Três fitas de exercício físico, uma cave e apenas 55 minutos. Foi tudo o que Lindsay Clancy, uma enfermeira de obstetrícia, precisou para asfixiar até à morte os três filhos, em janeiro de 2023. Depois de cometer o crime, tentou suicidar-se e saltou de uma janela do segundo andar. Sobreviveu à queda, mas o impacto deixou-a paraplégica. Foi condenada e hoje, com 36 anos, considera-se inocente da morte das crianças por motivos de insanidade mental.
Além do papel de assassina, está uma mãe que, nos quatro meses anteriores à tragédia, recebeu prescrições para 13 medicamentos psiquiátricos diferentes enquanto pedia ajuda de forma desesperada. O caso acabou por expor graves falhas no sistema de saúde mental materna nos Estados Unidos e desencadeou um intenso debate na internet. O “tribunal das redes sociais” inundou-se de teorias da conspiração, que até chegaram a apontar como culpado o marido, que tem um álibi inquestionável. Os Estados Unidos estão divididos. Para uns, o caso é a prova de que o sistema de saúde norte-americano negligencia as mães e falha nos cuidados de saúde mental materna. Para outros, prevalece a indignação pela morte de três crianças inocentes. E tem de existir um culpado.
Porém, no Tribunal de Plymouth, em Massachusetts, o embate que se desenha não é sobre a autoria dos crimes. O julgamento — a entrar na fase das alegações finais e transmitido em direto para todo o mundo — foca-se em algo difícil de apurar, mas crucial: a questão da responsabilidade criminal. Clancy agiu de forma fria, calculada e racional, como sustenta a acusação? Ou foi arrastada para o abismo por um surto incontrolável de psicose pós-parto, fruto de uma doença mental grave e de um sistema de saúde que falhou em protegê-la, como explica a defesa? É este o veredicto que o júri tem agora em mãos.
O dia em que Duxbury parou
Duxbury, um subúrbio a sul da cidade de Boston, era habitualmente o retrato de segurança familiar. Mas, a 24 de janeiro de 2023, essa normalidade caiu no espaço de poucos minutos. Lindsay Clancy, uma enfermeira de obstetrícia descrita por todos como uma mãe dedicada, estava em casa com os seus três filhos: Cora, de cinco anos, Dawson, de três, e Callan, de apenas oito meses. Desde o nascimento do filho mais novo, Lindsay debatia-se, nota o New York Times, com uma degradação da sua saúde mental, marcada pela ansiedade, insónias, pensamentos de automutilação e medo de magoar os filhos.
Dias antes do crime, Lindsay partilhou com o marido, Patrick Clancy, que estava a lutar contra problemas de saúde mental, tendo falado abertamente sobre pensamentos suicidas e receios de magoar os filhos. A enfermeira descreveu que se sentia paranoica, desconectada do corpo e assombrada por uma ansiedade extrema, segundo explicou Patrick no dia do seu testemunho em tribunal. Lindsay tinha até um diário no qual registou o seu desespero e a forte “névoa cerebral” que sentia.
Contudo, naquela terça-feira, Clancy acreditava que o pior já tinha passado. A mulher parecia invulgarmente “feliz e enérgica”. Tinham passado o dia juntos e até tinham construído um boneco de neve no quintal com as crianças. Patrick descreveu aquele como “um dos melhores dias” de Lindsay.
O ambiente era de aparente normalidade. Pouco depois das 17h, Patrick preparava-se para sair de casa. Lindsay pediu-lhe para fazer dois recados: ir à farmácia para levantar um medicamento e recolher o jantar que ela tinha encomendado num restaurante próximo de casa, como explica a fita do tempo feita pela CNN. Antes de fechar a porta, o marido da enfermeira embalou Callan nos braços, viu Dawson a comer no sofá e deu um beijinho de despedida na cabeça de Cora. Lindsay ficou sozinha em casa com as três crianças e esta seria a última vez que Patrick veria os filhos com vida.

