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(A) :: Do imprestável e da invenção das folhas

Do imprestável e da invenção das folhas

A beleza pacifica-nos porque interrompe, ainda que por um breve momento, a violência com que desejamos possuir e explicar.

Paulo Ramos
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Quando Cai Lun, o inventor do papel, era já velho, desprovido de dentes e coxo em consequência de uma queda, foi convidado para o Jardim das Pereiras em Flor por um dos cinco eruditos que dele cuidavam. Cada um deles era o guardião de uma pétala das flores dessas célebres árvores, como se a sabedoria pudesse sobreviver repartida entre mãos pacientes, ou como se toda a ciência humana exigisse pequenas fragilidades vegetais para não se tornar demasiado soberba.

No interior daquele lugar ameno, destinado ao repouso e à lenta circulação do saber, erguia-se uma biblioteca de bambu. Era frágil, pequena, quase provisória. Nela dormitava apenas um livro de cada vez. Escolhido ao acaso entre outros volumes vindos de bibliotecas distantes, podia ser O Livro das Libélulas Vermelhas, O Catálogo dos Céus ou Os Sonhos do Senhor Tigre. Passava de mão em mão, e cada leitor recebia dele um breve fragmento, que os demais escutavam e comentavam. Não havia pressa em chegar ao fim, porque sabiam que o fim de um livro raramente coincide com o fim daquilo que nele se começou a escutar.

Na Primavera, o canto dos papa-figos e dos rouxinóis desprendia, aqui e ali, flores das pereiras. No Outono, liam poesia enquanto bebiam chá verde. No Inverno, preferiam licor de arroz e sumo de groselhas-pretas, cujas cores pareciam conservar dentro de si vagas memórias de sol. Quando ninguém visitava a biblioteca, esta permanecia geralmente vazia. Os seus frequentadores, atentos à sabedoria do Tao, não temiam o nada nem o silêncio que o acompanha. Sabiam que o vazio não é apenas aquilo que falta: é também o espaço onde uma coisa pode chegar a ser vista.

Por vezes, o livro escolhido permanecia ali uma ou duas noites, protegido por um estojo de seda. Quando o proprietário vinha buscá-lo, surpreendia-se por os ideogramas não acusarem solidão nem abandono. Talvez os sinais escritos compreendessem melhor do que nós que toda a espera possui a sua respiração e que nenhuma página se encontra inteiramente só enquanto houver no mundo alguém disposto a abri-la.

A biblioteca dispunha apenas de cinco escabelos de bambu dourado. Nenhum estava reservado. Quando Cai Lun chegou, os eruditos cederam-lhe, com respeito e comoção, um lugar entre si. As primeiras folhas de papel circulavam havia pouco entre leitores e mestres, transportadas em caixas de madeira polida que cheiravam a sândalo e a rosas. Coexistiam com os volumes inscritos em tabuinhas de palmeira ou de bambu: materiais pesados, resistentes, mais próximos da pedra do que do vento.

O papel, pelo contrário, possuía uma leveza quase embaraçosa. Parecia incapaz de sustentar a dignidade dos reis, a ciência dos astrónomos ou a voz dos antepassados. E, contudo, talvez fosse precisamente essa fraqueza a sua promessa. Uma folha não resiste ao fogo, à água, ao descuido das mãos, aos insectos, ao tempo. Mas aceita tudo: a tinta, o desenho, o luto, o cálculo, a oração, a carta de amor, o nome de alguém que se deseja recordar. É humilde porque sabe receber.

Os presentes perguntaram então a Cai Lun de onde lhe viera a ideia. O velho explicava habitualmente aos curiosos que tinha visto trapos velhos, os fervera e amassara até deles ter obtido uma pasta leve. Deixara-a secar, passara depois um rolo de jade sobre cada folha e, terminada essa operação, fora tomado por uma alegria tão profunda que acabara a chorar.

Um dos ouvintes quis saber como poderia o pranto nascer de uma descoberta feliz. Cai Lun explicou que, naquele dia, compreendera que o morto, o inútil e o rejeitado aguardavam sempre uma ocasião para regressar à vida. As estrelas antigas, ao cair, espalham um pó que alimentará novas estrelas; as folhas amarrotadas e apodrecidas do Outono renascem na cor oxidada dos cogumelos; o estrume abriga a raiz dos nabos; as amoreiras servem de alimento às larvas das borboletas e, por intermédio delas, tornam-se seda. A sua tristeza era, por isso, apenas a forma visível da gratidão. Havia descoberto que a matéria não conhece o desprezo definitivo.

