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O reformado de Schrödinger

Neste momento, todos os portugueses são futuros reformados de Schrödinger: até alguém abrir a caixa de previdência, somos ao mesmo tempo pensionistas milionários e pensionistas insolventes.

José Diogo Quintela
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Passei a última semana deprimidíssimo. E eufórico. Deprimido porque descobri que o sistema de pensões está falido. Eufórico porque percebi que a Segurança Social está com os cofres cheios. Daí a minha angústia. E também o meu júbilo. Estamos tramados. Viva!

Desde que foi divulgado o relatório “Reformar as Pensões em Portugal — Por um Sistema Sustentável, Adequado e Justo”, encomendado pelo Governo e coordenado por Jorge Bravo, o país transformou-se numa espécie de gigantesco programa de debate futebolístico, com comentadores a olharem facciosamente para os mesmos dados e a tirarem conclusões opostas. Uns juntam a Segurança Social à Caixa Geral de Aposentações e garantem que é penálti, outros dizem que não faz sentido fazer essa soma e juram que é simulação grosseira.

Estamos perante mais do que uma mera diferença de opinião entre quem acha que o que está no porquinho mealheiro é suficiente para pagar óptimas pensões e quem, olhando para o mesmo pecúlio, acha que apenas dá para pensões paupérrimas. Não se trata do clássico debate entre defensores do copo meio cheio versus defensores do copo meio vazio. É entre defensores do copo meio cheio e defensores de aquilo nem sequer ser um copo.

Ao que parece, a discordância deve-se à forma como se fazem as contas ao dinheiro que está na Segurança Social. Há quem considere que a Caixa Geral de Aposentações deve estar incluída no bolo, o que, devido à diferença entre o dinheiro que sai e o que entra na CGA, acaba por condicionar o saldo total. Quem acha que a Segurança Social está em défice, quer reformar o sistema para salvaguardar as pensões futuras. Quem acha que a Segurança Social está bem, não lhe quer mexer e diz que quem defende o contrário quer privatizá-la.

De facto, esta discussão pôs-me a pensar mais como um pensionista. É tão aborrecida que adormeci a meio de escrever o parágrafo anterior, mesmo à velhinho.

Ou seja, neste momento, todos os portugueses são futuros reformados de Schrödinger: até alguém abrir a caixa de previdência, somos ao mesmo tempo pensionistas milionários e pensionistas insolventes.

Esta divergência de opiniões sobre os mesmo números não deixa os actuais contribuintes descansados. Começamos a achar que é possível que ninguém perceba lá muito bem o que se passa no interior da Segurança Social. Ainda por cima, o Presidente da República resolveu dizer que as reformas em Portugal são sagradas. Ora, o que é sagrado é do domínio da fé e era simpático que as reformas existissem mesmo, não fossem apenas uma crença, como a Nossa Senhora – não é por acaso que o ditado avisa para situações em que devemos correr em vez de nos fiarmos na Virgem. Além disso, os portugueses sabem que, quando lhes dizem que alguma coisa é sagrada, em princípio é para não se mexer. Não sei o que é que os meus compatriotas acham, mas eu conto pôr as mãos na minha reforma de uma maneira bem profana.