(c) 2023 am|dev

(A) :: Michelle Wolf e o "roast" a Trump: “Se pudesse mudar alguma coisa no meu monólogo do Jantar dos Correspondentes, teria ido ainda mais longe”

Michelle Wolf e o "roast" a Trump: “Se pudesse mudar alguma coisa no meu monólogo do Jantar dos Correspondentes, teria ido ainda mais longe”

Portugal conheceu a humorista através do "roast" que fez à administração Trump em 2018, no evento que junta os repórteres da Casa Branca. Wolf regressa a Portugal com um novo espectáculo no sábado.

Mariana Carvalho
text

Em abril de 2018, o presidente norte-americano em funções — um Donald Trump acabado de completar o primeiro ano de mandato — não tomou o púlpito do Jantar dos Correspondentes da Casa Branca, um evento destinado a financiar os repórteres que acompanham as atribulações políticas de Washington D.C.. Em vez dele, uma jovem de cachos ruivos, voz estridente e uma mão-cheia de piadas escandalizou os presentes, e todos aqueles que assistiam à transmissão pelo mundo fora. Como tudo o resto que diz respeito às elites da superpotência ocidental, também as críticas de Michelle Wolf à administração Trump ganharam repercussões extraordinárias e catapultaram a carreira da comediante natural da Pensilvânia para níveis de estrelato inéditos até à data.

As opiniões dividiram-se entre aqueles que amaram e detestaram o monólogo de Wolf, com o Presidente a tweetar — na altura ainda não tinha migrado para a Truth Social — “filthy ‘comedian’ totally bombed” (algo como “comediante” indecente fez um espetáculo terrível). Em retrospetiva, a cabeça de cartaz do Worten Mock Fest — que pisa o palco da Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge (Lisboa) no próximo sábado, 29 de agosto — admite que gostava de “ter ido ainda mais longe”. Na segunda visita à capital portuguesa, estreia o novo espetáculo de comédia stand-up, The Best Job in the World (O Melhor Trabalho do Mundo, em português) — só resta saber se se refere à profissão de comediante ou à recente maternidade.

É com o filho mais novo ao colo, um bebé de aproximadamente dois anos que prefere proteger do grande público, que responde às perguntas colocadas pelo Observador numa entrevista exclusiva (realizada por videochamada) que antecipa a visita da humorista ao país. Além do infame monólogo de 2018, a participação em programas como o The Daily Show já havia sugerido uma afinidade de Michelle pelo humor político — ou “social”, segundo a própria, que chegou a considerar os bits cómicos sobre a administração Trump e outras “politiquices” do género a “junk food” da comédia.

Michelle não é fã de comida processada, aliás, para ela não há nada como boas verduras e fruta de qualidade — coisas que só conheceu quando se mudou para a cidade de Barcelona, durante a pandemia. É a partir da Europa que observa o país de origem, sempre atenta, apesar da distância, às injustiças — sobretudo aquelas que incidem sobre as mulheres. “Acho que é importante falar sobre isso”, admite, em relação a um tema que por vezes a deixa “furiosa”. “Aliás, nem sei sobre que outro assunto falar neste momento.”

Atuou a 24 de agosto no Festival Fringe de Edimburgo. Como correu?
Sim, apresentei o meu espectáculo ontem e foi ótimo, eu adoro o Fringe, e ainda tenho alguns dias livres aqui, antes de voar para Lisboa. Vou aproveitar para relaxar, ver uns espetáculos, aproveitar o tempo fresco…

Há dias, lançou o documentário Page to Stage, onde viaja pela Irlanda a fazer stand-up comedy. Como surgiu esta ideia, que já vai no terceiro episódio?
O comediante norte-americano Mark Normand fez dois episódios antes de mim. Penso que, num deles, tentava criar uma piada do zero e, no segundo, uma piada clean [sem palavras vulgares e conteúdo sexual ou ofensivo]. Depois, pediu-me para fazer um episódio quando eu estava em digressão pela Irlanda, em outubro de 2024 — há já bastante tempo —, pelo que preparámos uma equipa de filmagens muito pequena e demos a volta ao país. Acho que fizemos cerca de 12 espectáculos, e filmámos enquanto eu trabalhava texto específico sobre a Irlanda. No fim, consegui fazer um set de 18 minutos e as duas semanas que passámos lá foram muito divertidas! A Irlanda é um país lindo, com públicos espetaculares, porque as pessoas são mesmo divertidas e apreciam humor. Pude correr [ao ar livre], trabalhar em comédia… Diz-me uma coisa melhor. Foi ótimo.