A acusação e a polícia reconstituíram, ao minuto, os movimentos de Patrick através de câmaras de vigilância, recibos e dados de GPS do carro e do telemóvel. Esteve ausente de casa cerca de 55 minutos. Enquanto estava na farmácia, Patrick ligou a Lindsay, mas ela não atendeu. Cerca de um minuto depois (por volta do momento em que os investigadores acreditam que os crimes ocorreram), Lindsay devolveu a chamada e, numa conversa curta e com um tom perfeitamente normal, confirmou apenas que o marido podia trazer a versão genérica do medicamento.
Enquanto o marido estava fora de casa, a mulher levou os três filhos para a cave, asfixiou-os com bandas elásticas (fitas usadas para praticar desporto) e, por fim, tentou suicidar-se. Cortou os pulsos e o pescoço com uma faca e atirou-se de cabeça de uma janela do segundo andar da casa.
Patrick chegou a casa e encontrou um cenário digno de filme. Viu Lindsay caída no quintal, deitada de costas e a sangrar. Em pânico, ligou para o 911 (o equivalente ao 112 em Portugal) e perguntou à mulher onde estavam os miúdos. A enfermeira apenas respondeu: “Estão na cave”. Quando desceu as escadas, e em chamada com as autoridades, Patrick deparou-se com os três filhos sem consciência. “Ela matou as crianças, porra!”, disse ao telefone.
A chamada para o 911
Operador do 911: Explique-me como é que ela se tentou suicidar. (Ouvem-se várias vozes) Onde está ela agora? Mantenha-a acordada. Que idade tem?
Patrick Clancy: 31; 33.
Operador: Ela está acordada?
Patrick: Sim.
Operador: Está a respirar?
Patrick: Sim. Lindsay, o que fizeste ao pescoço? Ela está a falar.
Operador: Quando é que isto aconteceu?
Patrick: Na última meia hora.
Operador: De que altura caiu?
Patrick: Cerca de seis metros. (Ouvem-se várias vozes)
Operador: Está a responder normalmente?
Patrick: Um pouco. Acorda!
Operador: Que parte do corpo ficou ferida?
Patrick: O pescoço… Ela está a respirar. Lindsay, olha para mim! Olha para mim!
Operador: Há armas?
Patrick: Não vejo nenhuma. Onde estão as crianças? (Ouvem-se várias vozes)
Operador: Não a mexa.
Patrick: Abre os olhos. Alguém pode… Está bem, Lindsay, olha para mim. Abre os olhos.
Operador: Vou explicar-lhe como pode estancar a hemorragia.
Patrick: Não está a sangrar… Feridas abertas. Está no quintal.
Operador: Tem alguma coisa no pescoço? Uma faca ou alguma coisa do género? Consegue fazer pressão sobre o ferimento?
Patrick: Não. (Ouvem-se várias vozes)
Patrick: Lindsay, acorda. (Ouvem-se gemidos)
Operador: Faça pressão sobre o corte.
Patrick: Lindsay, olha para mim. Diz o meu nome. Ela está consciente.
Operador: Não a mexa. Diga-lhe para ficar quieta. (Ouvem-se gemidos e sirenes ao fundo)
Operador: Vou ficar em chamada consigo. Há alguma vedação?
Patrick: Aqui, aqui! … Preciso que fique aqui, vou ver como estão os meus filhos.
Patrick: Está aí? (Ouvem-se passos) Meninos? Meninos? Oh, não! (Ouvem-se gritos) Oh, não! (Ouvem-se mais gritos) Acordem! (Ouvem-se os gritos de Patrick)
Operador: Porque é que ele está a gritar?
Patrick:(A chorar, a gritar e a respirar ofegantemente) Meu Deus! (Ouvem-se mais gritos)
Operador: Está aí? O que se passa?
Patrick: Cave! Cave! Meu Deus!
Operador: Está aí? Está aí?
Patrick:(A gritar) Ahhhhhh, ela matou as crianças, porra! (Muitos gritos)
Operador: Merda.
