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Trump e o lobo

O Mad Man afinal revelou-se não tão irracional assim e tão ou mais recetivo à opinião pública e às flutuações dos mercados como os seus antecessores, o que o descredibiliza, uma vez mais

Manuel Castello Branco
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Na semana passada, Donald Trump ameaçou bombardear o Omã. Segundo Trey Yingst, jornalista da Fox News, o presidente americano terá dito que, se o Omã dificultasse o processo de negociação com o Irão, os EUA iriam “bomb the shit out of them”. Noutra era, uma ameaça desta natureza, proferida pelo presidente americano a um dos seus mais antigos parceiros na região (o Omã foi o primeiro Estado do Golfo a reconhecer os EUA), teria ocupado as primeiras páginas dos jornais globais durante dias. Mas isso pertence a um mundo que parece ter ficado para trás. As declarações de Trump, por mais chocantes que tenham sido, não mereceram mais do que uma menção passageira: para uns, um exemplo do desespero do presidente em resolver a crise com o Irão; para outros, uma demonstração da sua genuína intenção destrutiva; para outros ainda, um claro exemplo da estratégia do Homem Louco ou Mad Man, popularizada por Nixon. No fundo, não houve uma reação generalizada por uma razão simples: ninguém levou a sério. Mas é precisamente a aparente insignificância destas declarações que, paradoxalmente, se revela mais relevante. A falta de reação à ameaça de bombardear um aliado no Golfo é apenas o mais recente exemplo de um fenómeno que, já visível no primeiro mandato de Trump, se tem vindo a agudizar de forma inescapável neste Trump 2.0: a desvalorização da palavra, e, com ela, da autoridade, do presidente americano.

Das várias leituras possíveis para justificar as declarações do líder americano, a do Mad Man é a mais generosa e aquela que merece exame mais sério, por lhe atribuir um método onde outros veem apenas descontrolo. A teoria do Homem Louco não é recente. Na sua base essencial, está já presente em Maquiavel, que no capítulo II do Livro III dos Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, invocando Lúcio Júnio Bruto, nos diz que fingir loucura é por vezes uma manobra sábia do governante. De forma muito resumida, esta teoria defende que um líder que aja, ou, pelo menos, que faça transparecer aos seus adversários que é louco (um Mad Man) e capaz de agir de forma irracional tem maior probabilidade de obter concessões das suas contrapartes em negociações. A ameaça implícita de que, a qualquer momento, o Mad Man poderá escalar o conflito de forma irremediável, obriga a que as suas ameaças sejam levadas a sério e que o seu adversário esteja mais disposto a encontrar um compromisso para evitar a catástrofe.

Apesar de antiga, a teoria ganhou relevância particular na Guerra Fria, com o advento das armas nucleares. Uma vez atingida a paridade entre as duas superpotências, essas armas deixaram de valer pelo uso para valerem pela ameaça do uso. Pensou-se, e a história acabou por confirmá-lo, que o facto de as duas potências poderem destruir-se mutuamente num confronto direto tornaria essa possibilidade menos atraente para ambas. E foi precisamente porque as armas nucleares funcionaram como dissuasor não pelo uso, mas pela mera ameaça, que a Mad Man Theory ganhou nova ribalta. Num primeiro momento, poder-se-ia pensar que, com a destruição mútua assegurada, qualquer ameaça feita por americanos ou soviéticos perderia grande parte da sua força negocial. Afinal, iniciar um conflito nuclear seria suicídio garantido. Seria de facto irracional, por exemplo, lançar um ataque nuclear sobre as forças norte-vietnamitas apoiadas por Moscovo, apenas um louco o faria. Mas era exatamente essa a imagem que Richard Nixon e Henry Kissinger quiseram projetar: a de um presidente incontrolável, disposto a tudo para acabar com a guerra. Só assim a ameaça nuclear (irracional para qualquer mente sã) seria levada a sério. De resto, uma estratégia semelhante já tinha sido tentada por Khrushchev. Em ambos os casos falhou: em Hanói, a loucura encenada de Nixon nunca chegou para desbloquear as concessões desejadas, e a temeridade nuclear de Khrushchev, sobretudo no desfecho da crise dos mísseis de Cuba, viria a contar-se entre os fatores da sua queda.

