‘Hi, dad,’ observou Telémaco. Para quem se sente culpado por não saber grego e não quer estar na bicha para os filmes de peplo, o telejornal é uma fonte alternativa e barata de poesia épica. Como os grandes poemas de antigamente, é longo, heterogéneo e repetitivo; e como eles terá evoluído a partir da linguagem oral, ou pelo menos é recitado por rapsodos (como lhes chamavam na Grécia) que têm o cuidado de nos assegurar que o mundo se move pela força, a qual escraviza e arrasta as cabeças no ar em estado de fúria.
Algumas pessoas preferem outros tipos de ficção ao telejornal; mas esses tipos de ficção não conseguem dar uma ideia clara da Grécia arcaica: do pitoresco das linguagens, do disparatado das opiniões, da noção de que tudo está relacionado, e sobretudo de que há uma força nas coisas. Os espectáculos da ira dos heróis são encorajados; e não lhes são estranhas as principais emoções helénicas, em especial a imitação do sentimento da dignidade ofendida. Os rapsodos que recitam o telejornal chamam quase sempre tragédia à épica; mas essa imprecisão terminológica não afecta a sua intenção mais profunda.
Ao telejornal não basta com efeito pôr em verso uma história fatal. É necessário que o metro encantatório se possa prolongar durante muito tempo em muitas histórias desirmanadas; e depois que elas se repitam aos bocados e se repitam os seus melhores bocados em palavras soltas, de acordo com a vontade presumida do freguês. Os telejornais são literatura oral sem questão homérica: a ninguém ocorreria vir a escrever mais tarde aquelas coisas. São improvisados por pessoas dotadas de uma memória tão opulenta que as impede de pensar no que estão a dizer.
Há em cada noite o eco das proezas atléticas dos tempos antigos, quando os profissionais bem pagos eram capazes de recitar dezasseis mil versos em apneia, sem raciocinar uma única vez. Os espectadores desses recitais estavam muito habituados às expressões que não queriam dizer nada, e não se importavam: sabiam que elas estavam lá para ajudar à memória e dar um ar da sua Grécia. É por isso que entre as personagens épicas antigas tantos heróis tinham o pé leve, e que a aurora e as rosas tinham dedos.
Ao público do telejornal também não importam os rastos de destruição, a vizinha Espanha, ou a velhinha lei da gravidade: são auxiliares da memória que se esquecem depressa. O que quer assegurar é que em qualquer noite lavrem os maiores incêndios desde a Antiguidade; que haja banquete; e que a seguir se represente a comédia do Ciclope Transatlântico, a quem a Europa das mil manhas engana sempre com sucesso (pensar que foi na península de Setúbal que nasceu o cavalo de Tróia!) É essa combinação de leviandade, violência, pompa e comentário que mantém o telejornal na tradição da épica grega.