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Uma monocultura de árvores não funciona como uma floresta

Quando simplificamos demasiado um ecossistema, não perdemos apenas espécies. Perdemos relações e funções. E quanto menos funções existirem dentro de uma paisagem, maior será a sua dependência

Tiago Lucena
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Há palavras que repetimos tantas vezes que deixamos de pensar no seu verdadeiro significado. Uma delas é “floresta”. Todos os Verões ouvimos falar de incêndios florestais, gestão da floresta, economia da floresta ou limpeza da floresta. Depois olhamos para as imagens e, muitas vezes, aquilo que vemos é uma plantação de árvores em monocultura.

Do ponto de vista administrativo e estatístico, uma plantação monoespecífica pode ser classificada como floresta de produção ou floresta de plantação. Mas isso não significa que funcione ecologicamente como uma floresta diversa. A diferença não é apenas semântica. Ajuda a compreender muitos dos problemas ambientais e territoriais que hoje enfrentamos.

Uma floresta não é apenas um conjunto de árvores. É um sistema vivo composto por árvores de diferentes espécies e idades, arbustos, plantas rasteiras, fungos, líquenes, insectos, aves, mamíferos, répteis, anfíbios e milhões de organismos microscópicos que vivem no solo.

Cada espécie pode desempenhar várias funções e diferentes espécies podem contribuir para a mesma função ecológica. Umas polinizam, outras dispersam sementes, reciclam nutrientes, regulam populações de insectos, produzem matéria orgânica ou participam na formação e manutenção do solo. Essa diversidade cria redundância, capacidade de adaptação e maior resistência perante secas, pragas, doenças e outras perturbações.

Para perceber esta ideia, basta pensar numa cidade. Uma cidade não funciona por ter quinze mil médicos, quinze mil advogados ou quinze mil contabilistas. Funciona porque reúne milhares de profissões diferentes. Agricultores, professores, mecânicos, enfermeiros, electricistas, padeiros, canalizadores e condutores asseguram funções distintas que, em conjunto, mantêm o sistema operacional.

Se retirássemos essa diversidade e deixássemos apenas uma profissão, continuariam a existir edifícios, estradas e pessoas, mas já não existiria uma cidade funcional. Uma monocultura arbórea apresenta um problema semelhante. Conserva uma cobertura de árvores, mas perde grande parte da diversidade de relações que permite a um ecossistema responder, adaptar-se e regenerar-se.

O exemplo mais evidente em Portugal é o dos povoamentos de eucalipto-comum, Eucalyptus globulus, uma espécie originária do sudeste da Austrália e da Tasmânia. Nos grandes povoamentos monoespecíficos da Península Ibérica, muitas das relações ecológicas presentes nas florestas nativas estão ausentes ou fortemente reduzidas.

Existe vida num eucaliptal, naturalmente. A sua diversidade depende da idade do povoamento, da frequência dos cortes, da intensidade da gestão, da presença de subcoberto e da proximidade de outros habitats. Mas, sobretudo nos povoamentos mais homogéneos e intensivamente geridos, a diversidade de plantas, aves, insectos e outros organismos tende a ser bastante inferior à encontrada numa floresta nativa bem conservada.

É por essa redução de diversidade e complexidade que estas plantações são frequentemente descritas como “desertos verdes”. A expressão é metafórica. Não significa que não exista qualquer forma de vida, mas que estamos perante um sistema muito mais simples do que uma floresta ecologicamente diversa.

O mesmo princípio aplica-se às monoculturas de espécies autóctones. O pinheiro-bravo é uma espécie nativa da Península Ibérica e integra vários ecossistemas portugueses. Pode prestar serviços ambientais importantes e criar habitat para aves, insectos, fungos e outros organismos.

Mas um pinhal espontâneo ou misto, com árvores de diferentes idades e um subcoberto diverso, não é ecologicamente equivalente a uma plantação de pinheiro-bravo que ocupa, praticamente sozinha, centenas ou milhares de hectares. O problema não é a árvore. O problema é faltar tudo o resto.

É desta diversidade que resultam os processos ecológicos que sustentam os chamados serviços dos ecossistemas. A vegetação, as raízes, os fungos, os animais e os organismos do solo contribuem para a infiltração da água, a ciclagem de nutrientes, a formação de matéria orgânica, a regulação da temperatura e a estabilização das linhas de água.

São esses processos que, por sua vez, garantem benefícios essenciais para a sociedade: água de melhor qualidade, solos mais férteis, menor erosão, regulação climática, polinização, produção alimentar, madeira, paisagens habitáveis e espaços de recreio.

Quando simplificamos demasiado um ecossistema, não perdemos apenas espécies. Perdemos relações e funções. E quanto menos funções existirem dentro de uma paisagem, maior será a sua dependência de intervenções externas para continuar a produzir e a manter-se estável.

O solo é um bom exemplo. Um solo vivo depende da matéria orgânica que recebe e da forma como essa matéria é continuamente transformada. Folhas, ramos, raízes, frutos, excrementos e organismos mortos acumulam-se à superfície e entram num processo de decomposição conduzido por fungos, bactérias, insectos e outros organismos do solo. Quanto mais diversa for essa matéria orgânica, mais completo é o alimento disponível para essa comunidade biológica. É este ciclo contínuo entre vegetação, decomposição e vida no solo que constrói fertilidade, melhora a estrutura do terreno e aumenta a sua capacidade de infiltrar e reter água.