Apesar da evidência histórica de que esta é uma estratégia pouco ou nada eficaz, e que, pior, pode contribuir para a descredibilização de um líder, Trump tem mostrado, desde o seu primeiro mandato, uma certa simpatia pela Mad Man Theory. Já referiu várias vezes que Putin e Xi o respeitam pela sua imprevisibilidade, por não saberem como o presidente reagirá a cada movimento.

No atual conflito com o Irão, esta sua inclinação para fazer declarações bombásticas na esperança de que isso traga o regime iraniano para a mesa das negociações tem sido ainda mais explícita, desde a ameaça de bombardear o Irão de volta à Idade da Pedra até aos comentários sobre Omã ou às afirmações de que o Estreito de Ormuz passaria a ser território americano no final da guerra. O problema, para Trump, é o mesmo que recai sobre o pastor na fábula de Esopo O Pastor Mentiroso e o Lobo: gritar lobo é uma cartada que só pode ser jogada algumas vezes antes de se voltar contra quem a faz.

Quando uma ameaça de bombardear um país, invadir um aliado, aniquilar uma população, usar o comércio como arma, impor tarifas ou bloquear a cooperação com aliados é feita uma vez, tem impacto. Quando se faz duas vezes, já terá de vir acompanhada de ações reais. Feita todos os dias, por vezes várias vezes ao dia, não é apenas a ameaça concreta que fica descredibilizada, é a própria palavra daquele que devia ser o líder do mundo livre que se trivializa, reduzida a um ruído de fundo constante ao qual quase ninguém já presta atenção. E é precisamente aqui que o dano se aprofunda. É que quando aquele que deveria ser o homem mais poderoso do mundo se reduz desta forma, a mesma palavra que deixa de valer como ameaça perde também o seu valor como promessa. Quando ninguém leva a sério o que o presidente diz, também ninguém confia naquilo a que ele se compromete, pelo que os compromissos americanos deixam de ser uma métrica fiável da solidez das garantias dadas aos aliados, forçando-os a diversificar parcerias, a procurar formas de cooperação que assegurem a sua segurança de modo mais previsível.

O exemplo mais claro desta dinâmica é o recente Acordo de Meca, celebrado entre a Arábia Saudita, a Turquia e o Paquistão. A emergência destas novas arquiteturas de segurança no Médio Oriente era já previsível há alguns meses (como escrevi nestas páginas em fevereiro), mas a contínua descredibilização das palavras do presidente americano ao longo do conflito no Irão apenas acelerou a tendência e tornou mais urgente a necessidade de diversificação. E, por mais que Trump procure ver no crescimento destas alianças regionais uma vitória sua, a prova de que finalmente desenredou os Estados Unidos do Médio Oriente, esta diversificação é uma clara derrota estratégica para os EUA. Dir-se-á, na melhor tradição do realismo de contenção, que perder a capacidade de microgerir a região é, na verdade, um alívio de um fardo excessivo que há muito assombra os Estados Unidos. Aliás, com a crescente capacidade dos produtores petrolíferos americanos, a utilidade do Médio Oriente para os EUA está cada vez mais reduzida, justificando-se a retirada.

Mas este argumento apenas seria pertinente se os Estados Unidos conseguissem, através da sua retração, reduzir também o custo da instabilidade que ajudavam a conter. Mas não é isso a que assistimos. Antes, Washington continha rivalidades e conflitos regionais usando o seu peso militar-diplomático e económico para traçar o futuro da região, sendo a relação com os Estados Unidos o fio que percorria e unia a esmagadora maioria dos governos. Quebrado esse elo, as rivalidades intensificar-se-ão, com o agravante de que os Estados Unidos já não estão na posição de determinar o resultado. Rivalidades como a Turco-Israelita apenas crescerão na sua magnitude,  ficando os EUA expostos à mesma desordem, mas agora sem o controlo. O mesmo se diga quanto ao argumento do petróleo. Sendo um bem com um preço global, não é pelo facto de os EUA serem auto-suficientes na produção de petróleo que deixam de ficar expostos a crises que possam ter origem no Médio Oriente.

Há ainda um segundo problema, porventura mais profundo, nesta aparente “estratégia” do Homem Louco de Trump. Um grande problema subjacente a esta teoria sempre foi a dificuldade em equilibrar, por um lado, a face do homem disposto a tudo com, por outro, a face da contraparte confiável que está disposta a um acordo mediante concessões. Numa palavra, é preciso convencer a contraparte de duas coisas ao mesmo tempo: de que qualquer resistência será punida de forma grave e desproporcional, mas também de que concessões previnem o desastre e permitem chegar a um acordo que será respeitado no futuro.

