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Escolher Lisboa para estudar

Se instituições portuguesas e estrangeiras disputam os mesmos estudantes no mesmo território, como assegurar condições de concorrência equivalentes?

Miguel Copetto
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Tem sido notícia que o príncipe Sverre Magnus da Noruega virá estudar para Lisboa no próximo ano letivo. No ano passado, a Infanta Sofía de Espanha fez a mesma escolha. Não deixa de ser curioso que dois jovens de famílias reais europeias, com liberdade para estudar praticamente onde quiserem, tenham escolhido Portugal e, em particular, Lisboa. E que ambos tenham escolhido a mesma instituição estrangeira — e não uma universidade portuguesa.

Dois casos não permitem tirar conclusões. A coincidência, ainda assim, merece atenção.

Portugal tornou-se um país atraente para estudar. A segurança, a qualidade de vida e a projeção internacional de Lisboa ajudam a explicá-lo. As universidades portuguesas também se internacionalizaram e recebem hoje muito mais estudantes estrangeiros. Mas escolher Portugal e escolher o ensino superior português não são necessariamente a mesma coisa.

Escolher um país para estudar já não significa necessariamente escolher uma universidade desse país. O Reino Unido é um bom exemplo. Durante décadas, as suas universidades atraíram estudantes de todo o mundo. Continuam a fazê-lo, embora a recente quebra da procura internacional já se faça sentir nas contas. Ao mesmo tempo, o ensino superior britânico estendeu-se muito para além das suas fronteiras. Cerca de 670 mil estudantes frequentam hoje, fora do Reino Unido, programas conducentes a qualificações britânicas, mais 37% do que em 2020/21. Essa presença chega praticamente a todo o mundo, através de campus próprios, parcerias com instituições locais e diferentes formas de ensino transnacional.

Durante séculos, os estudantes viajaram à procura das universidades; agora, são também as universidades que viajam à procura dos estudantes.

Quando o fazem, encontram outras regras e, por vezes, outros limites. Na Grécia, o Supremo Tribunal Administrativo anulou, a 13 de agosto último, autorizações relativas a três operações de universidades estrangeiras. A decisão recorda que poder conferir um grau num país não significa, por si só, poder operar noutro.

Portugal começou este ano a regular esta realidade. O Decreto-Lei n.º 83/2026 veio enquadrar a atividade das entidades estrangeiras que oferecem ensino superior no país sem integrarem o sistema português, trazendo regras de identificação, informação e proteção dos estudantes onde antes existia um vazio difícil de justificar. É um avanço importante, embora deixe várias questões por responder. Se instituições portuguesas e estrangeiras disputam os mesmos estudantes no mesmo território, como assegurar condições de concorrência equivalentes?

Ao mesmo tempo que Portugal recebe cada vez mais estudantes estrangeiros, há jovens portugueses que fazem o percurso inverso e escolhem estudar fora. As razões são diferentes porque os estudantes também o são. Na decisão podem pesar o curso, a reputação ou o preço, assim como a experiência internacional, as relações que se constroem e as oportunidades profissionais que daí podem nascer. A universidade deixou, para alguns, de caber apenas numa cidade.

É também isso que encontramos na escolha de Sofía e Sverre Magnus. Com uma liberdade geográfica e económica pouco comum, optaram por uma formação em inglês, vivida entre Lisboa, Paris e Berlim. Não sabemos quanto pesou cada fator na decisão. Sabemos que escolheram um percurso que procura juntar formação, experiência e diferenciação.

Portugal tem boas universidades e recebe cada vez mais estudantes estrangeiros. Há, contudo, outros públicos, com outras possibilidades e outras expectativas. Uma instituição estrangeira percebeu-o e encontrou em Portugal o lugar certo para a sua proposta. Os dois escolheram Lisboa. As universidades portuguesas têm qualidade para estar também entre estas escolhas. Vale a pena perceber o que esta história lhes pode ensinar.