O papel nascera de uma pedagogia da atenção. Não de uma vontade de dominar o mundo, mas de uma demora diante daquilo que o mundo abandona. Cai Lun observara os trapos. Vira neles mais do que farrapos de pano, mais do que a memória cansada de corpos e trabalhos – vira uma possibilidade. A atenção é talvez esse gesto: não acrescentar imediatamente significado às coisas, mas esperar até que elas revelem o sentido que nelas já dormita.

Há quem imagine que a beleza pertence apenas ao que floresce, ao que permanece jovem, ao que, sem cicatrizes, se oferece ao olhar. Mas o velho fazedor de papel sabia que há beleza também na transformação dos restos. Não uma beleza ornamental, distante da matéria, mas uma beleza de passagem. A folha de papel não esquece completamente a camisa, a corda, a casca ou o trapo de que veio. Transporta consigo uma memória quase invisível da sua anterior pobreza. E é dessa memória que nasce a sua capacidade de acolher palavras.

Os sentidos desempenham aqui um trabalho mais profundo do que o simples prazer. O cheiro do sândalo, a aspereza do bambu, o rumor do rolo de jade sobre a pasta seca, o chá servido numa taça minúscula, o tremor das pereiras sobre a biblioteca: tudo isso devolve o pensamento à sua origem corpórea. Nenhuma paz autêntica se alcança desprezando os sentidos. É pelos sentidos que a alma aprende a não ser abstracta; é por eles que a inteligência reconhece que não habita um mundo de conceitos, mas de águas, aromas, pesos, texturas e luzes.

Cai Lun conservava uma folha do primeiro papel que fabricara. Tinha o tamanho de uma tijoleira e a cor da gema de ovo cozido. Um dos eruditos observou que um bom livro demora anos a compor-se e recordou que, numa antiga Viagem ao Pessegueiro da Longevidade, se lia que cada criatura possuía sempre a idade do universo, e não a que lhe atribuíam os seus familiares. O inventor reconhecia a verdade daquela observação. Dizia que os homens impõem limites e fronteiras ao que não tem princípio nem fim.

De tempos a tempos, pegava nessa folha inaugural e dobrava-a de um lado para o outro até que ela produzisse um som semelhante à chuva de Verão sobre uma fonte de quartzo. Esse ruído bastava-lhe para regressar às lágrimas.

Não era uma exaltação sentimental. Era a percepção de que uma coisa tão pequena podia conter o tempo inteiro. A folha dobrada guardava o corpo dos trapos, a água que os amolecera, o fogo que os fervera, a paciência das mãos, o brilho do jade, a luz sob a qual secou, e as palavras que um dia poderia receber. Tudo nela era transformação. Tudo nela participava daquela lenta hospitalidade pela qual o tempo, em vez de apenas destruir, prepara novos lugares para a forma.

A beleza pacifica-nos porque interrompe, ainda que por um breve momento, a violência com que desejamos possuir e explicar. Diante de uma folha de papel, de uma flor caída ou de uma árvore que oscila, o espírito pode cessar a sua guerra contra o tempo. Aprende que nem tudo precisa de ser retido para permanecer; nem tudo precisa de ser útil para ter valor; nem tudo precisa de ser dito para fazer sentido. Há uma paz própria das coisas que se oferecem sem se justificarem.

Os eruditos ofereceram a Cai Lun chá numa pequena chávena e, para agradecerem a sua visita, leram-lhe um poema anónimo que celebrava a chegada do papel ao mundo. O poema sugeria que os ideogramas, nascidos outrora da observação das marcas que as patas das aves deixavam na areia, regressavam finalmente às asas que os levariam de um país a outro. Assim, a escrita não seria uma prisão para o movimento, mas o seu delicadíssimo prolongamento: uma maneira de as aves, os rios, as nuvens e os homens atravessarem distâncias sem abandonarem inteiramente aquilo que são.

Em redor da biblioteca, as pereiras oscilaram levemente. O seu tremor passou despercebido. Mas talvez o mundo se tenha inclinado, nesse instante, em direcção àqueles homens reunidos em torno de uma folha. Talvez a beleza consista precisamente nessa inclinação quase imperceptível: a matéria que se torna atenção, a atenção que se torna sentido, e o sentido que, sem vencer a dor nem corrigir o tempo, torna mais habitável a nossa breve passagem.