(c) 2023 am|dev

(A) :: MICE, toupeiras e papagaios

MICE, toupeiras e papagaios

Na velha espionagem procuravam-se toupeiras. Na moderna guerra híbrida continuam a procurar-se toupeiras, naturalmente, mas também papagaios

José António Rodrigues do Carmo
text

As acções híbridas russa, chinesa, iraniana e da Irmandade Muçulmana na Europa, não tem o romantismo e a patine das histórias de John le Carré. Faltam as mulheres fatais, os sobretudos Burberry, a chuva londrina e os encontros à meia-noite junto de uma ponte envolta em neblina.

Em compensação, há funcionários públicos ressentidos, militares do reviralho, páginas falsas de jornais verdadeiros, professores mais ou menos universitários, jornalistas, empresas tecnológicas, organizações de fachada, comentadores engravatados e uma extraordinária quantidade de cidadãos ocidentais absolutamente convictos de que a culpa daquilo que os nossos inimigos fazem não é deles, mas sim nossa.

Talvez por isso, a UE trata a combinação de espionagem, ciberataques, sabotagem, intimidação, manipulação informativa e interferência política como uma ameaça híbrida crescente, cujos métodos variam, mas cujo objectivo é levar a que uma sociedade livre se enforque com as suas próprias liberdades.

Comecemos pelos profissionais.

Em Portugal tivemos, por exemplo, Frederico Carvalhão Gil, do SIS, detido em 2016, a entregar documentos a Sergey Pozdnyakov, do SVR russo em troca de dez mil euros. Foi condenado a 7 anos de prisão. Vender a Pátria é bastante mais barato do que comprar um carro utilitário em segunda mão.

Lá fora, o catálogo não desmerece.

-Herman Simm, alto funcionário do Ministério da Defesa estónio, passou informação ao SVR e apanhou 12 anos de prisão.

-Peyman Kia, dos serviços de segurança e das Forças Armadas suecas, forneceu informação ao GRU, e recebeu prisão perpétua. Na Suécia, sabemos agora, a expressão “temos de compreender o contexto” não produz redução de pena.

-Walter Biot, capitão-de-fragata italiano, foi apanhado a entregar documentos a um russo por cinco mil euros. Há garrafas de vinho que custam mais e não comprometem tanto.

-David Smith, segurança da embaixada britânica em Berlim, coleccionava material sensível, simpatia por Putin e antipatia pelo próprio país. Acabou condenado a mais de 13 anos. Tinha em casa uma grande bandeira russa e memorabilia soviética. A contra-informação britânica podia ter começado por reparar na decoração.

-Thomas H., capitão alemão, resolveu oferecer documentos aos russos. Segundo o tribunal, agiu sob a influência de uma voz pró-russa que seguia. Foi condenado a 3,5 anos.

Os serviços de informações resumem tradicionalmente as motivações do típico traidor na deliciosa sigla zoológica “MICE” (Money, Ideology, Coercion/Compromise, Ego).

Não são propriamente quatro virtudes teologais.

Significam que uns querem dinheiro, outros gostam do inimigo ou detestam o grupo a que pertencem (oikofobia), e outros fizeram qualquer coisa embaraçosa, de que Moscovo, Pequim ou Teerão possuem uma cópia. No fim vem o Ego e o narcisismo das pequenas diferenças, porque há pessoas que precisam de atenção, acesso, importância, o telefonema confidencial, o almoço reservado, a crença de que sabem o que a plebe desconhece. Um bom recrutador vende-lhes um espelho e afaga-lhes o ego, sugerindo que são portadores de supina inteligência.

E assim nascem as clássicas toupeiras como Kim Philby, que acabou a miserável vida a rastejar com uma medalha Lenine, na União Soviética em vésperas de implosão.

Todavia a espionagem custa dinheiro, exige contactos, comporta riscos e pode acabar com dois estarolas presos num café em Roma.

Muito mais fino é conseguir que o adversário faça o trabalho voluntariamente e é aqui que as toupeiras se transmutam em papagaios.

Para Moscovo, roubar um relatório secreto da NATO é óptimo. Conseguir que um europeu maquilhado e escanhoado apareça na televisão a reproduzir a narrativa do Kremlin é melhor.

É público, legal, barato e, caso alguém proteste, pode sempre invocar-se a liberdade de expressão, uma das coisas que Moscovo ou Teerão muito apreciam, mas não costumam facultar aos seus próprios cidadãos.

Foi para isto que surgiram operações como a Doppelgänger, que imitou páginas de jornais e instituições europeias, e redes como a Portal Kombat/Pravda, constituída por centenas de portais que reproduzem conteúdos pró-Kremlin em múltiplas línguas.

O objectivo não é fazer o europeu médio apaixonar-se por Vladimir Putin, mas convencê-lo de que ninguém sabe nada, todos mentem, a verdade é impossível de estabelecer, a NATO começou tudo, Israel é o Mafarrico, a Ucrânia talvez se tenha invadido a si própria e aquilo de Bucha foi produzido pelos mesmos tipos que filmaram a alunagem da Apolo 11 num estúdio secreto em Hollywood.

Para evitar que os mais excitáveis desmaiem, importa aqui fazer a elementar distinção de que  debitar propaganda russa, chinesa, islâmica ou do Hamas, embora não autorize um diagnóstico favorável sobre o estado cognitivo de quem o faz, não transforma automaticamente o papagaio num agente dessas honoráveis entidades.

O papagaio do meu vizinho grita repetidamente “abaixo o Governo” e, até ao momento, não se descobriu qualquer transferência bancária da oposição para a gaiola.