Também aqui Trump falha. Ao comportar-se de forma errática e ao renegar aquilo a que antes se vinculou (as negociações com o Canadá, subvertidas na fase final e hoje transformadas numa guerra comercial com o vizinho a norte, são apenas o exemplo mais recente), Trump destrói a segunda destas convicções. Ao fazer ameaças enquanto, simultaneamente, mina negociações ou renega compromissos, o presidente americano não abre outra alternativa senão a da resistência, precisamente porque ninguém acredita que meras concessões comprem segurança. Este é talvez o principal motivo pelo qual, no último ano, os governos europeus se têm mostrado mais resistentes e frontais em relação à administração americana, depois de, num momento inicial, terem ensaiado o apaziguamento. Quando nem isso chega para, por exemplo, evitar as declarações absurdas de Trump sobre a Gronelândia, o presidente fica descredibilizado enquanto aliado, incapaz de se apresentar como um parceiro credível aos seus aliados no Velho Continente.

Mas, por toda a sua imprevisibilidade, Trump tem sido cada vez mais previsível na sua intolerância a qualquer tipo de dor económica. Esta tendência para abandonar conflitos quando se revelam demasiado custosos tornou-se tão aparente que mereceu até um nome, cunhado por Robert Armstrong no Financial Times: TACO (Trump Always Chickens Out). O presidente suspendeu as tarifas que tinha anunciado em abril de 2025 em menos de uma semana, depois de o S&P cair mais de 10%. Trump recuou igualmente na guerra comercial com a China, depois de a guerra tarifária ter levado a tarifas de 145%. E no confronto com o Irão foi forçado a recuar depois de o encerramento do Estreito de Ormuz fazer disparar o preço do petróleo.

O Mad Man afinal revelou-se não tão irracional assim e tão ou mais recetivo à opinião pública e às flutuações dos mercados como os seus antecessores, o que descredibiliza, uma vez mais, o peso das suas ameaças.

Incapaz de coagir os seus adversários mais fortes, a reação de Trump tem sido igualmente previsível: extorquir os seus aliados mais fracos, como a Coreia do Sul, que viu os exercícios militares com os EUA cancelados depois de Trump, de forma não muito subtil, culpar o país pelas derrotas no Irão. E este é talvez o efeito mais nefasto de toda esta “estratégia”. É que quando os adversários não levam a sério as ameaças, o perigo imediato é o do confronto direto por erro de cálculo, um risco real, sim, mas apesar de tudo ainda distante. Mas, ao descredibilizar-se voluntariamente perante os próprios aliados, Trump dá-lhes um incentivo para procurar o compromisso não com ele, mas com os seus adversários, nomeadamente a China, a Rússia ou até a Coreia do Norte (se é que Trump ainda vê em Kim Jong-un um adversário). Se a Coreia do Sul ou Taiwan deixam de levar a sério a palavra de Washington e perdem a fé nos acordos de defesa, confrontados com a hipótese de enfrentarem sozinhos a China, ver-se-ão empurrados para concessões a Pequim ou a Pyongyang. E o ponto decisivo é que, para isso, Trump não precisa em momento algum de dizer que não defenderá Taiwan ou a Coreia do Sul, bastando que estes países deixem de ver em Washington um parceiro fiável para se sentirem forçados a assegurar o futuro de outro modo, apaziguando a ameaça que temem.

O que Maquiavel nos ensina, ao elogiar a loucura fingida de Lúcio Júnio Bruto, é que ela é sábia quando configura um cálculo, uma espécie de máscara colocada quando necessário e retirada assim que cumpre o seu fim, um meio ao serviço de um fim e nunca um fim em si mesmo. É aí que reside o erro de Trump. Ao fazer da ameaça o seu registo permanente, repetindo-a todos os dias até à insignificância, o instrumento tornou-se mero ruído. A distância entre a loucura de Bruto e a sua é a distância entre saber guardar a palavra e fazê-la valer ou gastá-la, desvalorizando-a. É essa a desvalorização de que aqui se trata, visível na indiferença com que o mundo recebe hoje as declarações do presidente americano.