Em 2020, Paulo Lopo pegou num Estrela que há muito não conhecia o sabor do primeiro nem do segundo escalões mais altos do futebol nacional. Esta terça-feira foi oficializado um negócio de cerca de 40 milhões de euros que confirma a transição da SAD amadorense para um consórcio alemão, fechando um ciclo de seis anos cujo final contrasta com o início de funções de Paulo Lopo: em 2020, o Estrela jogava na terceira divisão distrital; em 2026, a Reboleira alberga um clube que compete na Primeira Liga há quatro temporadas consecutivas.
https://observador.pt/2026/08/24/antigas-e-atuais-estrelas-do-futebol-um-executivo-ex-bayern-e-o-sonho-do-top-8-quem-e-o-grupo-de-investidores-que-viu-a-estrela-na-amadora/
“O Estrela da Amadora vem por este meio informar que foi concluído o processo de aquisição de uma participação maioritária de 90% do capital social da SAD por um consórcio internacional liderado pela ADvantage e pela LEAD, com o apoio do Grupo KI”, confirmou esta terça-feira o Estrela da Amadora em comunicado.
As circunstâncias sob as quais o empresário entrou no clube tinham raízes com mais de uma década e podem ajudar a explicar como é que Paulo Lopo adquiriu a SAD tricolor por “apenas” 72 mil euros. Corria a época 2008/2009 na Primeira Liga e o Estrela de Lito Vidigal tinha acabado o Campeonato no 11.º lugar. A classificação era, afinal, positiva para o clube da Reboleira. Mas a situação financeira não. As dívidas acumuladas – a fornecedores, funcionários, jogadores, Fisco e Segurança Social – tornaram a recuperação impossível. A 29 de setembro de 2009, o Tribunal de Sintra declarou o clube insolvente. A última época de futebol sénior terminou em maio de 2010, com uma derrota caseira frente ao Real Massamá na 2.ª Divisão Distrital. Em 2011, o Clube de Futebol Estrela da Amadora, “aquele” Estrela, foi oficialmente extinto.
[Ouça aqui a entrevista de Paulo Lopo no Explicador da Rádio Observador]
https://observador.pt/programas/explicador/paulo-lopo-preferi-nao-ficar-por-uma-questao-de-principio/
O reinício do Estrela e a falta de “interesse em vender”
A cidade não quis aceitar o fim. Em setembro desse mesmo ano, 13 sócios refundaram o Estrela sob o nome de Clube Desportivo Estrela. Começaram do zero: pintavam os muros, limpavam os balneários, tratavam da secretaria. O Estádio José Gomes, que pertencia à massa insolvente do clube extinto, ficou durante anos numa situação de limbo legal. A Taça de Portugal – conquistada em 1990 numa final realizada no Jamor frente aos algarvios do Farense, no maior troféu da história do clube – estava hipotecada.
Em julho de 2020, o Clube Desportivo Estrela oficializou a sua fusão com o Sintra FC, nascendo assim o Club Football Estrela da Amadora, que ascendeu imediatamente ao Campeonato de Portugal, o terceiro escalão nacional.
https://observador.pt/2020/07/11/estrela-da-amadora-ganha-uma-nova-vida-fusao-com-sintra-football-aprovada-subida-ao-terceiro-escalao-e-recompra-do-jose-gomes/
Foi nesse mesmo ano que Paulo Lopo chegou e reiniciou o mesmo processo logístico que aqueles 13 sócios levaram a cabo em 2011. Junto a ele estava o filho, Francisco Lopo, que hoje se mantém no clube, como diretor-executivo.
O que Lopo encontrou era pouco. “Não tínhamos o estádio, a Taça de Portugal tinha sido hipotecada, não tínhamos o sintético para as crianças”, recordou Paulo Lopo, em entrevista à Rádio Observador. Agora, seis anos depois, após uma transformação total no clube, 90% da SAD muda de mãos mas a decisão de vender não partiu de uma necessidade imediata. “Não havia interesse em vender”, garantiu. O que havia era a consciência de que o ciclo estava a fechar – e de que o passo seguinte exigia meios que escapavam à sua capacidade. “Sentia que para darmos o próximo passo era importante a entrada de novos investidores porque a concorrência é muito agressiva, muito feroz”, acrescentou.