https://www.youtube.com/watch?v=8r3lJushH8Y

Vê uma grande diferença entre as audiências europeias e o público dos Estados Unidos?
O público norte-americano está sempre à espera da próxima piada, é muito exigente — “Entertain me, entertain me, entertain me!” Gosta que as piadas se sucedam umas às outras e depressa. Por outro lado, acho que no Reino Unido e na Europa as pessoas veem o stand-up como um espectáculo e ficam felizes quando alguma ideia [mais elaborada] se desenvolve. Creio que apreciam mais a arte da coisa.

A narrativa e os elementos de storytelling são mais valorizados?
Sim, os europeus estão investidos no espectáculo, não pensam: “Prova-me que tens piada!”, mas antes, “Deixa lá ver”. Também acho que, no Reino Unido e na Europa, há uma mistura impressionante: onde quer que estejas não vês só as pessoas originárias do país, mas uma série de expats e imigrantes de todos os lados. Quando estou em Barcelona, contacto com catalães, espanhóis, americanos, gente da América do Sul e de todos os cantos da Europa. É um espetro tão alargado de pessoas… Dou por mim a pensar, “Será que esta piada funciona em todo o lado?”

E a diversidade que descreve também pesou na decisão de se mudar para Barcelona?
Ajudou-me a ficar na cidade, mas não foi necessariamente um fator que considerei.

Quais são os aspetos que mais valoriza no estilo de vida de Barcelona em comparação com o que tinha nos EUA?
A minha coisa favorita — e isto pode parecer ridículo — são os produtos agrícolas, as frutas e os vegetais. Na América, a fruta não tem sabor, nada tem sabor. Deve ter visto nas redes sociais, aqueles vídeos de morangos completamente brancos por dentro. Já em Barcelona, a comida é tão boa e existe imensa disponibilidade de hortícolas da época. Agora no verão, a melancia é doce e sumarenta, nunca provei nada parecido nos Estados Unidos. As uvas também. Provavelmente, em Portugal acontece o mesmo.

https://www.youtube.com/shorts/Y0JyM_RX2zk

Não é uma resposta ridícula, de todo, a comida realmente impacta a qualidade de vida, é uma parte importante do nosso quotidiano.
Sim, eu sinto-me melhor no que diz respeito à alimentação em Espanha, porque existe comida “real” à disposição. Não se comem tantos alimentos processados e sinto-me menos cansada e letárgica. Mas, para ser sincera, no Reino Unido abuso do queijo, das bolachas e do pão.

Após alguns anos a viver em Espanha e frequentar o circuito local de stand-up comedy, sente que testemunhou a evolução da comédia no continente europeu? A língua continua a ser um obstáculo à sua integração no meio?
Penso que o stand-up está a explodir na Europa, cada vez vejo mais humoristas no ativo e o público é ótimo. Acho mesmo impressionante o facto de, apesar de não ser a sua língua materna, as pessoas compreenderem tão bem o humor em inglês. Sou terrível com línguas, por isso fico muito impressionada. Em Barcelona, há pessoas que atuam em espanhol, em catalão, até mesmo em inglês. É inacreditável. Eu adoro esta manifestação artística, é a minha coisa favorita no mundo, por isso ver pessoas a fazerem stand-up noutras línguas, mesmo sem entender necessariamente aquilo que dizem, é interessante na mesma. Dá para perceber, pela cadência das palavras, se uma piada vai ser boa ou má, porque o stand-up tem uma musicalidade muito própria.

