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(A) :: O impacto das eleições presidenciais no governo

O impacto das eleições presidenciais no governo

O governo deve abandonar rapidamente a tese dos três blocos. Só desse modo se distingue claramente do PS. E só assim combate os socialistas, o maior adversário do governo, e reduz o apelo do Chega.

João Marques de Almeida
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Será que as eleições presidenciais marcaram uma viragem política em Portugal? Sempre me pareceu que o resultado das eleições presidenciais teria implicações políticas que iriam mais longe do que a simples eleição do Presidente da República. Seria óbvio que o resultado desastroso de Marques Mendes teria um efeito negativo no governo. Em defesa do PSD e do CDS, a verdade é que não houve outros candidatos da área da AD, nem quem estivesse disponível para concorrer a Belém. Marques Mendes seria sempre um candidato fraco, por isso a partir daí o governo poderia apenas limitar danos.

Era igualmente evidente que a vitória de André Ventura nas “primárias” da direita iria dificultar entendimentos entre o governo e o Chega. Uma vitória contra o candidato dos partidos do governo teria que aumentar o ego político do líder do Chega (que já não é pequeno). As eleições presidenciais condenaram qualquer entendimento mais duradouro entre o governo e o Chega.

Mas o maior problema foi a consequência política da eleição de António José Seguro. A eleição de Seguro transformou uma vitória eleitoral do PS num cenário plausível e possível. Há um PS pré-presidenciais e um PS pós-presidenciais. Aliás, foi mais ou menos depois de Fevereiro deste ano que os socialistas passaram a liderar as sondagens. Sempre temi que a vitória de Seguro tivesse este efeito político, de recuperação do PS, depois do desastre de Pedro Nuno Santos. Por isso, critiquei aqui no Observador o baixo assinado de “figuras do centro-direita a apoiar Seguro contra Ventura após a primeira volta.” Há muitos no “centro-direita” que olham para a política de um modo demasiado moralista, e a pensar na sua consciência, em vez de pensarem a política de um modo estratégico. Objectivamente, ao apoiarem Seguro na segunda volta das eleições presidenciais, ajudaram o PS contra o governo e contra a AD. A ideia de que as eleições presidenciais são apenas para eleger o PR, e que daí não resultam outras consequências políticas, é uma fantasia constitucional.

O PM, obviamente, percebeu isso e adoptou uma “neutralidade” política durante a segunda volta, apesar das pressões dos “moralistas do centro-direita” para apoiar Seguro contra um “anti-democrata.” O apoio de Montenegro a Seguro seria o mesmo que o PM dizer ao país ‘depois das presidenciais entrego o poder ao PS.’ Para justificar a sua neutralidade política, Montenegro desenvolveu a tese dos “três blocos” na política portuguesa: as esquerdas, a AD no centro e no centro-direita, e o Chega na direita. O grande problema foi a transformação de um argumento para justificar uma posição eleitoral numa tese de governo.

No dia 9 de Fevereiro, o dia depois da segunda volta das presidenciais, Montenegro deveria ter abandonado o argumento dos três blocos para sempre. Esta tese não depende da AD e por isso o governo colocou-se nas mãos do PS. Basta que o PS se distinga do PCP e do Bloco para a tese dos três blocos cair. Há quem argumente, em defesa da tese dos três blocos, que a AD também se deve distinguir claramente do Chega. Mas há uma diferença essencial. O PCP e o Bloco são partidos em declínio; o Chega é um partido em expansão. Quem ignora este facto relevante, não está a fazer política em Portugal em 2026.

Esta diferença tem implicações políticas decisivas. Em primeiro lugar, é mais fácil para o PS ocupar todo o espaço do centro para a esquerda, do que é para o PSD fazê-lo do centro para a direita. Em segundo lugar, no centro, a AD não recupera os votos na direita que perdeu para o Chega. Ou seja, a AD corre o risco de ficar entalado entre um PS que ocupa todo o espaço político do centro para a esquerda e um Chega consolidado na direita.

O governo deve abandonar rapidamente a tese dos três blocos. Só desse modo se distingue claramente do PS. E só assim combate os socialistas, o maior adversário do governo, e reduz o apelo do Chega na direita. Há uma coisa que os dirigentes do PSD nunca podem esquecer. Na história do regime democrático, o PSD foi sempre o maior partido do centro para a direita. Isso inclui o centro e a direita; não é apenas o centro (nem o PSD cresce para a esquerda; só um alucinado político como Rui Rio acreditava nisso). Se um dia deixar de ser o maior no espaço do centro para a direita, o PSD acaba como grande partido político.