Os paramédicos declararam o óbito imediato de Cora e de Dawson. Callan, de oito meses, ainda foi transportado com vida para o hospital, mas não resistiu aos danos cerebrais provocados pelo estrangulamento e acabou por morrer. Lindsay sobreviveu à queda, mas a lesão na coluna deixou-a paraplégica. Naquela noite, sofreu ainda uma paragem cardíaca no hospital e teve de ser reanimada duas vezes. Duas semanas depois, ainda intubada e deitada numa cama de hospital, foi formalmente acusada pelo Ministério Público de triplo homicídio em primeiro grau.

“Meticulosa, controladora e racional”. O que diz a acusação?
No Tribunal de Plymouth, a imagem de uma mãe indefesa, arrastada pelas forças psíquicas que não conseguiu dominar, é contestada pelo Ministério Público. Para a acusação, que começou a apresentar as alegações no dia 27 de julho deste ano, o triplo homicídio não foi o resultado de um surto psicótico incontrolável, mas sim uma ação “intencional, racional e rápida para atingir um objetivo muito específico“, segundo a CNN.
Os procuradores retrataram Lindsay como “extremamente controladora, meticulosa e manipuladora”, alguém que sabia exatamente distinguir o certo do errado e que manteve a capacidade de controlar os seus impulsos até ao momento em que asfixiou os filhos.
O primeiro grande pilar da acusação assenta no “planeamento cirúrgico do tempo“. Para a acusação, a enfermeira criou meticulosamente uma janela de oportunidade ao mandar o marido cumprir tarefas fora de casa. O pedido para levantar um medicamento na farmácia e recolher o jantar foi, na tese do Ministério Público, o mecanismo utilizado para garantir que Lindsay ficaria sozinha com as três crianças.
Mais: a acusação destaca a chamada que Lindsay devolveu ao marido enquanto este estava na farmácia. Para os investigadores, esta interação é a prova de que a arguida não estava num estado de desorientação, mas sim “a operar com plena lucidez cognitiva”.
Para desmontar a tese de psicose pós-parto apresentada pela defesa, a acusação convocou peritos de renome para depor em tribunal. O psicólogo forense Kirk Heilbrun contestou a alegação de que Lindsay teria agido sob o comando de uma voz desconhecida que lhe ordenava que matasse as crianças e se suicidasse.
O psicólogo classificou o padrão temporal desta suposta alucinação como “muito, muito invulgar“. “Ela apenas a experienciou durante os cerca de 18 minutos que demorou a matar as crianças”, testemunhou Heilbrun, sugerindo que alegar um sintoma psicótico estritamente limitado ao momento do crime é uma forma “conveniente de diminuir a própria culpabilidade”.
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O perito detalhou ao júri três pontos específicos que indiciam que a alucinação relatada por Lindsay foi “exagerada ou fabricada”:
- Ausência de delírios: cerca de 88% das alucinações (alteração dos sentidos) são acompanhadas por delírios (alteração do pensamento estruturado), algo que Lindsay não apresentava;
- Falta de resistência: Lindsay não relatou qualquer tentativa de resistir ou lutar contra a voz que dizia ouvir, um comportamento altamente atípico em pacientes em psicose real;
- Inconsistência narrativa: as declarações de Lindsay sobre a tal voz que ouvia variaram. Inicialmente, afirmou que a voz dizia: “Esta é a tua última oportunidade. Tens de matar os miúdos para te poderes matar a ti própria”. Mais tarde, alterou o relato, referindo que a voz dizia que “as crianças vão sofrer sem ti” ou “tens de levar os miúdos contigo”.
Heilbrun concluiu que estas supostas vozes eram, na verdade, uma reformulação conveniente de pensamentos intrusivos indesejados de automutilação e violência que Lindsay já vinha a registar há meses, e não uma alucinação psicótica genuína. “Se ela estivesse sob o efeito de uma alucinação, o expectável seria dizer algo como ‘fiz o que tinha a fazer’ ou ‘fiz o que a voz me mandou'”, argumentou.