"A minha coisa favorita [em Barcelona] — e isto pode parecer ridículo — são os produtos agrícolas, as frutas e os vegetais. Na América, a fruta não tem sabor, nada tem sabor. [...] Sinto-me melhor com a minha alimentação em Espanha, porque existe comida “real” à disposição. Não se comem tantos alimentos processados e sinto-me menos cansada e letárgica."
Michelle Wolf

Em 2023, a Michelle confessou à Rolling Stone que, “de forma errada, a colocam na caixa do humor político” quando, na verdade, “fala sobre problemas sociais”. Mas não será o humor sobre questões sociais inerentemente político?
Sim, quero dizer, acho que tudo é político. Não gosto quando os comediantes dizem que não são políticos, porque tudo é. Mas acho que, na América em particular, política limita-se a “És democrata ou republicano?” e à conversa sobre o Trump ou sobre os agentes políticos propriamente ditos. Depois de fazer o Jantar dos Correspondentes, as pessoas queriam que eu falasse sobre esses assuntos, sobre as figuras da política, mas só o fiz no Jantar porque esse era o trabalho. Sempre tive uma abordagem mais abrangente e centrada em questões sociais, e gosto de fazer essa distinção porque me interessa fazer comédia que vai além da política que está a acontecer no momento presente. Porque os problemas que enfrentamos são bastante mais complexos do que a política do quotidiano. Nos EUA, adormecemos a culpar o Trump pelas coisas que se passam no país, quando é todo o sistema político que está em ruínas. A culpa não é de uma ou de poucas pessoas — o problema está enraizado, todo o fundamento do nosso Governo é podre. Portanto, quando falo sobre questões sociais, estou a considerar a atividade dos políticos, mas também todas as outras questões que afetam a nossa sociedade.

No seu stand-up, a Michelle fala frequentemente sobre o Estado social, o aborto ou os cuidados de saúde. O que está a dizer é que estes assuntos não são considerados políticos ou, pelo menos, tão políticos como o último discurso do presidente Trump?
Sim, e parece-me tonto quando as pessoas dizem que não são políticas, porque… Se conduzes ou circulas na estrada — as estradas são políticas. As pontes também. A água que bebes é política, como tudo o resto. Acho que é preciso ser muito privilegiado para afirmar, “Bom, não vou discutir nada disto na minha comédia”. Em resposta a isso eu penso, “Que bom para ti, ainda bem que a tua vida é maravilhosa”.

Ter um corpo feminino e relatar a sua experiência é necessariamente um ato político?
Sim. Boa parte do meu espetáculo fala sobre a saúde feminina e os nossos corpos, porque quanto mais penso nestes assuntos mais furiosa fico. Tento abordá-los da forma mais engraçada possível, mas também quero que as pessoas percebam o que se passa. A falta de investigação sobre o corpo feminino é alarmante e inacreditável. Os nossos corpos são policiados, querem controlá-los, mas não se faz pesquisa sobre eles. Se pedir a algum dos homens que tomam medidas sobre os corpos das mulheres para desenharem um útero, eles não conseguem, não sabem do que estão a falar. E agora que tenho dois filhos, tudo isto explodiu à minha frente, ganhei noção daquilo de que somos capazes, das potencialidades do corpo feminino, e também percebi que, enquanto sociedade, não queremos saber das mulheres. Não gostamos delas, nem lhes oferecemos os cuidados necessários. Acho que é importante falar sobre isso, aliás, nem sei sobre que outro assunto falar neste momento.

"Parece-me tonto quando as pessoas dizem que não são políticas, porque… Se conduzes ou circulas na estrada — as estradas são políticas. As pontes também. A água que bebes é política, como tudo o resto. Acho que é preciso ser muito privilegiado para afirmar, 'Bom, não vou discutir nada disto na minha comédia'. Em resposta a isso eu penso, 'Que bom para ti, ainda bem que a tua vida é maravilhosa'."
Michelle Wolf

As mulheres comediantes são mais escrutinadas do que os homens porque existem em menor número na indústria?
Sim, todos os dias me dizem, não falas de outra coisa além do período menstrual. Mas a verdade é que eu lido com isso todos os meses, é uma parte relevante da minha vida. Vejo os homens a falar sobre artes marciais o tempo todo e isso nem sequer lhes acontece a eles ou dentro deles. Eu quero que as mulheres sejam mais honestas e frontais sobre aquilo que nos acontece, porque os homens não fazem ideia. Fomos silenciadas durante tanto tempo que muitos deles nem sequer sabem o que se passa, não porque tenham más intenções ou sejam ignorantes de propósito. Mas temos de ser mais vocais, falar sobre os assuntos — e eu tento fazer isso através da comédia.