Quanto às dificuldades financeiras que nos últimos meses tinham sido notícia, Lopo foi direto: “As dificuldades financeiras foram um pouco empoladas. O facto de se fazer um PER [Processo Especial de Revitalização, uma operação que viabiliza negociar um plano de recuperação com os credores para evitar a insolvência] não se traduz só em dificuldades financeiras, traduz-se mais em dificuldades de tesouraria“, explicou. E comparou: “Se olharmos bem para todos os clubes nacionais, todos têm dívidas – algumas dez ou vinte vezes mais do que o Estrela da Amadora”.
Olhando para o futuro, o empresário revelou que já teve “imensas abordagens”, mas não está “sequer recetivo a ouvir”, antecipou. “Acho que, neste momento, o mais importante é descansar um pouco. Quando se está no futebol, não se tem tempo para descansar. Deixo em aberto o que o futuro terá para mim neste momento. Preciso de descansar, refletir bem sobre o futuro, perceber se posso ser útil ou não ao futebol português. Só depois verei o que pode ser o futuro”, concluiu.
A ponte Amadora-Alemanha e o protocolo que protege o nome, o símbolo e as cores do clube
A ligação ao mercado alemão não foi por acaso. “Como éramos um clube com poucas condições financeiras, teríamos que procurar mercados onde os outros não estavam presentes ou estariam menos presentes para podermos fazer a diferença”, explicou o antigo presidente da SAD tricolor, acrescentando que o sucesso nessas contratações “poderá ter despertado curiosidade aos investidores alemães”. Sidny Cabral é o exemplo mais acabado desse modelo – chegou da Alemanha, afirmou-se na Reboleira e saiu por um valor substancialmente superior ao que custou ao Estrela.
A decisão de Paulo Lopo não ficar no clube “não foi uma escolha dos novos donos”, explicou. “Na perspetiva deles, até gostariam que eu continuasse também, mas eu preferi afastar-me, porque acho que chegou a minha altura. Portanto, fiz o meu trabalho, o meu trajeto, aquilo que me tinha comprometido, que era agarrar naquilo que se estava a fazer com o CD Estrela, recriar o Estrela da Amadora e conduzi-lo à Primeira Liga. Este grupo de investidores que entrou considerou que o trabalho que estava a ser feito do ponto de vista estrutural era bom e quis manter a equipa toda. Por uma questão de princípio, preferi não ficar”, afirmou.
Thomas Müller e Mats Hummels – ambos campeões mundiais em 2014 – são os nomes mais mediáticos do consórcio alemão. Paulo Lopo foi claro: o papel de ambos no negócio é “quase residual”. “Não são os principais investidores. Acabam por chamar mais a atenção pela grandeza do nome, por serem pessoas muito conhecidas no futebol internacional”, explicou. Quem lidera o projeto é Johannes Mösmang, um dirigente com mais de dez anos de experiência no Bayern. Lopo garantiu que o nome, o símbolo e as cores do Estrela da Amadora estão protegidos por protocolo – “nunca vou permitir que isso aconteça” – e que a ambição para os próximos anos é clara: no médio prazo, lutar pelos lugares europeus. A nova administração olha para os oito primeiros lugares da Primeira Liga.
As garantias dos novos investidores
“O Estrela é um clube histórico do futebol português, com raízes profundas na Amadora, uma identidade muito própria e uma comunidade apaixonada. É também um clube com uma característica muito especial: a propriedade do seu próprio estádio. Estamos muito motivados para iniciar este novo capítulo e construir, de forma disciplinada e sustentável, um projeto de que os adeptos, a comunidade e todos os que fazem parte do Estrela se possam orgulhar”, afirmou Johannes Mösmang na nota emitida pelo clube.
De acordo com a mesma nota “a nova administração pretende centrar o seu projeto no desenvolvimento desportivo e institucional do clube, apostando nas pessoas, nas infraestruturas, na formação, na inovação e na criação de condições para um crescimento sustentável e competitivo”, com o “conhecimento e a experiência internacional dos seus novos parceiros, nomeadamente nas áreas do investimento, tecnologia e transformação digital. Para o clube, o Grupo KI “será um dos parceiros estratégicos do clube neste processo de transformação”, pela sua “presença consolidada em Portugal e experiência no desenvolvimento de soluções tecnológicas e de inteligência artificial”.
E concluem a oficialização com uma garantia: “A nova estrutura do Estrela da Amadora pretende, acima de tudo, respeitar a história e a identidade do clube, mantendo a Amadora e os seus adeptos no centro de todas as decisões e ambicionando construir um futuro sólido e sustentável para o Estrela”.