Para consolidar esta perspetiva, o psiquiatra forense Avram Mack, também a testemunhar pela acusação (a terceira vez na sua carreira a testemunhar sobre responsabilidade criminal), notou que Lindsay Clancy sofria de uma depressão major grave e de ansiedade, mas não apresentava qualquer evidência de psicose, mania ou hipomania no período que antecedeu as mortes.
Mack realizou uma análise detalhada ao historial clínico da arguida e às medicações que lhe foram prescritas nos meses anteriores. Embora Lindsay sentisse efeitos secundários dos fármacos, o psiquiatra concluiu que “estes sintomas não eram de natureza psicótica”. A sua doença mental, embora severa, era uma continuação de um quadro depressivo crónico sob o qual Lindsay mantinha a capacidade de avaliar as suas ações.
O argumento da insanidade e a marioneta da psicose. O que diz a defesa?
Do outro lado do tribunal, a narrativa muda de tom, nota a BBC. Sentada numa cadeira de rodas, paralisada do peito para baixo devido à queda que fraturou a sua coluna, a enfermeira ouve em silêncio o homem que assumiu a tarefa de a salvar da prisão perpétua. Kevin Reddington, um veterano advogado de 75 anos, é claro: Lindsay cometeu o crime, mas encontrava-se num “episódio psicótico decorrente de uma doença mental pós-parto“. Ao júri, o advogado apresenta uma declaração de inocência por incapacidade criminal devido a insanidade mental.
A tese da defesa, que começou a apresentar a exposição no dia 17 de agosto, assenta na premissa de que a mulher não agiu por maldade, egoísmo ou cálculo, mas sim sob o efeito de um surto agudo de psicose pós-parto. Para sustentar cientificamente esta posição, o psiquiatra forense Phillip Resnick foi chamado a depor.

O depoimento de Resnick em tribunal foi inequívoco: no dia 24 de janeiro de 2023, Lindsay estava “claramente psicótica” e sem qualquer controlo sobre as suas ações. Resnick explicou ao júri que a enfermeira sofria de um “delírio de controlo” e de uma “alucinação de comando”. No seu cérebro doente, a voz que ouvia não era uma escolha, mas uma ordem absoluta à qual era incapaz de resistir. “Era quase como se ela fosse uma marioneta e outra pessoa estivesse a puxar os cordelinhos”, descreveu o psiquiatra forense.
Sob este estado de dissociação e perda de contacto com a realidade, o estrangulamento dos filhos assumiu, na mente da enfermeira, a forma de um ato de amor extremo, o que a literatura médica define como “filicídio altruísta”. Esta distorção cognitiva explica as palavras sussurradas a cada um dos filhos enquanto lhes tirava a vida: “Vai para junto de Deus, bebé“.
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Segundo a defesa, ao enviar as crianças “para o Céu”, Lindsay estava sob a convicção delirante de que estariam todos juntos e a salvo com Deus. O psicólogo forense Paul Zeizel, outra testemunha, reforçou este diagnóstico ao concluir que a arguida “não tinha qualquer discernimento sobre a ilicitude do seu ato” no momento do crime.
Para o psiquiatra Resnick, focar apenas os 55 minutos daquela tarde é ignorar a longa espiral de declínio que a antecedeu. E prova disso foram os testemunhos da mãe e da sogra de Lindsay.
A mãe foi uma das primeiras pessoas a depor no julgamento. Paula Musgrove falou sobre a progressiva deterioração da saúde mental da filha nos meses que antecederam as mortes e recordou as mensagens em que Lindsay lhe pedia ajuda. Em tribunal, contou que a filha tinha receio de dormir sozinha e que, com o passar do tempo, se tornou cada vez mais paranoica, chegando a acreditar que os medicamentos que tomava “estavam a destruir-lhe a mente”.