Mas, uma coisa é acusar que existem recibos e documentos a circular debaixo da mesa, e outra, perfeitamente legítima, é analisar aquilo que determinada pessoa diz de forma reiterada, e comparar essas afirmações com os panfletos difundidos pelo Estado que beneficia delas.

Tomemos por exemplo, o major-general Carlos Branco, que apresentou o Euromaidan como um golpe de Estado “orquestrado por Washington”,  “perpetrado por grupos paramilitares neonazis”,  e levantou dúvidas sobre a autoria russa do massacre de Bucha, chegando a sugerir a possibilidade de as vítimas terem sido mortas por forças ucranianas. São posições públicas dele, que não demonstram qualquer relação clandestina com Moscovo mas mostram que a sua interpretação coincide admiravelmente com a narrativa que Moscovo deseja ver difundida no Ocidente.

Também o major-general Agostinho Costa, entre infindáveis dislates, apresentou Jens Stoltenberg como “o porta-voz do Pentágono na Europa”,  declarou, face às crianças ucranianas capturadas pela Rússia, que “naturalmente não houve raptos”, e classificou militarmente a fuga dos militares russos de várias regiões da Ucrânia, como “gesto de boa vontade”.

Sim, é possível que tenha sido generosidade de Putin, da mesma maneira que também é possível que o Papa seja porta-voz do Primeiro Comando da Capital.

Já o professor Tiago André Lopes (TAL), depois de o Irão lançar mais de trezentos drones, mísseis de cruzeiro e mísseis balísticos contra Israel, explicou que o ataque tinha sido “uma resposta diplomática e não uma resposta ofensiva”.

É verdade que a diplomacia evoluiu extraordinariamente desde Talleyrand. Antigamente havia embaixadores, notas verbais, recepções e champanhe. Actualmente, pelo periscópio do professor TAL, um míssil balístico é basicamente uma nota diplomática que chega mais depressa.

TAL participou igualmente em iniciativas do Conselho Português para a Paz e Cooperação, onde as narrativas russófilas e pró-Hamas, encontram acolhimento especialmente caloroso. Isso, obviamente, não prova nada. Pessoas livres frequentam as sessões que querem, usam as melancias que entendem e cultivam as companhias que preferem.

Mas, como diz o povo, “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”.

O CPPC, que funciona na órbita do PCP, faz parte do Conselho Mundial da Paz, organismo cripto-soviético durante a Guerra Fria e que chama “intervenção militar” à invasão da Ucrânia, culpando a NATO, evidentemente. É, portanto, uma organização de “paz” segundo a qual, quando um míssil sai de Moscovo, a culpa aterra em Washington.

Na imprensa escrita, por exemplo o “AbrilAbril” tratou Maidan como “golpe fascista”, descreveu a ocupação da Crimeia como “reintegração” na Rússia, e publica repetidamente uma leitura da guerra extraordinariamente coincidente com a da Rússia Today, Sputnik, e os comentadores acima referidos. Nada disto prova que recebam ordens do Kremlin, tal como entrar todas as manhãs numa tasca não prova alcoolismo, mas já permite formular uma hipótese e trabalhar com inferências abdutivas.

De qualquer modo, é assim que funciona a lavagem de informação: uma narrativa nasce num organismo russo, chinês, iraniano, ou no “Ministério da Saúde do Hamas”, passa para uma agência, um portal ou uma organização, é reproduzida nas redes sociais, atravessa um blogue, aparece num relatório da ONU, numa universidade ou numa associação “humanitária”,  ganha respeitabilidade, e acaba diante das câmaras, cuidadosamente engomada, apresentada como análise independente por um senhor com gravata, ar grave e verbo expedito.

Já ninguém vê a etiqueta de origem e é exactamente isso que se pretende.

O interessante não é esta gente discordar da NATO, de Israel, do Ocidente ou dos EUA, coisa perfeitamente legítima. Democracias onde ninguém critica por medo, costumam mudar rapidamente de nome. O ponto é que o seu radar encravou e capta sempre e apenas os mesmos alvos.

Para acreditar num crime russo, iraniano ou do Hamas, é necessária uma comissão internacional, imagens de satélite, três autópsias, quatro testemunhas, análise metalúrgica do projéctil e, se possível, uma confissão de Putin ou do aiatola, autenticada por notário.

Para acreditar numa explicação do Ministério da Defesa russo, ou do Hamas, basta o “feeling”.

Ora quando os critérios têm esta  geometria variável, quando uma invasão se converte em “reacção defensiva”, 300 drones e mísseis passam a “diplomacia” e quando os comunicados de Moscovo, Teerão ou Hamas chegam em velocidade warp ao comentário televisivo ainda com a tinta fresca e estatuto de revelação, já não estamos perante análise alternativa mas, na melhor das hipóteses, perante stand-up comedy com riso amarelo.

A democracia inclui, evidentemente, o direito de papaguear a propaganda de todos estes agentes, e de explicar que a aliança militar a que Portugal pertence é a verdadeira ameaça, enquanto os países que nos ameaçam e nos nomeiam como “inimigo” são apenas vítimas particularmente musculadas. Inclui até o direito de achar que mísseis balísticos e drones são uma enérgica modalidade de conversação diplomática.

O que não inclui é a obrigação dos restantes cidadãos fingirem que não reparam.

Muito menos obriga a chamar “análise independente” a tudo aquilo que aparece num estúdio, com uma gravata.

Na velha espionagem procuravam-se toupeiras. Na moderna guerra híbrida continuam a procurar-se toupeiras, naturalmente, mas também papagaios, os quais, muitas vezes, acreditam mesmo que aquilo que papagueiam é a “sua” opinião.