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A tirania da ronda de financiamento

Transformámos as rondas de financiamento em sinal de ambição. Mas crescer com clientes, receita e controlo continua a ser uma forma legítima, e muitas vezes inteligente, de escalar uma empresa

Tomás Moreno
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Há 20 anos que falo com jovens empreendedores. Muitos chegam com uma apresentação preparada para investidores antes de terem tido uma conversa séria com clientes. Sabem qual poderá ser a próxima ronda, imaginam o exit, conhecem os múltiplos e o discurso certo para impressionar o ecossistema. Mas, por vezes, ainda não sabem se alguém está disposto a pagar pelo produto.

Talvez os ventos estejam a mudar porque, ultimamente, tenho encontrado mais empreendedores que preferem financiar as suas empresas com a própria receita. Não por falta de ambição, mas porque perceberam que há mais do que uma forma de construir uma empresa. Querem crescer ao ritmo que o negócio permite, reinvestir os lucros, pôr os clientes em primeiro lugar e, sobretudo, manter o controlo. É uma escolha menos vistosa, quase nunca celebrada nos palcos, mas viável e com benefícios reais a longo prazo.

O curioso é que, durante muito tempo, esta era a escolha normal. Construía-se uma empresa com uma ideia, algum dinheiro para arrancar, clientes, vendas, recrutamento e crescimento. O capital externo podia surgir mais tarde, se fizesse sentido. Não era um ritual de passagem obrigatório, nem uma prova de que o negócio era sério.

A dada altura, o boom das startups alterou essa perceção. A narrativa dominante passou a ser outra: levantar capital, crescer depressa, adiar a rentabilidade e perseguir a próxima ronda. Acabámos por confundir avaliação com valor.

Na era do verniz caracterizada pelas redes sociais, esta distorção tornou-se ainda mais evidente. Uma ronda de financiamento deixou de ser apenas uma decisão financeira: é um anúncio, uma fotografia, uma publicação, uma validação pública e quem sabe um convite para o palco do Web Summit.

Para muitos jovens empreendedores, levantar capital tornou-se uma forma de dizer ao mundo que chegaram, que foram escolhidos, que pertencem à corrida certa. Num tempo em que parecer grande conta tantas vezes mais do que ser sólido, a empresa que anuncia investimento parece imediatamente mais relevante do que aquela que cresce em silêncio com clientes pagantes.

Nada disto significa que o capital de risco seja dispensável. Pelo contrário, há empresas que dificilmente existiriam sem ele, e a sua escassez continua a ser uma fragilidade europeia face aos Estados Unidos. Na biotecnologia, na aeroespacial, na inteligência artificial ou na computação avançada, são necessários investimentos enormes muito antes de haver receitas relevantes. O capital de risco ajudou a criar algumas das empresas tecnológicas mais importantes do mundo e continuará a ser essencial para projetos de grande intensidade financeira e elevada incerteza tecnológica.

O problema não está no capital de risco. Está na transformação desse caminho na única linguagem respeitável da ambição. Há empresas para as quais levantar capital é indispensável. Há outras para as quais pode ser uma distração, uma pressão desnecessária ou até uma forma de perder demasiado cedo o controlo do próprio destino.

O autofinanciamento tem outra lógica. Obriga a provar cedo que alguém está disposto a pagar pelo produto, a gerir custos, a escolher prioridades e a crescer com base na procura real. Pode ser mais lento e menos dado a apostas espetaculares, mas cria empresas mais disciplinadas, mais próximas dos clientes e menos dependentes da próxima ronda. Também tem riscos: uma empresa autofinanciada pode ficar sem fôlego, perder oportunidades ou não conseguir atravessar uma crise.

É por isso que a conversa devia ser mais exigente. Não se trata de escolher entre capital de risco e autofinanciamento como se fossem rivais. Trata-se de perceber que são instrumentos diferentes para empresas diferentes, em momentos diferentes. O erro está em transformar uma decisão financeira numa medida universal de ambição.

Em Portugal, esta distinção não é académica. Poucas empresas terão potencial para ser unicórnios, mas muitas podem ser excelentes. Podem vender para fora, formar talento, desenvolver fornecedores, pagar impostos e sustentar comunidades durante décadas. Uma economia não se faz apenas de gigantes globais. Também se faz de empresas médias sólidas, rentáveis e persistentes.

A inteligência artificial torna esta possibilidade ainda mais interessante. Nunca foi tão barato lançar uma empresa, testar uma ideia ou servir clientes com equipas pequenas. Atividades que antes exigiam departamentos inteiros estão hoje ao alcance de poucos fundadores, o que torna o crescimento com receita própria mais plausível. Mas a mesma facilidade cria ruído: surgirão muitas empresas bem apresentadas e pouco diferenciadas. Será cada vez mais tentador vender potencial antes de provar valor.

A tecnologia baixa o custo de entrada, mas não substitui clientes, confiança, execução e capacidade de perdurar. É precisamente aí que o autofinanciamento recupera relevância: não como nostalgia empresarial, mas como disciplina. Quando uma empresa cresce com a receita que gera, o mercado impõe-lhe uma verdade simples: alguém tem de valorizar suficientemente o produto para pagar por ele.

Levantar capital pode ser a decisão certa e por vezes é indispensável. Mas não deve ser o primeiro altar onde um empreendedor tem de se ajoelhar. O capital de risco deve ser uma ferramenta, não um rito de passagem.