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(A) :: Quando o artista cai, a arte tem de cair com ele?

Quando o artista cai, a arte tem de cair com ele?

As vítimas devem ser escutadas. O mal deve ser chamado pelo nome. Rupnik deverá responder por aquilo que fez. Mas nenhuma destas afirmações exige que façamos da arte uma extensão da biografia moral.

P.e João Miguel da Silva Soares
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O bispo de Tarbes e Lourdes decidiu que os mosaicos de Marko Rupnik na Basílica de Nossa Senhora do Rosário serão cobertos. A decisão nasce das gravíssimas acusações de abusos sexuais, espirituais e psicológicos contra o antigo jesuíta e de uma razão pastoral que merece ser respeitada: algumas vítimas sentem aquelas obras como uma presença insuportável num lugar onde deveriam encontrar acolhimento e consolação. Não pretendo discutir a dor das vítimas nem transformar Rupnik numa vítima de coisa nenhuma. A questão que me interessa é outra e ultrapassa largamente Lourdes: quando condenamos moralmente um artista, devemos condenar também a obra que ele deixou?

A pergunta parece simples enquanto falamos apenas de Rupnik. Torna-se bastante mais incómoda quando abrimos um livro de História da Arte. Caravaggio matou um homem e viveu entre violência, rixas e fugas, mas ninguém pensa seriamente em cobrir A Vocação de São Mateus. Picasso dificilmente passaria hoje por modelo de relações afectivas saudáveis, mas Guernica não perdeu um centímetro de importância por causa disso. Wagner escreveu textos de um antissemitismo repugnante e continuamos a ouvir Wagner. Gauguin levanta questões morais gravíssimas acerca das relações que manteve com raparigas adolescentes no Pacífico e os museus não resolveram o problema virando os seus quadros para a parede. A História da Arte tem esta característica pouco conveniente para os nossos tempos: foi feita por seres humanos, e os seres humanos têm o desagradável hábito de não caberem nas categorias simples de bons e maus que tanto facilitam as discussões nas redes sociais.

Na literatura o critério seria ainda mais devastador. Se decidíssemos retirar das bibliotecas todos os escritores que foram péssimos maridos, pais ausentes, violentos, alcoólicos, misóginos, racistas, antissemitas, defensores de regimes abjectos ou simplesmente criaturas intragáveis, talvez resolvêssemos definitivamente o problema da falta de espaço nas bibliotecas. Não lemos, porém, um escritor porque desejamos casar com ele. Lemo-lo porque conseguiu dizer alguma coisa sobre o ser humano que permaneceu depois da sua morte. Um homem pode escrever extraordinariamente sobre a misericórdia e ter sido incapaz de a praticar; pode pintar a ternura sem ter sido terno; pode compor beleza e alimentar ideias moralmente repugnantes. É precisamente esta contradição que uma cultura adulta deveria conseguir suportar: uma pessoa pode ser moralmente miserável e artisticamente extraordinária.

Separar a obra do artista não significa absolver o artista. Esta confusão tornou-se uma das facilidades intelectuais do nosso tempo. Condenar os actos de alguém não nos obriga a fingir que tudo aquilo que essa pessoa produziu deixou retrospectivamente de ter valor. A obra não é um certificado de boa conduta, da mesma maneira que admirar uma pintura não constitui uma declaração de apoio à vida privada do pintor. Podemos conhecer o homicídio de Caravaggio e continuar diante da sua pintura; podemos conhecer o antissemitismo de Wagner e continuar a reconhecer o seu génio musical. A alternativa seria transformar museus, bibliotecas e salas de concerto numa espécie de extensão da Congregação para as Causas dos Santos. Com uma diferença: provavelmente teríamos muito menos candidatos.

No caso de Rupnik há ainda uma particularidade importante. Estamos a falar de arte sacra. Os seus mosaicos não representam Rupnik: representam Cristo, Maria, os santos e os mistérios da fé. Se amanhã todas as acusações contra o artista forem definitivamente provadas, Cristo representado por Rupnik não deixa por isso de ser Cristo. Uma imagem da Ressurreição não deixa de representar a Ressurreição porque o homem que colocou as tesselas não viveu de acordo com o Evangelho que representava. Pensar o contrário seria atribuir ao artista um poder extraordinário sobre a obra: como se a verdade ou a beleza representadas dependessem da santidade pessoal daquele que lhes deu forma. Para uma Igreja com dois mil anos de experiência acerca da diferença entre a fragilidade dos seus instrumentos e aquilo que através deles é anunciado, seria uma conclusão especialmente curiosa.

Isto não significa que Lourdes não possa ter razões próprias para fazer o que está a fazer. Um santuário não é um museu e uma decisão pastoral concreta não deve ser analisada como se fosse apenas uma questão de conservação patrimonial. O perigo começa quando uma decisão excepcional se transforma num princípio: o artista tornou-se moralmente intolerável, logo a obra deve desaparecer. Porque, depois de estabelecido o princípio, teremos de decidir onde fica a fronteira. Homicídio? Antissemitismo? Misoginia? Violência? Racismo? Abuso? Opiniões políticas? E julgamos os mortos segundo os valores do seu tempo ou segundo os nossos? Talvez seja prudente responder antes de começarmos a distribuir panos pelos museus europeus.

Há, além disso, qualquer coisa de paradoxal no acto de esconder uma obra para retirar protagonismo ao seu autor. Uma pessoa que ontem olhava para um mosaico e via Cristo, amanhã verá uma superfície tapada e perguntará: “Porque está isto coberto?” A resposta será inevitavelmente: “Por causa de Rupnik.” E assim conseguimos um resultado curioso: onde antes estava Cristo, passamos a ver Rupnik. Na tentativa de apagar o artista, tornamo-lo finalmente maior do que a obra.

Talvez exista uma resposta menos espectacular e culturalmente mais exigente: contextualizar. Contar quem foi o artista, contar o que é conhecido sobre os seus actos, não silenciar as vítimas, não transformar conservação em homenagem e permitir que a obra permaneça. Preservar não é absolver. Expor não é canonizar. Ler não é concordar. Ouvir não é aderir. Uma sociedade que já não consegue compreender estas distinções não se tornou necessariamente mais moral; pode simplesmente ter-se tornado menos capaz de lidar com a complexidade.

E é aqui, apenas aqui, que Lourdes deveria fazer-nos pensar também em Portugal. Rupnik deixou uma obra monumental no presbitério da Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima. Espero que ninguém se lembre de concluir que aquilo que se decidiu em França deve automaticamente ser repetido por cá. Não porque Rupnik mereça qualquer protecção especial, mas porque a obra não é o cadastro do artista e porque começar a avaliar património artístico pela ficha moral de quem o produziu é abrir uma porta que depois será difícil fechar.

As vítimas devem ser escutadas. O mal deve ser chamado pelo nome. Rupnik deverá responder por aquilo que fez. Mas nenhuma destas afirmações exige que façamos da arte uma extensão da biografia moral dos artistas.

A beleza, infelizmente para quem gosta de um mundo arrumado, nem sempre passou por mãos limpas. E ainda bem que não começámos a tapar tudo o que essas mãos deixaram.