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Carneiro em busca do eleitorado perdido. PS quer chegar aos 35% antes de arriscar eleições

Três rotas pelo país, comícios no interior e um BMW com 30 mil km no primeiro ano como líder. José Luís Carneiro constrói a alternativa ao Governo com Guterres como bússola e sondagens no cronómetro.

Rita Tavares
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Diogo Ventura
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Em Freixo de Espada à Cinta já são quase nove da noite, mas o comício está vazio. Atrás do palco, na Rua 25 de Abril, há caldo verde, bebidas e sandes de carne cozinhada no tacho, a serem distribuídos num balcão frente à sede do PS. Há tempo. O líder acabou de chegar e também lá está, a comer qualquer coisa, depois de um dia de 300 km de estrada pelo interior. O contacto informal antes do comício também faz parte do jogo: ajuda a alimentar a imagem de proximidade que quer projetar e a mobilizar um partido que precisa de voltar a ganhar presença no terreno.

Quem passa pelo Largo do Castanheiro, naquela noite, numa terça-feira de agosto, dificilmente acredita que no horizonte próximo não há qualquer eleição. Quando se ouvem os acordes de Vangelis, as cadeiras são todas ocupadas e mais de uma centena de pessoas compõem a assistência. No palco, uma lona a toda a largura exibe o rosto do líder do PS e a frase: “O concelho de Freixo de Espada à Cinta apoia José Luís Carneiro para primeiro-ministro.”

A pressa da terra contrasta com a prudência que Carneiro tem pregado — e que, no íntimo, sabe que não pode abandonar. O líder socialista tenta arrefecer os ânimos, classificando o desejo ali inscrito na lona como “a primeira subscrição pública” de uma futura candidatura. Antes disso, terá de apresentar uma proposta política e reconquistar o eleitorado que abandonou o PS nas últimas legislativas.

Há um mês, deu uma entrevista ao Observador a garantir que não tem medo de eleições e que está preparado para governar. Mas o PS continua a precisar de tempo e de sondagens mais robustas a seu favor. Mais cerca de cinco pontos percentuais, chegar perto dos 35% é considerado no topo do partido como uma margem mais segura. E, mesmo assim, sabendo que a forma como se avançar para eleições, sobretudo antecipadas, será determinante junto dos eleitores. Continua firme a convicção de que quem provoca eleições é penalizado.

O tempo é de cortejar o eleitorado, num contacto quase porta a porta, traçado para ouvir e registar insatisfações e prometer que terão resposta no programa que está a construir. Esta terça-feira, começou em Chaves e terminou o dia em Freixo de Espada à Cinta, passando por Vinhais e Foz Côa. Carneiro está convencido de que a ausência de respostas para os problemas concretos das pessoas é o principal combustível do crescimento do populismo.

Nunca falou com André Ventura — e não quer falar. Considera-o um perigo para a democracia e recusa dar-lhe essa confiança. Foi para o Chega que fugiu uma parte do eleitorado socialista nas últimas legislativas, que deixou o partido em queda. A recuperação desse voto terá, por isso, de ser cuidadosamente calculada. E Carneiro acredita dispor de dois trunfos para esse ombro a ombro: por um lado, uma contrastante imagem de moderação e, por outro, uma certa proximidade a valores tradicionais, de matriz mais conservadora.

Anda pelo país, sempre acompanhado pela sua mulher Goreti (que tirou férias para acompanhar o marido por estes dias), na “rota pelo Interior e Cooperação Transfronteiriça”. É a terceira que faz, depois da rota pela Nacional 2, de outra dedicada ao ensino técnico profissional e outra ainda pela economia do mar. Isto além de uma volta ao país, nas autárquicas de há um ano, e mais duas voltas pelo país socialista, para as duas eleições diretas que venceu, sem adversários.

