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(A) :: A violência não é o preço de trabalhar no SNS

A violência não é o preço de trabalhar no SNS

Quando um profissional é agredido, não é apenas esse profissional que perde. Perde o serviço, perde a equipa, perde o doente e perde o próprio SNS.

Paula Helena Ferreira da Silva
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Há uma fronteira que uma sociedade civilizada não pode aceitar que seja ultrapassada: a violência contra quem está a trabalhar para cuidar dos outros.

Ser insultado, ameaçado ou agredido não faz parte do trabalho de quem cuida dos outros.

Uma sociedade que aceita a violência contra os profissionais de saúde está a destruir, a instituição que tanto diz querer defender.

Em 2025 foram comunicados no Serviço Nacional de Saúde 3.429 episódios de violência contra profissionais, mais 33% do que no ano anterior. 2.067 casos de violência psicológica e 730 de violência física. Houve ainda 318 situações de assédio moral e no total, estas ocorrências provocaram 2.012 dias de ausência ao trabalho.

São números demasiado elevados para continuarmos a tratá-los como episódios isolados.

E não, não é só mais um número, cada número tem um rosto. São profissionais que, no final do turno, levam para casa uma agressão verbal, uma ameaça, um empurrão, uma bofetada, um medo ou uma humilhação.

É um rosto que passa a vivenciar o medo no local de trabalho com todas as consequências negativas a ele associado;

O medo de entrar num serviço de urgência.

O medo de não saber como vai reagir um familiar a uma notícia difícil.

O medo de dizer que não há uma vaga.

O medo de dizer que a cirurgia não será feita amanhã ou que aquele doente precisa de esperar porque há outro numa situação ainda mais urgente.

É o medo de exercer uma profissão para a qual se preparou durante anos e que, de repente, também parece exigir competências de segurança pessoal.

Um profissional humilhado perde confiança

Mas ainda há o que as estatísticas não mostram. muitos profissionais não denunciam.

Porque acham que “não vale a pena”, porque estão cansados mas e sobretudo porque têm medo das consequências.

Outros ainda, depois de anos a trabalhar num sistema sob pressão, acabaram por normalizar o que nunca deveria ser normalizado.

Mas há algo que é necessário dizê-lo sem rodeios: a falência de uma resposta do SNS não pode transformar o profissional que está à nossa frente no responsável por ela e a frustração de um cidadão não justifica a agressão a um profissional.

O médico não criou a lista de espera.

O enfermeiro não decidiu quantas pessoas estão numa urgência.

O assistente operacional não encerrou a maternidade.

O administrativo não inventou a falta de médicos.

E nenhum deles pode ser transformado no saco de pancada de uma população legitimamente frustrada com o sistema.

Podemos e devemos exigir mais; mais profissionais, mais organização, mais investimento, menos burocracia e melhores condições de trabalho.

Mas há uma linha que não pode ser ultrapassada: a revolta contra o sistema não pode ser descarregada sobre aqueles que ainda tentam fazê-lo funcionar.

E é aqui que existe uma enorme contradição; querem profissionais mais humanos, mais empáticos, mais disponíveis para ouvir e compreender.

Mas, demasiadas vezes, a única coisa que lhe oferecem, são gritos, insultos e ameaças.

Pede-se humanidade a quem cuida, mas negam-lhes a dignidade mais básica: a de trabalhar em segurança.

A humanidade tem de funcionar nos dois sentidos.

A violência psicológica não pode continuar a ser tratada como uma versão menor da violência.

Uma ameaça não desaparece quando termina o turno.

Um insulto repetido diariamente não deixa de ferir porque não provoca uma fratura. A humilhação também deixa marcas e um profissional humilhado perde confiança.

A acumulação destes episódios corre o risco de transformar aquilo que deveria ser uma profissão de cuidado numa profissão exercida em permanente estado de alerta.

É também por isso que a resposta não se pode limitar a pedir aos profissionais que tenham mais formação para “gerir conflitos”.

A formação é importante. Mas há uma pergunta que precisa de ser feita:

Quanto mais formação terá de receber uma vítima antes de perceberem que o problema está no agressor?

Um profissional deve saber desescalar um conflito, naturalmente.

Mas não pode ser responsabilizado por impedir que outra pessoa decida agredi-lo. A proteção tem de ser institucional.

Tem de existir segurança efetiva nas unidades de saúde, resposta rápida às ocorrências, acompanhamento das vítimas e consequências para quem agride.

Portugal deu um passo importante com a Lei n.º 26/2025, que reforçou o enquadramento penal das agressões contra profissionais de saúde no exercício das suas funções ou por causa delas e passou a considerar a maioria dessas agressões como crime público. É um avanço.

Mas uma lei que existe apenas no Diário da República não protege ninguém.

É preciso que seja conhecida, aplicada, mas que sobretudo, produza consequências.

Porque existe apenas uma mensagem que o SNS tem de transmitir aos seus profissionais: não estão sozinhos.

Se queremos médicos que permaneçam no SNS, enfermeiros que não desistam, assistentes operacionais que continuem a assegurar serviços essenciais e equipas capazes de trabalhar sob enorme pressão, temos de lhes garantir mais do que salários e carreiras.

Temos de lhes garantir segurança.

Mas existe ainda outra dimensão que raramente discutimos.

Quando um profissional é agredido, não é apenas esse profissional que perde.

Perde o serviço, perde a equipa, perde o doente e perde o próprio SNS.

Cada profissional que abandona uma urgência porque já não suporta a violência representa menos uma pessoa disponível para cuidar.

Cada médico que decide sair do serviço público leva consigo experiência.

Cada enfermeiro que trabalha com medo torna-se mais vulnerável ao desgaste.

E cada instituição que tolera a violência contribui para normalizá-la.

É aqui que temos de escolher que sociedade queremos.

Uma sociedade em que a frustração dá direito à agressão?

Ou uma sociedade em que podemos reclamar, protestar, exigir e até estar furiosos sem transformar a pessoa que está à nossa frente no inimigo?

A resposta deveria ser óbvia.

Um hospital não é um ringue.

Uma urgência não é um tribunal.

Um consultório não é um lugar onde alguém pode entrar para intimidar quem lá trabalha.

E um profissional de saúde não é responsável por todas as falhas do sistema que representa.

Podemos exigir tudo do SNS. Menos que os seus profissionais aceitem ser vítimas.

Porque quem cuida também tem direito a ser cuidado.

E quem protege a nossa saúde tem, antes de mais nada, direito a estar seguro enquanto trabalha.