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Susan Clancy, mãe de Patrick e ex-sogra de Lindsay, depôs no dia 18 deste mês, um dia depois de Paula. Arrolada pela defesa, contou que a nora lhe tinha pedido “ajuda desesperadamente” nos meses anteriores aos crimes. Em tribunal, foram apresentadas mensagens trocadas entre as duas, nas quais Lindsay falava sobre as dificuldades em dormir, a ansiedade e os receios relacionados com a medicação que tomava. Ainda assim, Susan descreveu-a como uma mãe habitualmente “carinhosa, dedicada e protetora”.
A defesa descreveu também a vida de Lindsay desde 2022. Abalada pela ansiedade ligada à amamentação e ao medo de deixar os filhos, Lindsay iniciou uma procura por auxílio médico:
- Procurou múltiplos especialistas e prestadores de cuidados de saúde mental;
- Dirigiu-se às urgências de um hospital geral;
- Tentou, sem sucesso, ser admitida num programa especializado de internamento para mães e bebés;
- Ligou duas vezes para a linha de prevenção do suicídio;
- Internou-se voluntariamente no McLean Hospital na véspera de Ano Novo, de onde teve alta poucos dias depois, apenas porque sentia que tinha de regressar para preparar o aniversário da filha.
Apesar de todos estes contactos, a resposta que obteve do sistema de saúde foi, segundo os seus advogados, “desastrosa”.
Mas o argumento mais forte da defesa contra o sistema médico, e que motivou um processo por negligência médica movido por Lindsay e Patrick contra os prestadores de saúde, prende-se com o fenómeno da “polifarmácia” (uso simultâneo de cinco ou mais medicamentos pela mesma pessoa), destaca o New York Times.
Em apenas quatro meses, foram prescritos a Lindsay 13 medicamentos psiquiátricos, uma mistura que incluiu antidepressivos como o Zoloft, sedativos, benzodiazepinas e antipsicóticos. Reddington argumentou que este estado desordenado de medicação, em vez de a tratar, agravou o seu estado.
Muitos destes fármacos têm efeitos secundários documentados que incluem pensamentos intrusivos e suicidas. E mais: a defesa sustenta que Lindsay sofria de uma perturbação bipolar tipo II que nunca foi corretamente diagnosticada pelos médicos. Ministrar antidepressivos comuns a uma paciente com bipolaridade não diagnosticada é, de acordo com os especialistas, o equivalente a lançar gasolina para uma fogueira, podendo precipitar estados de hipomania, desregulação emocional extrema e, em última análise, um surto psicótico severo.
“Pecado Mortal”. A questão religiosa que quase anulou o julgamento
Esta segunda-feira, já na reta final do julgamento, surgiu um tema considerado pouco comum em quase todos os julgamentos criminais norte-americanos: a fé religiosa da arguida. Durante o seu depoimento, o psicólogo forense Heilbrun tentou explicar ao júri a contradição que detetou na mente de Lindsay Clancy, ao recordar a frase “vai para junto de Deus”, que terá sussurrado a cada um dos filhos enquanto os estrangulava. Na ótica do psicólogo, a enfermeira agiu de forma planeada para que todos fossem juntos para o Céu.
Contudo, o perito decidiu confrontar esse raciocínio com a educação católica da arguida: “Ela foi criada como católica e, segundo as considerações católicas, não é necessariamente isso que acontece”, explicou Heilbrun ao júri, revelando ter perguntado diretamente a Lindsay durante as avaliações clínicas: “O suicídio não é um pecado mortal?”
A reação da defesa foi instantânea. O advogado Kevin Reddington atirou de imediato a sua caneta para a mesa, interrompendo a sessão e exigindo que os jurados fossem retirados da sala. À porta fechada, Reddington avançou com um pedido formal de anulação do julgamento, acusando o Ministério Público de “conduta imprópria intencional” ao introduzir o dogma católico do “pecado mortal” no processo para tentar influenciar a moralidade dos jurados.