No primeiro ano como líder, Carneiro fez mais de 30 mil km pelo país

O BMW do partido em que segue viagem fez mais de 30 mil quilómetros no primeiro ano de liderança de Carneiro (mais visitas às ilhas). Vai sempre ligado. No telemóvel, lê mensagens, propostas, sugestões e o feedback às suas intervenções, enquanto atende chamadas, mais ou menos privadas. No tablet instalado nas costas do banco da frente, acompanha o que vai acontecendo. Ali, no banco de trás do carro, gere agenda e segue os noticiários dos vários canais. Levanta os olhos sempre que ouve a sua voz: quer perceber se a tirada saiu bem, mas sobretudo se a mensagem passou.

Puxa do telemóvel, pesquisa o mapa do país com o trajeto da Nacional 2 destacado, a cortar o território como uma espinha dorsal. “Temos de olhar para o país como um corpo. Deste lado [e aponta para a faixa do interior], dois terços do território estão desaproveitados.” Diz que só desliga quando dorme e para ler o livro que traz na pasta do computador, ali aos seus pés: “Hiperpolítica”, de Anton Jäger.

No PS, até entre os seus críticos, o percurso deste primeiro ano de Carneiro é muitas vezes descrito como “trabalho de formiguinha”. Ou como disse Francisco Assis, que se juntou ao líder em Chaves logo pela manhã, “é um estilo de oposição que devia ser valorizado. Não é atrativo, mas é imprescindível para o momento do nosso regime democrático”.

Carneiro leva consigo figuras do partido, nesta empreitada, dirigentes, deputados, eurodeputados, muitos deles estão focados em áreas concretas, com vista ao programa eleitoral que quer elaborar no fim desta auscultação do país. E vai enumerando, para provar trabalho e articulação de todo o partido com o seu plano: “O Frederico Francisco nas infraestruturas”; “o André Moz Caldas um homem da cultura”; “o Porfírio Silva e a Aida Tavares na Educação, Cultura e Património”; “o Nuno Fazenda no plano para a valorização do interior”; “Júlia Rodrigues na Agricultura e Coesão.”

Quer identificar constrangimentos territoriais e também oportunidades e, a partir daí, definir elementos de políticas públicas, cujos primeiros pilares pretende apresentar em outubro numa iniciativa do seu movimento “Contamos Todos”. Conta ter o programa político mais consolidado dentro de um ano.

Um exemplo deste seu modus operandi é a paragem que faz em Moimenta da Raia, para visitar um souto. É entre os castanheiros que ouve produtores queixarem-se dos problemas da rega e também da praga que, este ano, tem desafiado uma produção que pesa 50 milhões na economia nacional. Cerca de 70% da castanha nacional vem dos concelhos de Bragança e Vinhais (e lá estão os dois presidentes da câmara, socialistas, a confirmarem a dimensão). “Já levo o essencial”, diz o líder do PS que, depois de ouvir, sintetiza as questões: “Regadio e construção de charcas; investimento em ciência; incentivo dos fundos europeus”.

Também há queixas sobre as ligações rodoviárias e aí chama: “Ó Frederico, então?”. O deputado destacado para essa frente abre o mapa de estradas no telemóvel e tenta perceber que ligação está em causa. A comitiva segue para Vinhais, desta vez não tem de ir dar a volta a Espanha, como fez, para ser mais rápido, quando vinha de Chaves.

Evitar confronto, focar em Montenegro e pressionar definição sobre o Chega

No restaurante “O Silva”, cerca de 40 convivas aguardam Carneiro que, depois do almoço, fala para explicar a importância de “corresponder às expetativas das pessoas”. É um mantra com que tenta estancar o populismo e para o qual recebeu um input importante logo de manhã. O eurodeputado Francisco Assis aguardava pelo líder do PS na Escola Superior de Hotelaria e Bem-Estar e trazia uma linha preparada para responder a Hugo Soares que, no dia anterior na Universidade de Verão do PSD, tinha comparado o PS ao Chega. “É incompreensível e inadmissível”, disse Assis que definiu uma “diferença profunda” entre os dois partidos da seguinte forma: “O PS faz oposição ao Governo, o Chega faz oposição ao regime”.

