Por volta das 3h da madrugada, o som da música dos bares foi subitamente abafado pelos gritos de pânico. E, depois, pelo som de disparos. Esta terça-feira, em cerca de 10 minutos, numa das mais conhecidas zonas de animação noturna do Algarve, a Rua da Oura, viveram-se minutos de pânico. Um condutor alcoolizado — com uma taxa de 1,29 g/l — abalroou 16 pessoas antes de ser travado e detido pelos militares da GNR responsáveis pela segurança naquela cidade algarvia onde todas as noites, sobretudo no verão, se concentram milhares de turistas em busca de uma noite com muita música e álcool.
Dois dos dezasseis feridos estão em estado grave, segundo o último balanço das autoridades. A GNR confirmou a detenção do condutor, um homem de 35 anos, que agora poderá ter de responder pelos crimes de ofensa à integridade física qualificada, condução sob efeito de álcool e condução perigosa. Esta quarta-feira será presente a tribunal, para que lhe sejam aplicadas as medidas de coação. As autoridades fizeram ainda colheita de sangue para despistagem de substâncias psicotrópicas.
O condutor de dupla nacionalidade (portuguesa e angolana), emigrado no Reino Unido, desobedeceu por três vezes às ordens dos militares da GNR para parar o carro. Circulava numa zona interdita e onde apenas os peões podem estar. Desrespeitou essas ordens e, em poucos minutos, atropelou várias pessoas na via. Na avenida Sá Carneiro, depois de atropelar as primeiras pessoas ainda percorreu largos metros com duas vítimas em cima do capô.
Tentou por diversas formas evitar a detenção, saiu da avenida principal e acabou por entrar numa praceta, sem saída, nas imediações. Já não conseguiu voltar a sair. Seguiu-se uma fuga a pé e, no final, acabou detido pelos militares da GNR. Aconteceu tudo em escassos minutos. O Observador reconstitui esses instantes.
Rua Júlio Diniz: o ponto de partida

Perto das 3h desta terça-feira, um Skoda preto circulava na rua Júlio Diniz, em Albufeira. O condutor, um emigrante no Reino Unido, encontrava-se de férias na cidade algarvia. O carro preto onde seguia sozinho era, por isso, alugado.
Em ambos os lados da rua, perfilam-se vivendas com piscina, sebes tratadas, portões verdes. Ali, há apenas uma faixa de rodagem e os carros seguem obrigatoriamente em sentido único, na direção daquela que também é conhecida como a Rua dos Bares. Durante o dia, a circulação faz-se de forma livre. Mas, à noite — entre as 19h e as 6h —, apenas os moradores estarão autorizados a descer a avenida. As várias entradas desta artéria encontram-se habitualmente vedadas com baias.
A rua Júlio Diniz, de onde terá partido o condutor alcoolizado, vai desembocar nessa Rua dos Bares, alguns metros mais a norte da zona de maior concentração de espaços de diversão noturna. Para sul, multiplicam-se os bares e discotecas de um e do outro lado da rua. Há animação, música, luzes e centenas de turistas. Mesmo a uma terça-feira.
A interseção entre a Júlio Diniz e a Rua dos Bares: a primeira abordagem dos militares da GNR

A interseção da rua Júlio Diniz com a Rua dos Bares é marcada por uma passadeira. Mas, nesse momento, o condutor já estaria em situação irregular. Ao Observador, o major Pedro Pereira, comandante da GNR de Albufeira, explica que a circulação na rua Júlio Diniz é proibida entre as 19h e as 6h (para não moradores). Quando chegam ao início da rua, os condutores encontram uma baia e um sinal de trânsito “de grandes dimensões” com a indicação de que não podem seguir por aquela via. Naquele local, e ao contrário do que acontece na Rua dos Bares, não se encontravam militares da GNR.
O condutor terá ignorado a indicação de sentido proibido — e avançou. Percorreu os cerca de 300 metros da rua Júlio Diniz e chegou à interseção com a Rua dos Bares.
À esquerda, fica o bar de madeira Âncora. No passeio do lado direito, os condutores são confrontados com duas novas placas: um sinal de STOP e, imediatamente por cima, um sinal que lhes indica que é obrigatório virar à direita (precisamente na direção dos bares). Pedro Pereira sublinha que o condutor nunca deveria ter estado naquele local. No entanto, ali chegado, o procedimento deveria ter sido o de pedir indicações aos militares que se encontravam nas imediações. “Muitas vezes, os próprios militares acompanham a marcha — inclusivamente de residentes daquela rua — até ao final da avenida Sá Carneiro.” O major da GNR explica que esse percurso deve ser feito “em marcha lenta, com os quatro piscas e de forma ordeira”.
O condutor fez exatamente o oposto: virou à esquerda e afastou-se das centenas de pessoas que àquela hora estavam a sair dos bares; mas ignorou os alertas da GNR para parar o carro e, com essa decisão, acabou por seguir vários metros em contramão. Ao que o Observador apurou, contornou as baias de segurança instaladas no acesso e galgou o passeio para retomar a marcha. Começava a fuga do condutor às autoridades.
Cruzamente da Sá Carneiro com os Descobrimentos: segunda abordagem e primeira inversão de marcha

