(c) 2023 am|dev

(A) :: Um retrato do dia-a-dia nas organizações públicas

Um retrato do dia-a-dia nas organizações públicas

Garfada a garfada, o trabalho vai-se fazendo. Afinal, é preciso alimentar o corpo, e ainda falta toda uma tarde pela frente.

Ricardo Cunha Dias
text

São perto das nove horas da manhã. No parque em frente ao Instituto, os carros ali estacionados dão conta de quem menos dorme para manter a coisa a funcionar. Dia após dia, seja à hora de entrada, seja à de saída, muitas daquelas viaturas repetem-se nos mesmos lugares, quase como se nunca abandonassem o local. Se tivéssemos de julgar apenas por isso, ficaria a ideia de que alguns dirigentes não dormem de todo.

Em todo o caso, há que aproveitar esse último reduto livre de parquímetro, que é a meia dúzia de lugares que o município, por benevolente solidariedade para com uma entidade pública sua congénere, destinou àquelas chefias. Para quem não tem direito a essa benesse institucional, resta vir de transportes, contribuir para o orçamento municipal ou tentar encontrar vaga num parque não pago. Numa grande cidade, isso é mais ou menos o mesmo que procurar uma agulha num palheiro, mas geralmente dá direito a uma bela caminhada matutina, e caminhar faz bem.

Logo ao passar da porta, o porteiro acena, num gesto rotinado, ao gradual corrupio de gente que passa o dedo pela maquineta de picagem do ponto. Com ar mais ou menos grave, a maior parte dos funcionários repete esse ritual diário, nada ou, pelo menos, questionavelmente necessário, para evitar ter de o reproduzir mais tarde em modo digital e, com isso, roubar ainda mais alguns minutos às já escassas horas de sono das respetivas chefias, sobrecarregando-as, coitadas, com esse importante assunto estratégico que é validar as picagens em falta.

Por vezes acumulam-se pequenas filas, e esse momento de chegada acaba também por servir de mote a felizes reencontros: “Então, como é que estás? Já não nos víamos há algum tempo! Como vai o teu mais novo?”, ou, simplesmente, “E o teu Benfica, pá?”. Invariavelmente, pelo meio, surge também o “Vai-se andando, sabes como é. Cheio de trabalho!”, essa espécie de resposta de entendimento universal que permite dizer quase tudo sem explicar coisa nenhuma.

Os reencontros prolongam-se depois pelos corredores, acompanham a entrada nas salas e acabam muitas vezes por desembocar junto à máquina do café ou, no caso dos que prezam menos a saúde, no cigarro à porta do edifício. É aí, já com o ponto devidamente picado e cumpridas as primeiras formalidades que as conversas começam a aproximar-se do que realmente importa: “Já soubeste das novidades? O fulano X vai-se embora?”, “Então, afinal, aquilo vai mesmo avançar?”, ou o inevitável “Precisava mesmo de falar contigo!”. Há uma urgência que começa a surgir, e as conversas mudam gradualmente de tom, marcando a hora da fuga ou luta, que é o mesmo que dizer, de ocupar a secretária.

Liga-se o computador e começam então as primeiras diligências para lidar com o inevitável: abrir o correio eletrónico, perceber o que chegou entretanto, distinguir aquilo que exige resposta daquilo que pode esperar e, sobretudo, descobrir o que os outros decidiram que merece a nossa atenção, o que naturalmente devolvemos na mesma moeda. Pelo meio, consulta-se a agenda para recordar as reuniões para que se foi convocado, aquelas que nós próprios convocámos e uma ou outra cuja origem já não é inteiramente clara, mas que, estando no calendário, há de ter certamente alguma razão de ser.

Segue-se o Teams. Um “Bom dia! Tens um minuto?” para aqui, um “Sabes como ficou aquilo?” para ali, uma pergunta rápida a quem talvez saiba onde está o ficheiro, quem ficou responsável pelo assunto ou em que ponto ficou aquela decisão que parecia tão clara na última reunião. Aos poucos, entre emails, mensagens, documentos abertos e separadores que se vão multiplicando no ecrã, começa a formar-se uma ideia razoável do que haverá para fazer naquele dia. Isto, claro, nos dias bons.