Quando um sistema é muito homogéneo e está sujeito a cortes frequentes, remoção de biomassa, mobilização intensa ou perda de subcoberto, essa diversidade biológica diminui. O solo torna-se mais exposto, perde matéria orgânica e reduz a sua capacidade de infiltrar e armazenar água.

Os problemas começam então a surgir em cadeia. A estrutura do solo degrada-se, aumenta a escorrência superficial, cresce a erosão e as encostas perdem humidade mais rapidamente. As linhas de água tornam-se mais sazonais e a paisagem fica mais vulnerável à seca, à erosão, ao calor e ao fogo.

Esta relação não é automática nem depende apenas da espécie plantada. O resultado varia com o clima, o solo, o relevo, a densidade das árvores, o tipo de gestão e o estado geral da bacia hidrográfica. Mas quando a homogeneidade se combina com gestão intensiva, erosão e abandono territorial, o risco aumenta.

Também é importante esclarecer que biodiversidade não significa ausência de fogo. Uma paisagem diversa pode reduzir a continuidade do combustível, conservar mais humidade e recuperar melhor depois de uma perturbação. Mas a diversidade, por si só, não impede incêndios.

O comportamento do fogo depende igualmente da quantidade e disposição do combustível, do teor de humidade da vegetação, da topografia, do vento, da temperatura, da gestão e da existência de descontinuidades na paisagem. Uma floresta nativa abandonada e carregada de combustível também pode arder. Uma plantação bem compartimentada e devidamente gerida pode apresentar menos risco do que outra área sem qualquer gestão.

É precisamente por isso que o debate não deve ser reduzido a uma disputa entre espécies “boas” e “más”. O que importa é o sistema territorial em que essas espécies estão integradas, a forma como são geridas e as funções que a paisagem consegue desempenhar.

Em Portugal continental, o território urbanizado ocupa aproximadamente 5% da área. A floresta, em sentido estatístico, ocupa mais de um terço do território. Mas grande parte dessa superfície corresponde a povoamentos plantados, áreas de produção ou formações profundamente transformadas por séculos de exploração humana.

A área de floresta antiga, pouco intervencionada e ecologicamente madura é muito reduzida e corresponde aproximadamente a 5% do território. Não existe, contudo, um único estado “original” da paisagem portuguesa ao qual possamos regressar. A Península Ibérica foi transformada durante milhares de anos pela agricultura, pela pastorícia, pelo fogo, pela exploração de madeira e pela expansão das povoações, e para entendê-la temos de recuar uns milhares de anos.

Muitas paisagens que hoje reconhecemos como valiosas, como o montado, são precisamente o resultado de uma relação prolongada entre processos ecológicos e gestão humana. A questão não é eliminar a presença humana da paisagem, mas sim recuperar formas de ocupação e gestão que permitam produzir sem destruir as condições ecológicas que tornam essa produção possível.

Quem quiser perceber a diferença entre uma floresta diversa e um povoamento monoespecífico pode visitar alguns dos núcleos florestais mais bem conservados do país, como os bosques da Serra da Arrábida, a Mata da Margaraça em Arganil ou a Mata da Albergaria, no Gerês.

São formações ecológicas diferentes entre si. Algumas possuem maior influência mediterrânica, outras atlântica ou montanhosa. Mas todas mostram uma complexidade estrutural e biológica que não encontramos numa plantação uniforme.

Existem árvores de diferentes dimensões e idades, vários estratos de vegetação, madeira morta, clareiras, fungos, aves, insectos e solos cobertos por matéria orgânica. A luz atravessa a vegetação de formas diferentes, os sons multiplicam-se e a própria estrutura do espaço revela que uma floresta é muito mais do que a soma das suas árvores.

Muitas comunidades indígenas e rurais desenvolveram, ao longo de gerações, conhecimentos detalhados sobre a relação entre vegetação, água, fertilidade e biodiversidade. Parte desse conhecimento, construído pela observação e pela experiência continuada, é hoje confirmado e quantificado pela investigação científica.

Durante o século XX, substituímos frequentemente essa complexidade por sistemas mais simples, fáceis de mecanizar, contabilizar e explorar no curto prazo. Obtivemos madeira, alimento e rendimento, mas acumulámos também custos que raramente entraram nas contas: erosão, degradação do solo, perda de biodiversidade, menor capacidade de retenção de água e aumento da vulnerabilidade territorial.

O problema não é utilizarmos a paisagem nem produzirmos madeira, alimento ou energia. O problema começa quando substituímos sistemas diversos por estruturas demasiado simples e depois esperamos que continuem a prestar as mesmas funções.

Em Portugal precisamos de aprender a distinguir claramente uma floresta diversa, uma floresta de produção, uma plantação monoespecífica, um sistema agroflorestal e um povoamento em regeneração natural. Todos podem ter lugar no território, desde que estejam localizados e geridos de acordo com a sua função. Mas não são equivalentes e não devem ser avaliados como se fossem.

Reconhecer essa diferença é o primeiro passo para desenharmos paisagens mais produtivas, diversas e resistentes. Porque plantar árvores pode ser necessário. Mas recuperar uma floresta exige muito mais do que isso. E o ordenamento da paisagem tem de responder à necessidade de manutenção dos processos naturais e dos processos ecológicos que prestam o serviço ambiental de manter as condições de vida no planeta.