De acordo com o Boston Herald, a procuradora Jennifer Sprague defendeu-se, assegurando que o comentário do perito foi espontâneo e que não houve qualquer intenção por parte do Estado de introduzir a religião no debate. Esta não foi, porém, a primeira vez que o tema surgiu: na semana anterior, a acusação já tinha perguntado à antiga sogra de Lindsay, Susan Clancy (uma católica praticante), se ela tinha consciência de que “o homicídio é considerado um pecado mortal“.
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O juiz acabou por negar o pedido de anulação do julgamento. Porém, fê-lo com uma advertência, ordenando que toda e qualquer menção ao dogma católico e ao pecado mortal fosse riscada do registo oficial. Dirigindo-se diretamente aos jurados, Sullivan foi categórico: “A religião com que a arguida foi criada é uma área de depoimento absolutamente inapropriada, irrelevante e imaterial“.
Os “detetives de sofá” e a procura pela culpa: a fandom forense
Numa tragédia desta dimensão, há sempre quem procure um culpado ou uma narrativa linear que ofereça uma explicação simples para o caso. Para uma vasta comunidade digital de “detetives de sofá”, a figura de Patrick Clancy, o marido de Lindsay e pai das três crianças estranguladas, tornou-se o alvo de uma obsessão tão grande quanto infundada, de acordo com a imprensa local. O contraste entre os dados validados pela polícia e o “tribunal” que se instalou em redes como o TikTok, Instagram ou o X revelou o muro que separa a realidade da desinformação online.
Para as autoridades de Duxbury, a exclusão de Patrick como suspeito foi imediata e sustentada por provas científicas. Embora o protocolo de qualquer investigação de homicídio dite que as pessoas do círculo familiar mais próximo são as primeiras a ser escrutinadas, os passos de Patrick naquela tarde de janeiro estavam totalmente blindados.
Apesar da clareza de provas, a transmissão televisiva do julgamento e a circulação de vídeos curtos e editados nas redes sociais criaram uma linha de (des)informação que vários criadores de conteúdo decidiram preencher com teorias fantasiosas. A fandom forense converteu o caso num espetáculo de “crime real”, constatou o The Boston Globe.
Surgiram teorias infundadas focadas no detalhe de o ADN de Patrick ter sido encontrado nas fitas de exercício físico. Em tribunal, o próprio explicou o pormenor: o seu ADN estava ali porque foi ele quem removeu as fitas do pescoço dos seus próprios filhos na cave, numa tentativa de ainda os salvar. Mas a internet decidiu ignorar as explicações de Patrick e vários vídeos no TikTok propagaram as acusações: “Não acredito que Lindsay tenha cometido estes crimes. Acredito plenamente que o Patrick a convenceu de que ela os cometeu”.
Noutras plataformas, entusiastas do estilo true crime analisaram obsessivamente publicações antigas no Instagram ou recorreram a técnicas de inteligência artificial para fazerem reencenações especulativas do crime (muitas delas a usar bonecas Bratz).
Entre o dia do crime e o início do julgamento, Patrick Clancy divorciou-se de Lindsay e casou-se novamente. Quando este dado foi tornado público, voltaram a surgir teorias: “Na semana passada, eu achava que Lindsay Clancy tinha matado os seus bebés durante um surto psicótico pós-parto. Agora acredito que Patrick Clancy drogou Lindsay, empurrou-a pela janela e estrangulou os seus filhos com bandas elásticas para se poder casar com a nova mulher”, escreveu uma utilizadora da rede social X.
O advogado de Patrick, Howard Cooper, emitiu, entretanto, um comunicado, classificando estas afirmações como “falsas, difamatórias e injuriosas” e alertou para as consequências que este assédio digital pode ter para a segurança e saúde mental de Patrick.
O investigador Michael Wagner, especialista em comportamento digital na Universidade de Wisconsin-Madison, explicou à CNN que esta reação faz parte de um género de “caldo tóxico para o desenvolvimento do pensamento conspirativo“. Quando os indivíduos acumulam muita informação detalhada sobre um tema, mas têm uma confiança nula nas instituições oficiais (como a polícia, os tribunais ou a comunicação social), tornam-se altamente vulneráveis a teorias da conspiração.
