Oito dos dez anos mais quentes de que há registo ocorreram nas últimas duas décadas – e em julho de 2022 o nosso país atingiu 47.ºC, com o maior número de dias de ondas de calor desde 1941. As projeções são claras: se nada mudar, as temperaturas de verão e outono poderão subir até 8.ºC até 2100.
Este aquecimento não é uma questão de termómetros, é uma questão de vidas, saúde e desigualdade. Os incêndios de 2017 devastaram 500 mil hectares e tiraram a vida a 120 pessoas. Em 2023, cinco anos depois, 97% do território nacional sofreu situações de seca e é evidente que o impacto é real quando as escolas encerram, os negócios abrandam e os serviços públicos ficam sob enorme pressão.
Idosos, crianças, mulheres e famílias com rendimentos mais baixos são, em grande medida, os que mais sofrem com estas consequências, ficando mais afastados de cuidados de saúde essenciais, de oportunidades de educação e de meios para se protegerem.
É por tudo isto que falar de resiliência climática não é uma tendência, é uma necessidade. É capacitarmos as comunidades para que continuem a perseguir os seus objetivos sociais, económicos e ambientais, mesmo sob pressão constante de ondas de calor, secas e incêndios. Não se trata apenas de “voltar ao normal” depois de um evento extremo, mas sim de manter, ao longo do tempo, as condições que permitam às pessoas viver, aprender e desenvolver-se.
Uma adaptação verdadeiramente eficaz não deverá ser feita com soluções padrão: exige compreender os riscos específicos de cada território, reconhecer as suas vulnerabilidades e trabalhar lado a lado com quem lá vive para co-criar respostas práticas, inclusivas e duradouras. Enquanto seguradora, o que nos mobiliza não é apenas a realidade que se mede em graus, hectares e euros, mas sobretudo a realidade concreta que se mede em vidas e em igualdade de oportunidades para que possamos assumir o compromisso de ajudar a garantir que a adaptação climática reforça não apenas sistemas, mas também a justiça e a equidade.
Quando olhamos para o impacto que já hoje sentimos nas nossas comunidades, torna-se evidente que a resposta não pode limitar-se a gerir o risco depois do dano. Precisamos de o antecipar, reduzir e partilhar de forma mais justa. É precisamente com este propósito que, em colaboração com a Cruz Vermelha Portuguesa, estamos a implementar o Cidades + Preparadas – Programa de Resiliência Climática Urbana em Portugal.
O programa integra o Urban Climate Resilience Program, uma iniciativa global liderada pela Z Zurich Foundation para apoiar comunidades urbanas vulneráveis afetadas pelas alterações climáticas e que já foi implementado em países como Austrália, Colômbia, Equador, Espanha, Estados Unidos da América, Itália, Malásia, Reino Unido e Turquia.
A nossa experiência enquanto seguradora mostra-nos que o risco não deve apenas ser transferido para uma apólice – é algo que deve ser compreendido em profundidade e gerido em conjunto, desde o planeamento urbano até à proteção das populações mais vulneráveis.
Na prática, este programa traduz-se em medidas muito concretas, como identificar os principais riscos climáticos em cada município – Lisboa e Braga – e reforçar a capacidade de resposta local. Isso implica, por exemplo, a criação e sinalização de espaços de arrefecimento – escolas, centros comunitários ou equipamentos públicos preparados para acolher pessoas nos dias de calor extremo – e pelo desenvolvimento de planos de preparação e resposta a ondas de calor e incêndios.
Em paralelo, vamos aumentar a sensibilização e capacitação das comunidades, para que cada pessoa saiba, de forma simples e clara, o que pode fazer para se proteger e apoiar quem está ao seu lado nestes eventos extremos. Mais relevante do que cada iniciativa isolada é o facto de estarmos a incorporar a resiliência na forma como os municípios pensam o seu futuro.
Nenhuma cidade se torna resiliente sozinha – e nenhuma organização o consegue fazer em silos. A resiliência climática urbana é, por definição, uma ação coletiva. Requer autarquias com visão de longo prazo, organizações sociais com conhecimento profundo do terreno e das comunidades, empresas privadas com capacidade técnica, financeira e de inovação, universidades que produzam ciência e cidadãos informados que participem ativamente nas soluções. As parcerias entre o setor privado e o setor social são fundamentais para transformar dados em decisões e diagnósticos em soluções concretas, justas e sustentáveis.
Na Zurich, sabemos que o risco climático não desaparece, mas pode ser reduzido, redistribuído de forma mais justa e, sobretudo, encarado de forma partilhada. Se conseguirmos transformar a pressão que hoje sentimos em incentivo para colaborarmos mais e melhor, estaremos a fazer mais do que adaptar as nossas cidades ao calor e ao fogo: estaremos a reforçar a sua capacidade coletiva e a confiança mútua entre setores. E isso, em última análise, é o real fundamento de qualquer sociedade resiliente.
Este artigo foi publicado no âmbito do projeto À Prova de Risco, com o apoio da Zurich.