Nos dias maus (que não chegam propriamente a ser uma raridade estatística), aparece, entretanto, a mensagem do chefe: “Preciso disto com urgência”. A palavra tem a vantagem de dispensar explicações adicionais. O que estava em primeiro plano passa para segundo, o que estava em segundo passa para depois e aquilo que já vinha de ontem ganha, sem grande cerimónia, mais um dia ou dois de maturação. Reorganizam-se prioridades, fecham-se alguns dos documentos acabados de abrir e abrem-se outros, porque a capacidade de adaptação é, como se sabe, uma competência essencial na Administração Pública.

Nos dias realmente maus, porém, a urgência implica uma informação formal, na forma de parecer, de uma manifestação de necessidades ou da justificação de um pedido de cabimento. E uma informação formal exige, naturalmente, interagir com o sistema de gestão documental. É nesse momento que o trabalhador percebe que tudo o que aconteceu até ali foi apenas um aquecimento. É preciso encontrar o processo certo, perceber como e onde deve ser submetido o documento, identificar o circuito adequado, escolher entre campos cuja diferença nem sempre (ou quase nunca) é imediatamente evidente, anexar aquilo que se espera que seja anexado e confiar que, no final, o botão que parece significar “enviar” significa efetivamente “enviar”.

O sistema, pouco dado a excessos de intuição, obriga por vezes a percorrer caminhos que talvez fossem perfeitamente óbvios para quem o desenhou. Para os restantes, há sempre um colega, qual guardião do labirinto, que conhece a saída. Ou, pelo menos, que diz conhecê-la. Porque também aqui o conhecimento tem o seu valor. Há quem explique prontamente, quem responda apenas o suficiente para demonstrar que sabe e quem guarde determinados segredos operacionais com o zelo de quem protege um segredo de Estado. Afinal, numa organização onde quase todos dependem de terceiros para fazer alguma coisa acontecer, saber onde carregar, quem contactar ou por que circuito fazer passar um processo pode constituir uma preciosa moeda de troca.

E então regressa-se ao Teams: “Desculpa, sabes como é que se mete isto no sistema?”. A resposta varia consoante o colega e o momento. Pode ser um seco “Agora não posso”, um mais solidário “Desculpa, gostava mesmo de ajudar, mas estou em reunião. Depois passo aí”, ou ainda um particularmente colaborativo: “Sei, sim. Já te mostro. Olha, já agora, depois precisávamos de falar daquela coisa que te pedi…”. Nada de extraordinário. Apenas a economia informal da reciprocidade a funcionar: hoje explico-te o caminho pelo sistema, amanhã talvez me ajudes a encontrar outro.

Nesse momento, há qualquer coisa que se acende na nossa memória. A agenda. A reunião. Aquela mesma reunião que, meia hora antes, se tinha confirmado existir e que, entretanto, desaparecera algures entre a urgência da solicitação do chefe, o parecer, o pedido de cabimento e as várias tentativas de descobrir em que campo do sistema se devia carregar.

Olha-se para o relógio. Já começou. Fecha-se o que estiver aberto (ou deixa-se simplesmente tudo como está, porque já não há tempo para grandes cerimónias), pega-se no computador e atravessa-se o corredor a um ritmo suficientemente rápido para demonstrar urgência, mas não tanto que pareça pânico. Entra-se na sala alguns minutos depois e recebe-se aquele olhar reprovador do chefe que dispensa qualquer necessidade de comentário. “Bom dia”, murmura-se baixinho numa tentativa vã para se ser menos notado quando todos se calam, procurando uma cadeira livre e tentando perceber, ao mesmo tempo, em que ponto da conversa se vai.

Na maior parte das vezes, percebe-se rapidamente que não se perdeu assim tanto. Alguém está a explicar por que razão determinada coisa ainda não foi feita, alguém contrapõe que já tinha alertado para o problema há semanas, outro recorda que o assunto depende de uma terceira unidade orgânica e há quase sempre quem aproveite a ocasião para fazer uma exposição particularmente detalhada de tudo aquilo que tem feito, está a fazer e, se as circunstâncias permitirem, continuará certamente a fazer. As reuniões têm esta extraordinária capacidade de juntar, no mesmo espaço e à mesma hora, pessoas com necessidades muito diferentes: umas querem decidir, outras informar, algumas justificar-se e outras, simplesmente, assegurar que todos ficam devidamente informados da dimensão do seu contributo.