Observa as mesmas desigualdades de género nos EUA e na Europa ocidental? 
Na Europa não é tão mau como nos Estados Unidos, mas pode melhorar. Sinto-me super à vontade a amamentar em público na Europa, não acho que as pessoas sejam estranhas em relação a isso. Ninguém quer saber — acho que os europeus, de facto, gostam de crianças. Também existem licenças de maternidade e cuidados de saúde acrescidos para as mulheres, mas penso que ainda está muito abaixo do expectável. Se fosse dar uma nota a cada um, a América merecia uma negativa e a Europa um suficiente menos.

"A falta de investigação sobre o corpo feminino é alarmante e inacreditável. Os nossos corpos são policiados, querem controlá-los, mas não se faz pesquisa sobre eles. Se pedir a algum dos homens que tomam medidas sobre os corpos das mulheres para desenharem um útero, eles não conseguem, não sabem do que estão a falar. Agora que tenho dois filhos [...] percebi que, enquanto sociedade, não queremos saber das mulheres."
Michelle Wolf

Apesar de admitir estar “furiosa” em relação a muitos assuntos que aborda na sua comédia, a Michelle costuma ter uma persona amigável em palco. Essa atitude é consciente e construída ou simplesmente a forma como se expressa no quotidiano?
Sou bastante independente, mesmo quando estou com os meus filhos não sou particularmente social. Mas agrada-me falar com pessoas, acho as pessoas, de um modo geral, interessantes. Ao mesmo tempo, levo muito a sério aquilo que acontece no mundo à minha volta, e há alturas em que estou mesmo irritada com os homens — mas, se falar com um homem específico, penso, “Ele é simpático, não é tão obtuso quanto isso”, porque quando olhamos para as pessoas como indivíduos vemos que não são mal-intencionadas. Não me parece útil odiar os homens, acho que não nos leva a lado nenhum nem contribui para a solução.

A maternidade alterou a sua abordagem na comédia?
Tenho muito menos tempo para trabalhar no que quer que seja agora, mas tornei-me exímia a aproveitar os pequenos intervalos para resolver assuntos pendentes e escrever piadas. Sempre adorei stand-up comedy, mas ser mãe ajudou-me a apreciar ainda mais esta coisa maravilhosa que tenho a sorte de chamar trabalho. E é tão bom poder abstrair-me do papel de mãe para fazer o que mais gosto…

https://www.youtube.com/shorts/2MHs2HFLxZU

Ser comediante é o melhor trabalho do mundo [The Best Job in the World]?
Acho que sim.

Como já referiu, em 2018 foi anfitriã do Jantar de Correspondentes da Casa Branca — pouco mais de um ano após a primeira eleição de Donald Trump —, onde apresentou um monólogo com menos de 20 minutos que chocou políticos e jornalistas ao redor do país. Em retrospetiva, o que foi assim tão chocante na sua atuação? Por que motivo provocou reações tão fortes?
Acho que, quando me convidaram, pensavam que uma mulher humorista ia ser menos cruel, mesmo que mandasse umas bocas a Trump. Mas qualquer pessoa que me conhecesse antes do Jantar saberia dizer-lhes que “a Michelle não tem meias-medidas”. Pensaram que eu podia ser crítica e, ao mesmo tempo, simpática e dócil, mas eu não sou assim — e eles não estavam à espera. Também acho que a minha performance foi tão badalada porque ataquei os media e a cobertura que fazem do Trump, acusei-os de lucrar às custas dele e de usarem a administração como entretenimento. Por isso é que fizeram tanto alarido sobre as piadas contra a [então Secretária de Imprensa da Casa Branca,] Sarah [Huckabee] Sanders, para desviar a atenção das críticas que fiz aos meios de comunicação. Há tanta coisa a acontecer que não é alvo de cobertura, porque não recebe cliques suficientes e tem audiências baixas, coisas importantes que desconhecemos por serem menos atraentes do que… o facto de o Trump ter sujado as calças ou algo do género.

https://www.youtube.com/watch?v=DDbx1uArVOM

Como é que o monólogo no Jantar dos Correspondentes influenciou a sua carreira no humor daí em diante?
Acho que me introduziu a muitas pessoas. Algumas odiaram, outras amaram — mas fico satisfeita por existir nesse espaço. Prefiro fazer algo que as pessoas amam ou odeiam do que comédia que produz reações ambivalentes. Se pudesse mudar alguma coisa no meu monólogo, acho que teria ido ainda mais longe. Sabendo as reações [polarizadas] que teve, mais valia ter mergulhado de cabeça.

