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(A) :: Portugal quer engenheiros. Os jovens querem Lisboa e Porto

Portugal quer engenheiros. Os jovens querem Lisboa e Porto

Não se resolve isto dizendo aos jovens que estão a escolher mal. Se queremos mais engenheiros, especialistas em tecnologia e investigadores, temos de tornar essas carreiras desejáveis e acessíveis.

Magda Ferro
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Os resultados do acesso ao ensino superior público em 2026 deveriam obrigar-nos a olhar para além das médias de entrada. Mais do que saber quais são os cursos com notas mais elevadas, importa perceber o que os jovens querem estudar e onde querem estudar.

A procura recuperou fortemente: 60.513 estudantes candidataram-se à primeira fase, mais 24,2% do que em 2025. Foram colocados 49.991, mas apenas 26.819 entraram na primeira opção. Mais de 10 mil ficaram sem colocação.

Os números são positivos, mas escondem dois fenómenos: uma procura muito desigual entre áreas de formação e uma forte concentração nas instituições do litoral e dos grandes centros urbanos.

Comecemos pelos cursos. Uma nota de entrada de 18 ou 19 valores impressiona, mas não mede qualidade, empregabilidade ou valor económico futuro. Mede, essencialmente, a pressão da procura sobre uma oferta limitada.

Na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, Gestão preencheu as suas vagas com 17,1 valores e Economia com 16,7. Estes valores contrastam com muitos cursos de Engenharia Informática noutras instituições, onde ficaram vagas por preencher. Na Universidade da Beira Interior, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e na Universidade do Algarve, por exemplo, ficaram vagas de Engenharia Informática por ocupar, enquanto cursos como Gestão conseguiram preencher a oferta.

Isto não significa que os jovens não valorizem a tecnologia. Significa que o valor económico que o país atribui a determinadas competências não corresponde necessariamente ao valor que os jovens lhes atribuem quando escolhem o seu futuro.

Um jovem de 17 anos não decide com uma folha de Excel sobre produtividade, escassez de competências e necessidades do mercado. Escolhe uma profissão que consegue imaginar, uma universidade que conhece, uma cidade onde se vê a viver e uma opção que lhe transmite segurança. A decisão é racional, mas depende da informação disponível.

E Portugal envia sinais contraditórios. Dizemos que precisamos de transição digital, inteligência artificial e talento tecnológico, mas também que a IA destruirá empregos. As empresas dizem que não conseguem recrutar, mas exigem experiência a recém-licenciados. As universidades multiplicam cursos com “IA”, “dados” ou “digital” no nome, nem sempre explicando claramente o que os distingue. Depois perguntamo-nos por que hesitam os estudantes.

Mas há uma segunda questão: onde querem estudar? Lisboa, Porto, Coimbra e Braga continuam a concentrar uma parte significativa da procura, enquanto várias instituições do interior enfrentam dificuldades em preencher determinadas ofertas.

Um jovem não escolhe apenas um curso. Escolhe também uma cidade, uma experiência de vida e, muitas vezes, o contexto onde imagina começar a carreira. Por isso, quando uma instituição do interior não preenche vagas, não basta reforçar o recrutamento. É preciso perguntar o que a região oferece: empresas, estágios, emprego, qualidade de vida, oportunidades culturais e condições para permanecer depois da licenciatura.

É difícil convencer um jovem a estudar no interior se, no momento seguinte, lhe dizemos que para construir uma carreira terá de regressar ao litoral.

Os dois fenómenos estão relacionados: os estudantes escolhem aquilo que querem estudar, mas também o lugar onde acreditam que esse estudo lhes dará melhores oportunidades.

Por isso, não basta aumentar vagas em áreas estratégicas. É preciso tornar essas áreas e instituições mais atrativas.

As universidades têm de explicar melhor os seus cursos e as oportunidades que proporcionam. As empresas, se dizem precisar de talento, têm de estar disponíveis para o formar, criar estágios e contratar recém-licenciados. E o Estado tem de articular ensino superior, emprego, inovação e desenvolvimento regional.

Aos 17 anos, ninguém tem de saber quem será aos 35. Mas deveria ter informação suficiente para fazer uma escolha informada.

Os resultados de 2026 mostram um duplo desalinhamento: entre os cursos que o país diz precisar e os que os jovens querem frequentar; e entre as instituições que oferecem formação e os territórios onde os jovens querem estudar e construir o seu futuro.

Não se resolve isto dizendo aos jovens que estão a escolher mal. Se queremos mais engenheiros, especialistas em tecnologia e investigadores, temos de tornar essas carreiras desejáveis e acessíveis. E se queremos um ensino superior verdadeiramente nacional, não basta distribuir instituições pelo território. É preciso criar razões para que os estudantes queiram escolhê-las.

Porque as vagas vazias não são o problema. São apenas o reflexo das escolhas que estamos, ou não estamos, a conseguir inspirar.