Uma batalha que tem sido travada há quatro anos pelo poder na holding familiar Delfin, que controla a EssilorLuxottica, a maior produtora de óculos de sol do mundo, entra num novo capítulo esta terça-feira, quando um dos herdeiros mais envolvidos na administração da empresa anuncia a decisão de deixar os cargos que ocupa. Leonardo Maria Del Vecchio, filho do fundador da gigante de eyewear que detém marcas como a Ray Ban e a Oakley, tentava desde o início do ano comprar as ações de dois dos seus irmãos, na intenção de se tornar o maior acionista individual. “Não me quero tornar o filho do fundador, acostumado a representar uma continuidade com a qual, em certos princípios fundamentais, não me reconheço mais”, disse, numa carta aberta publicada pelo Milano Finanza. A comunicação ao CEO da empresa, Francesco Milleri, terá sido feita na passada segunda-feira.
“O meu pai construiu a Luxottica a pedir muito a muitas pessoas. Mas ele sabia algo que corremos o risco de esquecer hoje: se pedimos lealdade, sacrifício e um sentido de pertença às pessoas, precisamos estar dispostos a retribuir. Não se pode ser uma equipa apenas quando se apresentam resultados. Não se pode celebrar os gerentes quando vencem e, de repente, revelar um distanciamento institucional quando estão a passar por um momento difícil. Não se pode colocar as pessoas no centro das apresentações e deixá-las de lado quando se sentem desconfortáveis. Essa não é a Luxottica com a qual cresci. E não é a Luxottica que me lembro ao lado do meu pai”, critica Leonardo Maria Del Vecchio, que anunciou que vai deixar os cargos de Presidente da Ray Ban e CSO do grupo no dia 31 de agosto. Garante, entretanto, que vai continuar “a exercer plenamente a minha responsabilidade como acionista da Delfin. Continuarei a defender a independência da empresa, a sua capacidade de crescimento e a necessidade de uma propriedade estável e de uma visão a longo prazo.”
A decisão vem depois de em abril seis dos oito acionistas aprovarem a venda das participações de dois deles por cerca de 10 mil milhões de euros, a Leonardo Maria Del Vecchio, como noticiou o Corriere della Sera. Dessa forma, o Presidente da Ray Ban seria também o maior acionista individual da empresa de eyewear. Contudo, em junho o conselho da Delfin rejeitou conceder uma letter of patronage como garantia exigida pelos bancos para o financiamento da operação. Dois meses depois, a questão passou a ser não só a venda das ações, mas uma reconfiguração da holding familiar, envolvendo saídas individuais e recompras de participações.
A origem da disputa
Em 1961, aos 26 anos, Leonardo Del Vecchio fundou em Agordo, na região italiana do Véneto, a maior empresa de óculos de sol do mundo. Com mais de seis décadas de história, a Luxottica detém marcas como a Ray-Ban e a Oakley, mas também está licenciada para a produção de peças de casas de moda como Prada, Versace, Burberry e Emporio Armani. Em 2017, com a fusão com o grupo francês Essilor, os Del Vecchio passaram a figurar entre as grandes dinastias económicas da Europa. Quando morreu, em 2022, aos 87 anos, Leonardo Del Vecchio tinha uma fortuna avaliada em mais de 25 mil milhões de dólares e era um dos homens mais ricos da Itália.

Contudo, a sua morte deixou um lugar vago na Presidência da gigante dos óculos de sol (e não só). As participações da família na EssilorLuxottica, equivalentes a 32,4% da empresa, são controladas pela holding familiar Delfin, sediada no Luxemburgo, assim como investimentos relevantes nos setores bancário, segurador e imobiliário, como a Generali, a Monte dei Paschi di Siena, a UniCredit e a Covivio. E o fundador decidiu dividir a holding em partes iguais entre todos os herdeiros.
Leonardo Del Vecchio casou três vezes e teve seis filhos: Claudio, Paola, Marisa, Leonardo Maria, Luca e Clemente. Além dos irmãos, outras duas pessoas receberam ações da família: a viúva Nicoletta Zampillo e Rocco Basilico, filho de Zampillo. Portanto, a Delfin ficou dividida em oito participações equitativas de 12,5% cada — numa estrutura concebida, de certa forma, para impedir que um dos herdeiros assumisse o controlo total.
Mas a visão do fundador parece não ser a mesma dos principais acionistas. Desde a morte de Leonardo Del Vecchio, há quatro anos, que se instaurou uma espécie de batalha entre os irmãos pelo poder da holding. Uma “novela” em que o protagonista é Leonardo Maria Del Vecchio, o filho de 31 anos que ocupará o cargo de Presidente da Ray Ban até à próxima segunda-feira, 31 de agosto.