A febre das redes sociais levou à criação de um movimento. Nas escadas do tribunal, centenas de mulheres, muitas delas vestidas de cor-de-rosa, manifestaram-se em solidariedade com Lindsay Clancy. O movimento, sob lemas como “Justice for Lindsay”, defende que a antiga enfermeira é vítima de um sistema de saúde mental materna profundamente negligente. “As mulheres estão a ser dispensadas, negligenciadas e ignoradas quando pedem ajuda”, explicou April Vincent ao The Guardian, uma das manifestantes.




Em contrapartida, os mais conservadores e defensores dos direitos das crianças expressaram profunda indignação com a onda de simpatia gerada em torno de uma mãe que mata os filhos. Jonathan Hatami, um experiente procurador de abuso infantil de Los Angeles, criticou a inversão de prioridades: “Não podemos estar a matar crianças e depois dizer: ‘Ah, fico contente por a saúde mental estar agora a ser discutida'”. A comentadora conservadora Megyn Kelly também falou sobre a tolerância dos norte-americanos: “Percebo que ela estava a atravessar uma crise de saúde mental, mas três crianças estão mortas!”. Para estes críticos, os cerca de um milhão de dólares angariados para apoiar a família Clancy são o reflexo de uma “decadência cultural” que apaga a memória das três crianças.
A assistente social Emily Thorndike chegou a prestar declarações em tribunal, mas o seu testemunho foi rejeitado perante o júri. Após criticar publicamente nas redes sociais o funcionamento do Hospital McLean — onde a arguida esteve internada —, a defesa tentou incluí-la no processo. No entanto, o juiz William Sullivan determinou que a profissional não poderia testemunhar formalmente perante os jurados por não trabalhar na instituição desde 2021, o que invalidava o seu conhecimento sobre as condições do hospital no ano do crime.
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No centro do furacão das redes sociais, Patrick escolheu o perdão. Em tribunal, confirmou que a mulher estava a passar por um período conturbado, mas recusou-se a retratá-la como um monstro. Além disso, declarou publicamente que a perdoa por compreender que estava gravemente doente e que as suas ações não “nasceram da maldade”. Apesar de o casal se ter divorciado, ambos partilham a convicção de que o sistema de saúde falhou gravemente no dever de proteger a família, ignorando os pedidos de socorro de uma mãe.
À medida que o julgamento de Lindsay Clancy se aproxima das alegações finais, o júri é confrontado com cada vez mais questões. Sob a lei de Massachusetts, o júri não tem de avaliar a moralidade das ações de Lindsay, mas sim responder a um teste legal rigoroso de responsabilidade criminal. A lei diz que uma pessoa pode não ser considerada criminalmente responsável se, devido a uma doença ou perturbação mental, não tiver capacidade para perceber que o que estava a fazer era errado ou para controlar as suas ações. Neste caso, cabe ao Ministério Público provar que a arguida tinha capacidade mental suficiente, no momento do crime, para perceber que estava a fazer algo errado.
Se for considerada culpada, Lindsay Clancy enfrenta uma pena de prisão perpétua sem liberdade condicional. Caso o júri decida que ela não é criminalmente responsável devido à sua condição mental, será internada até ao final da vida num hospital psiquiátrico.
Seja qual for o veredito final, a realidade clínica de Lindsay Clancy já se assemelha a uma condenação perpétua. A queda da janela do segundo andar na tarde do crime causou-lhe lesões graves que a deixaram paraplégica. Sentada numa cadeira de rodas, no banco dos réus, Lindsay está sob vigilância máxima devido ao grande risco de suicídio. Nas palavras do seu advogado, Lindsay “não tem um estado de espírito ativo no tribunal. Limita-se a sentar-se e a ouvir, sem reação”.
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