É possível, durante alguns minutos, permanecer em relativa segurança, acompanhando a conversa com pequenos acenos de cabeça, consultando discretamente os documentos que, entretanto, se conseguiram abrir e tentando reconstruir o contexto. Até que alguém pronuncia o nosso nome: “Fulano Y, talvez possas explicar melhor essa parte.” Há um breve instante em que se tenta perceber exatamente que parte será essa. “Sim, claro.” Claro que não estava previsto falar! Claro que ninguém tinha avisado que aquele tema seria discutido. E claro que a pergunta incide precisamente sobre um aspeto técnico que não se domina inteiramente ou sobre um projeto cuja última versão ficou algures num email enviado três semanas antes.

Respira-se, recupera-se mentalmente o que se sabe e começa-se: “Bem, relativamente a esse projeto, aquilo que estamos neste momento a fazer é…”. E, poucos segundos depois, damos por nós a dissertar com uma segurança surpreendente sobre objetivos, constrangimentos, próximos passos, articulações institucionais e outras expressões suficientemente genéricas para permitir ganhar o tempo necessário até que a memória, finalmente, resolva colaborar. Confiança é tudo! Pelo caminho, alguém acena em concordância, outro toma notas e há até quem faça uma pergunta adicional, o que é sempre um bom sinal: pelo menos ninguém parece ter percebido que também nós estávamos a tentar descobrir exatamente do que estávamos a falar.

A exposição poderia continuar, não fosse alguém reparar que o relógio se aproxima perigosamente da hora de almoço. É, aliás, uma estratégia particularmente eficaz para reuniões que já se sabe, à partida, que vão durar demasiado: marcá-las para o final da manhã. Por mais entrincheiradas que estejam as posições, há sempre um momento em que a fome consegue aquilo que a argumentação não conseguiu: “Bem, temos mesmo de terminar por aqui.” Ninguém contesta. Afinal, até os funcionários públicos têm de comer.

Os assuntos ficam, naturalmente, em aberto. “Marcamos outra reunião para fechar isto?”, propõe alguém, desencadeando de imediato aquela que será talvez a parte mais complexa de toda a manhã, isto é, encontrar uma hora em que todos possam estar presentes. Abrem-se agendas, comparam-se calendários e começam as negociações: “Terça de manhã?”, “Não posso, tenho reunião.”, “E quarta às três?”, “Também não, tenho outra.”, “Sexta?”, “Sexta é impossível”. Na verdade, ninguém pode. Todos têm reuniões, prazos, urgências, compromissos anteriormente assumidos e outras reuniões destinadas, muito provavelmente, a marcar novas reuniões.

Ao fim de largos minutos sem que a diplomacia produza resultados visíveis, chega-se finalmente a um consenso. Fica-se de decidir mais tarde quando se poderá voltar a reunir para decidir aquilo que não se conseguiu decidir naquela reunião. É um resultado modesto, mas ainda assim um resultado. Viva produtividade! Mais um contributo para aquele objetivo tão arduamente negociado para a avaliação de desempenho. Fecham-se os computadores, recolhem-se papéis e cada um segue o seu caminho com a sensação reconfortante de que o assunto continua devidamente acompanhado.

O trabalhador regressa então à secretária, vai buscar a marmita preparada há dois dias e dirige-se à copa. Com os cerca de seis euros de subsídio de refeição que ajudam a suportar as exigências nutricionais de uma tão exaustiva jornada de trabalho, trazer comida de casa não deixa de ser uma opção economicamente sensata. À frente do micro-ondas, porém, também ali há fila. E, como já acontecera de manhã, a espera rapidamente se transforma num pequeno fórum de informação organizacional: “Já ouviste os rumores? Dizem que vão extinguir a entidade X”, “Parece que o projeto Y afinal não vai avançar”, “Ouvi dizer que vem aí uma reorganização”, “Então e aquele diretor, fica ou vai embora?”. Informação não confirmada, mas suficientemente consistente para circular por vários pisos antes de qualquer comunicação oficial conseguir fazer o mesmo percurso.

Chega finalmente a vez da marmita. Dois minutos no micro-ondas, mais trinta segundos porque no meio ainda está frio, e está servido o almoço. Come-se a comida requentada, já um pouco cansada dos seus sucessivos encontros com o frigorífico, enquanto a conversa continua entre rumores, queixas, previsões sobre o futuro da casa e comentários sobre quem anda a fazer o quê.

Garfada a garfada, o trabalho vai-se fazendo. Afinal, é preciso alimentar o corpo, e ainda falta toda uma tarde pela frente.