Perguntei a um amigo mais velho quando é que ele se apercebeu de que estava a envelhecer. A resposta foi clara e dada num tom irónico: “Tomei consciência ao descer umas escadas. Receoso de cair, comecei a dar passos lentos ao mesmo tempo que arqueava as pernas, aumentando assim a base de apoio”.
O aumento da longevidade constitui uma das grandes conquistas sociais das últimas décadas. Em Portugal, no triénio 2023-2025, a esperança de vida à nascença foi estimada em 81,75 anos, sendo 78,99 anos para os homens e 84,21 anos para as mulheres (INE). Vivemos mais anos e, consequentemente, convivemos durante mais tempo com as transformações físicas, psicológicas e sociais associadas ao envelhecimento.
O envelhecimento traz consigo ganhos e perdas. Se a experiência adquirida ao longo da vida constitui um património pessoal valioso, o avançar da idade associa-se também a um declínio físico e, eventualmente, cognitivo, a uma maior vulnerabilidade a doenças crónicas e a uma perda progressiva de autonomia.
Uma parte significativa da população não está preparada para o choque com esta etapa da vida. Muitas vezes, a imagem que conservamos de nós próprios envelhece mais lentamente do que o corpo. Diria mesmo que se trata de um tema tabu, pois a velhice não corresponde aos modelos de beleza, vitalidade, sucesso e admiração que a sociedade tanto gosta de promover. Para as pessoas que sempre foram muito ativas, não é fácil aceitar a perda de mobilidade, de equilíbrio e de algumas capacidades individuais. Citarei dois exemplos em que se verificaram grandes dificuldades na aceitação destas perdas decorrentes da idade.
O primeiro refere-se a um professor universitário jubilado que caíra num estado depressivo devido à perda de estatuto e prestígio. Outrora convidado frequentemente para dar opinião em vários órgãos de comunicação social, fora nos últimos tempos remetido ao silêncio e ao esquecimento público. Na verdade, ele não queria aceitar que a voz já lhe tremia, que o discurso perdera a fluidez do passado e que a expressão facial se tornara mumificada, quase inexpressiva. A capacidade de comunicação ficara definitivamente comprometida.
O segundo diz respeito a um homem octogenário, residente numa aldeia, profundamente triste e revoltado por já não ter capacidade física para participar na apanha da azeitona. Ficava, assim, impossibilitado de realizar uma atividade ligada à sua identidade e à forma como, durante décadas, se relacionara com a sua terra.
O problema não depende do estatuto social nem da profissão, mas daquilo que cada pessoa integrou na sua identidade e que foi perdendo com o avançar do tempo. O sofrimento emerge dessa perda, quando desaparece algo que durante anos fez parte daquilo que a pessoa era. O apoio psiquiátrico nestes casos pode ser importante, mas também é necessário que as pessoas se preparem para o envelhecimento e adotem estratégias que minimizem o impacto nas suas vidas. Aceitar as limitações impostas pela idade não significa resignar-se. Significa reconhecer aquilo que mudou, preservar aquilo que ainda é possível fazer e procurar alternativas quando determinadas atividades deixam de poder ser realizadas.
O envelhecimento deve ser vivido de forma ativa. Esta fase pode constituir uma oportunidade para encontrar novos interesses ou recuperar outros que foram abandonados ou adiados por falta de tempo. Participar mais na vida familiar representa muitas vezes não apenas uma ocupação do tempo, mas um enriquecimento da identidade pessoal. Os avós, frequentemente com maior disponibilidade, podem apoiar os filhos no acompanhamento dos netos, beneficiando também da proximidade, do afeto e de uma ligação renovada às gerações mais jovens.
O aparecimento ou agravamento de doenças crónicas e a perda de mobilidade podem reduzir progressivamente os contactos sociais. Manter relações regulares com familiares e amigos torna-se, por isso, particularmente importante para contrariar o isolamento e a solidão. Nestas situações, ouve-se com frequência dizer: “ Custou-me sair de casa, mas depois até gostei do passeio. Fizeram bem em insistir comigo”.
Não devemos negar a velhice, nem tentar conservar indefinidamente todas as capacidades da juventude. Importa conservar aquilo que ainda é possível, aceitar aquilo que se perdeu e reformular o projeto de vida de acordo com as novas circunstâncias. Este reajustamento é difícil, mas não é impossível. Convém, acima de tudo, fugir à autocomiseração e procurar concretizar esse projeto com dignidade. Trata-se de ajustar o passo sem deixar de caminhar.