunta legítima de uma fantasia.

E não precisamos de um debate público onde todos pensem da mesma maneira.

Precisamos de um debate onde seja possível discordar sem transformar o adversário num inimigo.

A verdade não é um dogma que se decreta.

É uma procura.

E essa procura só pode existir onde exista liberdade suficiente para perguntar, coragem suficiente para responder e humildade suficiente para admitir que, por vezes, estávamos errados.

Porque uma sociedade que proíbe a dúvida em nome da verdade acaba por produzir precisamente o contrário daquilo que pretendia.

E quando fechamos todas as portas ao debate maduro por medo da desinformação, corremos o risco de entregar as chaves da verdade exatamente àqueles que mais tememos.

Entre o silêncio e a paranoia existe um espaço de liberdade. É nesse espaço que uma democracia adulta deve aprender novamente a conversar.