Cerca de 60 metros mais à frente, o condutor alcançou o cruzamento da avenida Sá Carneiro com a Avenida dos Descobrimentos — esse trajeto foi todo percorrido de forma irregular e é nesse local que, pela segunda vez, os militares da GNR o abordam e lhe dão ordem para que pare o carro. O homem abranda a velocidade, mas nunca chega a baixar o vidro ou a trocar quaisquer palavras com os militares.
Não seria a única vez a desrespeitar as instruções da autoridade. Seguem-se cerca de 450 metros até ao desfecho da viagem, na Praceta do Sol Nascente e mais dois (des)encontros com as autoridades.
O condutor decide então inverter a marcha, passando a dirigir-se para sul. À sua frente, a Rua dos Bares estendia-se em linha reta por mais de 400 metros. Os bares tinham acabado de fechar portas e havia centenas de pessoas na rua. O homem avançou.
Bar Blue Star: terceira abordagem da GNR e início dos atropelamentos

Escassos momentos antes do início da sucessão de atropelamentos, as autoridades tentaram, pela terceira vez, travar o condutor do Skoda preto, que já tinha desobedecido a duas ordens de paragem. Foi imediatamente após ignorar esta terceira abordagem que começou uma série de atropelamentos.
No troço entre o bar Blue Star — situado sensivelmente a meio daquele troço da avenida onde funcionam os espaços de diversão noturna — e uma zona mais a sul da Rua dos Bares, o carro foi colhendo sucessivamente várias pessoas. Mais abaixo, ao passar junto ao Simply Bar, o momento foi captado por uma câmara de videovigilância exterior do estabelecimento. Foram essas as imagens que começaram a circular passadas poucas horas do acidente.
https://youtube.com/shorts/YWDKqTZeYj8?feature=share
As imagens daqueles instantes mostram um ferido no chão e o automóvel a abalroar múltiplas pessoas. Duas das vítimas colhidas ficaram em cima do capô do carro, permanecendo ali até saírem do campo de visão da câmara. São ouvidos sete disparos para o ar, efetuados pelos militares — tiros de aviso dirigidos aos transeuntes, para desobstruírem a rua, e ao condutor, que continuava a avançar de forma desgovernada.
Os registos em vídeo mostram um cenário imediato de pânico: as pessoas correm em várias direções, outras prestam os primeiros socorros aos feridos, enquanto clientes e funcionários surgem às portas e janelas dos bares luminosos, em choque com a violência dos acontecimentos.
É possível ver ainda militares a correr pela avenida atrás do carro.
Rua Alexandre Herculano: a primeira vez que o condutor sai da avenida dos bares

Ao chegar ao final deste troço, a meio da avenida, o condutor deparou-se com um cruzamento onde se apresentavam três opções: virar à direita, prosseguir em frente, pela mesma avenida Sá Carneiro, ou virar à esquerda. Escolheu a última. Pelo caminho, além das pessoas feridas, a GNR indica também que o condutor abalroou um carro.
Foi a primeira vez que abandonou a Rua dos Bares. Logo após a manobra, surgiu uma nova bifurcação: continuar em frente ou virar novamente à direita, acedendo a uma estrada mais pequena que desemboca na Praceta do Sol Nascente que — nesse momento ainda não saberia — não tem outra saída.
Praceta do Sol Nascente: a nova inversão de marcha, a fuga a pé e a detenção

Há quase 10 minutos que o condutor alcoolizado lança o pânico nas ruas de Albufeira. Neste momento, os militares da GNR percorrem vários metros da Rua dos Bares em perseguição ao condutor que acaba de deixar mais de uma dezena e meia de pessoas feridas atrás de si. Duas estão em estado grave.
Ao entrar na Praceta do Sol Nascente, o condutor do Skoda alugado percebe rapidamente que se tratava de um beco sem saída direta, habitualmente com carros estacionados no centro da praça. Numa tentativa de retomar a fuga, volta a inverter a marcha — a segunda manobra deste género ao longo do percurso. Atrás dele, os militares da GNR mantêm a perseguição a pé.
Problema: ao tentar sair pelo mesmo acesso que tinha usado para entrar na praceta do Sol Nascente — o único disponível naquele local —, o condutor vê a sua trajetória dificultada por um outro carro que segue em marcha mais lenta à sua frente.
Sem o conseguir ultrapassar, a opção que lhe resta — e a última que toma neste trajeto — é abandonar o Skoda e continuar a fuga a pé em direção aos prédios que o rodeavam.
A patrulha de militares destacada para o controlo da entrada sul da avenida, por ser a que se encontrava mais próxima do local, acaba por ser a que interceta o homem, que se apresentava “visivelmente alcoolizado”. Pouco depois, juntaram-se no local os restantes militares que tinham descido a avenida a correr no encalço do carro.
Após a detenção — momento em que se identificou através de um “título de identificação emitido a cidadãos estrangeiros” —, o condutor “pediu desculpa”, mas sem dar qualquer justificação para o facto de ter desobedecido às sucessivas ordens de paragem das autoridades.
Os cerca de dez minutos de perseguição terminam num outro local: o posto territorial de Albufeira. Submetido ao teste de alcoolemia, o condutor apresentou uma taxa de 1,29 g/l, considerada crime, e realizou ainda uma colheita de sangue para despistar o consumo de substâncias psicotrópicas. Esta quarta-feira, será presente a tribunal. Os dois feridos graves, atropelados pelo condutor, continuavam internados e a receber cuidados médicos no Hospital de Portimão.
[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]