As “personagens”: os oito acionistas
Leonardo Maria Del Vecchio é filho do fundador da Luxottica com Nicoletta Zampillo, e a figura central na tentativa de reorganização da empresa. É Presidente da EssilorLuxottica Itália e da Ray Ban, cargos que anunciou esta terça-feira que vai renunciar a partir da próxima semana. Além das participações na empresa fundada pelo pai, Leonardo Maria Del Vecchio fundou a LMDV Capital, uma espécie de family office no qual gere outros investimentos, e detém o Gruppo Editoriale Nazionale, dono de jornais como o La Nazione. À parte dos negócios, coleciona Ferraris — e está envolvido num acidente polémico de novembro de 2025, que se encontra sob investigação pelas autoridades italianas, avança o La Repubblica — é DJ e tem uma discoteca em Milão.
É uma figura frequente nos tabloides italianos desde que iniciou uma batalha judicial pela custódia do filho com a ex-companheira, Sara Soldati, ex-concorrente do Big Brother italiano. Entre as amizades com famosos, destacam-se parcerias com os rappers 50 Cent ou A$AP Rocky, a modelo Naomi Campbell ou o lutador Mike Tyson.

Desde o início do ano que Leonardo Maria Del Vecchio pretendia comprar as ações de dois dos seus irmãos que procuram deixar a estrutura da holding: Paola, filha do primeiro casamento do pai, e Luca, filho do segundo casamento. O negócio seria fechado por cerca de 10 mil milhões de euros, fazendo de Leonardo Maria o principal acionista individual da Delfin, com 37,5% das ações. A operação foi aprovada pelo conselho da holding em abril, mas nunca foi concluída.
Houve dois votos contra a compra. Um deles foi de Claudio Del Vecchio, filho mais velho do fundador, que faz parte do primeiro ramo da família, juntamente com as irmãs Marisa e Paola. O primogénito é o único dos herdeiros que já tem os seus 12,5% de participações na Delfin controlados através de uma sociedade norte-americana. Claudio Del Vecchio fez carreira nos EUA — é desde 2001 dono do grupo detentor da marca Brooks Brothers.
O segundo voto contrário, e a maior oposição à ascensão de Leonardo Maria no grupo familiar é de Rocco Basilico, filho de Nicoletta Zampillo, a viúva do fundador. Basilico não é filho biológico de Leonardo Del Vecchio, mas recebeu uma das partes de 12,5% da Delfin. Além de votar contra a operação de compra das ações dos outros herdeiros, Basilico contestou judicialmente a deliberação de abril — apesar de também ter anunciado o desejo de deixar a sua posição dentro da empresa familiar em dezembro de 2025, como avançou a Reuters. Contudo, numa entrevista em agosto para o The Gentlemen’s Journal, Basilico continua a assinar como o CEO da Oliver Peoples, uma das marcas da Luxottica, e chefe do departamento de desenvolvimento de wearables, ou os óculos inteligentes, numa parceria com a Meta.
Diante da tentativa de compra em abril, outras questões foram levantadas entre os herdeiros. A primeira delas é a tentativa de transferir as participações na holding para sociedades próprias — o que pediu um dos filhos de Del Vecchio, Clemente, assim como Leonardo Maria e Rocco. As transferências foram submetidas a uma assembleia de acionistas a 30 de junho, mas não obtiveram a unanimidade necessária, explicou o La Repubblica. Foi também nesta assembleia que foram discutidas opções como a recompra pela própria Delfin das ações dos herdeiros que desejam deixar a estrutura da holding.
Quem não participou na assembleia, entretanto, foi Leonardo Maria, que um dia antes publicou uma carta aberta a criticar a administração, especialmente o CEO da EssilorLuxottica e presidente do conselho da Delfin, Francesco Milleri. As críticas vieram depois de a holding se recusar a emitir a letter of patronage exigida pelos bancos para aprovar o financiamento necessário para a compra das ações dos irmãos, por 10 mil milhões de euros. “A questão deixou de ser financeira e passou a ser uma questão de governação”, sinalizou Del Vecchio.
As compras e transferências ficavam assim bloqueadas. Enquanto Luca, Paola, Clemente, Leonardo Maria e Basilico procuravam, por vias diferentes, tornar as suas participações transferíveis ou financiáveis; Marisa e Nicoletta permaneciam sem anunciar uma estratégia equivalente, e a estrutura de oito acionistas permanece. É neste cenário que Leonardo Maria Del Vecchio deixa as posições administrativas na empresa, mas a questão parece longe de uma resolução. “Não estou a sair após uma derrota. Estou a sair após ter cumprido o meu trabalho”, diz, na carta aberta publicada esta terça-feira. “Continuo como acionista por meio da Delfin e continuo a ser responsável por esta empresa a partir daí: deixo os cargos, não a empresa, que faz parte da minha história muito antes de qualquer posição. Desde setembro, LMDV Capital”, destaca, numa publicação nas redes sociais. “Encerro um mandato com metas superadas, uma marca mais forte do que quando a encontrei e uma equipa que sabe o que precisa fazer. Não escolhi o meu apelido. O que faço com ele, porém, sim.”