O PS quer que Luís Montenegro escolha entre os dois, apontando que isso devia ter acontecido já nas presidenciais, quando de um lado estava António José Seguro e do outro André Ventura. “Entre a direita democrática e a extrema-direita, o PS apoiaria a direita democrática”, garantia Assis. Carneiro também já tinha posto peso neste momento político numa intervenção dias antes.

A um mês de uma negociação importante, a do Orçamento do Estado para 2027, e quando põe um acordo prévio entre PSD e PS na revisão constitucional como condição para a viabilização socialista, Carneiro evita entrar em polémicas diretas com o PSD. Naquele dia, depois de ser acusado de impreparação por parte de Hugo Soares e de ter ouvido a comparação com o Chega, não resiste e, à segunda insistência dos jornalistas, atira que “são declarações levianas de quem se vê que nunca teve experiência executiva”.

À tarde, quando, a partir do mesmo palco de Castelo de Vide, Paulo Rangel se atira a um PS “delicodoce” que também acusa de “impreparação”, já trava mais a fundo, recusando comentar a “espuma dos dias”. Atrás, entre os deputados socialistas que o acompanham, comenta-se: “E falar em espuma dos dias já foi demais.”

O líder quer manter o debate direto com o primeiro-ministro e é a bordo do carro que articula com assessores e o seu braço direito no partido, Luís Soares, que se calhar era conveniente encontrar um momento para, no domingo, ser ele a reagir à intervenção que Montenegro fará no encerramento da Universidade de Verão. “Onde é que vamos estar no domingo à tarde, Luís?”, pergunta ao telefone ao seu homem para a organização do partido. Mas estará em Lisboa, sem agenda, a preparar-se para, no dia seguinte, viajar para Moçambique com o líder parlamentar. Ainda tentará arranjar forma de ser ele a falar.

Quanto aos restantes tiros que vêm e virão do PSD, Carneiro quer continuar a tentar não ripostar. E ainda que, de manhã, Assis tenha ensaiado uma dramatização ao dizer que “tem de haver o mínimo de urbanidade, não se pode querer o apoio do PS, atacando o PS e uma comparação inaceitável entre o líder do PS e o do Chega”, o líder acredita que essas declarações não são um risco para negociações políticas que vêm pela frente.

O risco maior, no caso do Orçamento, é mesmo Montenegro não assumir em público que está disponível para acertar com o PS as questões constitucionais essenciais nas quais não alinhará com o Chega. O líder socialista continua a pôr essa condição de viabilização à cabeça e aguarda a declaração pública do primeiro-ministro — é também uma prova que quer dar de que não viabiliza o OE sem custo.

Na relação com o PSD, é o próprio Carneiro que parece procurar uma política de fronteira: boa vizinhança, sem anexação, cooperação sem casamentos e zonas francas (como aquelas que tantos territórios da raia lhe pediram por estes dias) em matérias pontuais. Tudo sem abdicar da identidade própria — e, idealmente, ficando politicamente por cima.

Navegar com eleições à vista, mas sem precipitar a aproximação ao porto. O território que ainda tem para recuperar é imenso e inclui recuperar a confiança no PS. E ainda que tenha sido na governação Costa que tenha tido a experiência executiva no poder central (como secretário de Estado das Comunidades e, mais tarde, ministro da Administração Interna), é em António Guterres que mais inspiração tem procurado, para tentar restabelecer essa confiança.

No comício da rentrée em Olhão, disse-o com todas as letras, ao lembrar que tinha sido dali que, em 1995, saiu a “demonstração da força de uma alternativa para o país.” Nesta rota deu outro sinal, quando foi ao Museu e Parque Arqueológico do Vale do Côa e fez por recordar a luta popular para a proteção das figuras rupestres então descobertas. E a decisão que Guterres tomou de cancelar a barragem do Baixo Côa que as submergiria.

Mais do que revisitar a memória política (até porque Guterres tinha eleições nesse mesmo ano do “comício da Pontinha”), Carneiro parece estar à procura de uma fórmula: a de um partido capaz de voltar a apresentar-se como alternativa, mas sem perder o país pelo caminho. Sem saber, ao certo, em que ponto concreto vai a viagem.

[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]