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“Na Companhia das Estrelas”: Ridley Scott assina um filme pós-apocalíptico mas à medida do humano

Realizado por Ridley Scott, "Na Companhia das Estrelas" passa-se nos EUA após uma mortífera epidemia de gripe ter dizimado a população e lançado o país no caos. Eurico de Barros dá-lhe três estrelas.

Eurico de Barros
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Os filmes e as séries de ficção científica (FC) pós-apocalíptica, desde Bem-Vindo à Zombieland e Zombieland: Tiro Duplo, ou dos quatro 28 Dias Mais Tarde (sem falar em incontáveis fitas sul-coreanas), até The Walking Dead e The Last of Us, têm andado a abusar dos zombies. Quer daqueles que se mexem lentamente, como mandam as regras, quer dos que, por influência dos jogos de vídeo, correm como recordistas olímpicos dos 1500 metros. Todos eles sedentos de carne, sangue ou dos cérebros dos que sobreviveram ao apocalipse nuclear, epidémico, económico, ecológico ou outro.

Em Na Companhia das Estrelas, de Ridley Scott, passado nos EUA após uma mortífera epidemia de gripe que dizimou a população (e também à escala mundial, infere-se), não há zombies a vaguear por todo o lado. Apenas outro grupo de predadores costumeiros neste tipo de fitas, os saqueadores que reverteram a um estado tribal, pintalgaram-se todos e são aqui conhecidos por Ceifadores. Scott não podia fazer um filme pior depois de Gladiador II, e Na Companhia das Estrelas, baseado num livro de Peter Heller, é uma curiosa surpresa: uma história pós-apocalíptica com temas, situações e personagens características deste subgénero da FC, mas mais contida, intimista e optimista, e menos brutal, niilista e esbaforida do que se esperaria.

[Veja o “trailer” de “Na Companhia das Estrelas”:]

https://www.youtube.com/watch?v=sVCrTJdNtSs

Jacob Elordi é Hig, um mecânico e piloto civil que perdeu a mulher na epidemia e se refugiou com o seu fiel cão Jasper e o seu amigo Bangley (Josh Brolin), um ex-Marine e atirador de elite, num aeródromo fora da cidade onde viviam. Regularmente, Hig mete-se com Jasper num Cessna e vai lá abastecer-se de combustível, géneros e medicamentos que guarda em esconderijos, e ver se há novos perigos. De vez em quando recebe, no rádio do avião, farrapos de uma transmissão provinda da muito distante Grand Junction. Após um ataque nocturno de um punhado de saqueadores ao aeródromo, decide meter-se no avião, e contra o conselho de Bangley, ir saber quem faz aquela transmissão, e porquê.

[Veja uma entrevista com Ridley Scott, Jacob Elordi, Margaret Qualey e Josh Brolin:]

https://www.youtube.com/watch?v=t2oe3mh604Y

Ao deixar o relativamente certo pelo totalmente incerto, Hig vai dar o peito à aventura mas também pôr a vida em perigo. Encontra mais um par de sobreviventes que vivem numa quinta abrigada, Cima (Margaret Qualley), uma médica, e o seu pai, Jack (Guy Pearce), fazendeiro e antigo SEAL, com os quais irá acabar por chegar ao aeroporto de Grand Junction. Lá vão deparar-se com um pequeno, auto-suficiente e bizarro grupo de pessoas liderado por Darlene (Allison Janey), que era hospedeira de bordo e anda vestida e maquilhada como se fosse para um voo, e está enquadrada por militares armados. Entretanto, o aeródromo é atacado pelos Ceifeiros, e Bangley tem que se defender sozinho.

[Veja uma sequência do filme:]

https://www.youtube.com/watch?v=ClDBtHbwT-E

Na Companhia das Estrelas não inventa a roda e Scott mantém-se fiel às convenções desta modalidade de FC distópica, mas dá mais atenção do que o habitual às personagens e às suas características individuais, penas íntimas e necessidades fundamentais, sem por isso sacrificar as necessárias sequências de acção; e filma calculada e pausadamente, sem o estardalhaço gratuito, a histeria de espectacularidade ou o exibicionismo sanguinolento geralmente associado a este formato narrativo (quem viu o recente 28 Anos Depois: O Templo dos Ossos, sabe do que estou a falar).

O enredo tem incongruências (a casa onde Hig e a mulher viviam está sempre imaculada e intocada quando ele lá vai, como se a empregada da limpeza tivesse acabado de sair e o mundo em redor não tivesse colapsado), e o episódio em Grand Junction teria ganho em ser mantido simples como no livro, em vez de elaborado e grotesco. Mas tirando isso, Na Companhia das Estrelas mantém-se à medida do humano e do credível, e contorna o fantasioso e o desvairado, fazendo o elogio da ordem, da entreajuda e da resistência dos valores civilizados, contra o caos, o “cada qual por si” e a selvajaria. O que, num cenário pós-apocalíptico, não é incompatível com o ter-se um arsenal muito bem fornecido.