Os comediantes não podem ser consensuais? Por definição, dividem as opiniões?
Acho que é possível ser adorado por toda a gente, mas isso só acontece quando não se fazem piadas sobre assuntos controversos. Quando se fala sobre temas divertidos e leves, sem ser político — aí acho que é possível ser consensual. Mas eu expresso opiniões muito fortes na minha comédia e tenho a certeza de que nem toda a gente concorda comigo. Gosto de pensar que aquilo que escrevo na comédia é o que quero dizer no momento, e aqueles que estiverem dispostos a ouvir-me são bem-vindos. Não vou tentar apaziguar a minha audiência, quem quiser pode juntar-se — se não, não há problema.

Depois do monólogo, vários meios de comunicação rotularam a comédia da Michelle como “desprovida de filtros”. Identifica-se com este rótulo?
As mulheres comediantes são constantemente rotuladas, consideradas obscenas ou sem filtros — o que não acontece com os homens. Acho que não ter filtros é bom e uma qualidade que todos os comediantes deviam ter, porque não quero suavizar o que tenho a dizer para agradar a ninguém. Acho que esperam essa franqueza dos homens, mas não das mulheres. Na altura disseram que eu podia ter sido mais simpática. Eu sei disso, mas não quero, não sou assim.

"Acho que [o monólogo no Jantar dos Correspondentes] me introduziu a muitas pessoas. Algumas odiaram, outras amaram — mas fico satisfeita por existir nesse espaço. Prefiro fazer algo que as pessoas amam ou odeiam do que comédia que produz reações ambivalentes. Se pudesse mudar alguma coisa no meu texto, acho que teria ido ainda mais longe. Sabendo as reações [polarizadas] que teve, mais valia ter mergulhado de cabeça."
Michelle Wolf

Como é que um humorista que aborda questões sociais evita transformar a sua comédia num sermão ou discurso sobre moralidade?
O principal é tentar ter piada. Qualquer pessoa pode dizer uma coisa séria, evidenciar ou denunciar aquilo que vê de mal no mundo e dizer coisas tristes. Mas o propósito da comédia é quebrar essa tensão e preenchê-la com uma gargalhada. Acho que não existe uma linha entre aquilo que é comédia ou sermão — é possível ser interessante, inspirador e estar irritado com piada. Enquanto as piadas estiverem presentes, está tudo bem.

Então o seu principal objetivo é fazer as pessoas rir e, se veicular uma mensagem no processo, melhor ainda.
Diria que as duas coisas andam de mãos dadas — são inseparáveis. Quero fazer as pessoas rir enquanto falo sobre as coisas que me importam. Se não provocar gargalhadas, tenho de recuar e melhorar o texto. Quando comecei a fazer este espectáculo, não estava a conseguir muitos risos e percebi, com a ajuda do público, que precisava de pôr uma punchline aqui e uma piada ali. Estar no palco é uma experiência que raramente fica concluída. Mesmo depois de oito meses na estrada, continuo a pensar que podia encontrar piadas melhores. É um trabalho que está sempre em progresso e isso é parte da graça.

É a segunda vez que atua em Portugal. Que memórias tem da última vez que esteve no país, em 2025?
Antes de mais, eu adoro uma cidade com colinas, adoro subir e descer as ruas. E Lisboa faz-me lembrar São Francisco. Da última vez que estive na cidade, atuei no [estúdio do] mercado [Time Out] e foi muito giro. O público era excelente, comi muito bem e adoro pastel de nata! A mulher idosa dentro de mim também gosta imenso de vinho do Porto, sou uma grande fã e faço sempre questão de beber um copo. E Lisboa tem qualquer coisa, não posso comentar sobre o resto do país porque não saí da capital, mas uma cidade com água tem um movimento especial, uma energia própria.