No Verão, fatais como os incêndios são as entrevistas de vida. Se tiver a desgraça de ser interrogado, não se esqueça de que o importante não é ser, mas parecer. Para este efeito, siga os preciosos conselhos do Cónego Jeremias, que aqui lhe dá uma dica para cada pergunta do tradicional questionário de Proust.
1 – Qual a sua virtude preferida? Diga sempre que todas, mas que o seu forte é, como é óbvio, a humildade. Livre-se de dizer que o que o caracteriza é a frontalidade, eufemismo sinónimo de brutalidade, ou que é muito rebelde, ou seja, um selvagem que anda à solta.
2 – Quais são as qualidades preferidas num homem? Se quiser ser politicamente correcto, responda que as mesmas que mais aprecia numa mulher e poderá avançar cinco casas no jogo da (vã) Glória, que é o jogo da vida. Se não quiser ser politicamente correcto, pode dizer uma virtude característica do sexo masculino, mas depois vai ter à perna umas quantas feministas ululantes, valha a redundância.
3 – Quais são as qualidades preferidas numa mulher? Idem, aspas. Se for casado, é obrigatório responder que as qualidades que prefere são as que tem a sua mulher. Se já teve várias e, como a samaritana, a que agora tem não é sua (Jo 4, 16-18), esclareça que é a esta que se refere, ou então comece já à procura de uma nova parceira.
4 – Qual é a sua principal característica? Aproveite a oportunidade para se autoelogiar, mas discretamente, como quem não quer a coisa. Acrescente uma pitada de vitimismo, que fica sempre bem. Diga, por exemplo, que a sua principal característica é ser muito sincero e, por isso, já perdeu muitos amigos e oportunidades na vida.
5 – O que aprecia mais nos seus amigos? Como é óbvio, que sejam seus amigos pois, em caso contrário, seriam seus inimigos. Escusa de os enaltecer, mas pode aproveitar para dizer que aprecia neles o bom gosto e a exigência com que escolhem os seus amigos e assim também se elogia a si próprio, o que o seu ‘ego’ agradece.
6 – Qual é o seu principal defeito? É óbvio que não tem nenhum e que, mesmo que o tivesse, o não iria revelar, mas, como fica mal dizê-lo publicamente, invente o excesso de uma qualquer virtude como, por exemplo, a sua compaixão pelos que sofrem, ou a sua extrema credulidade para quem, afinal, não merece a sua confiança.
7 – Qual a sua ocupação favorita? Todos sabemos que é não fazer nada, mas, como não o pode dizer, invente uma ocupação que lhe dê um certo verniz intelectual, dizendo, por exemplo, que gosta muito de ler ensaios de física quântica, ir a concertos de música clássica, ou ver exposições de arte contemporânea.
8 – Qual é a sua ideia de felicidade? Não seja narcisista ao ponto de afirmar alguma coisa pessoal, mas diga que seria feliz se vivesse numa sociedade em que todos se respeitassem e procurassem o bem comum. Para efeitos de opinião pública, fica-lhe bem essa imagem de cidadão honrado, com profundas preocupações sociais.
9 – Qual é a sua ideia de miséria? É óbvio que é a manha do seu colega que ocupou o lugar que tanto ambicionava, mas não o diga, para não parecer invejoso, nem ressentido. Mas aproveite a ocasião para lhe dedicar uma subtil indirecta, dizendo que detesta o chico-espertismo dos que progridem na vida à custa de cunhas.
10 – Se não fosse quem é, quem gostaria de ser? A pergunta é ridícula, até porque pressupõe que possa existir alguém melhor no mundo, o que é, decerto, uma impossibilidade metafísica. Mas, para não pecar por excesso de modéstia, escolha alguém com reconhecimento público garantido: Martin Luther King, Nelson Mandela, ou, se for mulher, Florence Nightingale, ou a Madame Curie. Não escolha nenhum santo – como Santa Teresa de Calcutá, ou São João Paulo II –, pois poderia parecer que a sua religiosidade o tornou uma pessoa sectária, eventualmente fundamentalista.
11 – Onde gostaria de viver? O desapego e desprendimento em relação aos bens materiais é essencial ao homem virtuoso e, portanto, em vez de referir a casa dos seus sonhos, diga que o que realmente o preocupa é a falta de alojamento de tantas famílias que vivem em difíceis condições.
12 – Qual é a sua cor e flor favorita? Aqui há poucas hipóteses de se espalhar ao comprido, mas cuidado com as especificidades cromáticas dos principais clubes de futebol: verde é Sporting, encarnado é Benfica, e azul é Porto. Por isso, seja impreciso e galante, o que fica sempre bem, dizendo, por hipótese, que a cor preferida é a dos olhos da pessoa que mais ama, ou que a flor predilecta é a do bouquet que logo à noite vai oferecer a essa pessoa, mas que, como é surpresa, não pode revelar. (So charming!)
13 – Quais são os seus autores de prosa favoritos? É óbvio que nunca leu nenhum romance digno desse nome, mas não pode exibir a sua vergonhosa iliteracia. Portanto, pesquise quem foi o último Prémio Nobel cuja obra já foi traduzida para português e cite-o com à-vontade, como se o conhecesse de toda a vida. Se quiser favorecer a produção nacional, fica sempre bem referir Lobo Antunes, Saramago, ou Sophia, que deve tratar assim, pelo nome próprio e com um glamoroso erro de ‘ortographia’.
14 – Quais são os seus poetas preferidos? Finja que são tantos que tem, de facto, grande dificuldade em escolher alguns, apesar de ter ficado a detestar poesia desde que, no liceu, foi obrigado a dissecar, com o rigor de um médico legista, Os Lusíadas, em que, por certo, não foi além da Taprobana. Se quiser citar poetas portugueses, Herberto Helder e Ana Hatherly podem servir para o efeito.
15 – Quais são os seus heróis favoritos na ficção? Se ainda é o Super-Homem, o Noddy ou o Homem-Aranha, não os refira, sob pena de ficar para sempre refém da sua infantilidade. Portanto, faça o favor de recorrer a exemplos clássicos, como o Ulisses, agora muito de moda, ou o Sancho Pança, cuja ruralidade e bom-senso lhe dão uma muito politicamente correcta patine de homem simples e desprovido de ambições.
16 – Quais são as suas heroínas favoritas na ficção? Tem duas hipóteses: citar as mulheres mais importantes da sua vida – mãe, avós, etc. – ou fazer um elogio às mulheres trabalhadoras, operárias, camponesas, etc. Se for casado, não cite nenhuma heroína, nem mesmo de ficção, para não correr o risco de a sua cara-metade o submeter a um interrogatório pidesco sobre as qualidades que essa heroína tem e ela não.
17 – Quais são os seus compositores e pintores preferidos? Atenção: se disser Wagner, volta à casa de início no tabuleiro da Glória, não do jogo, mas da vida, porque é um compositor maldito, que inspirou a Hitler os seus excessos belicistas e imperialistas. Não caia também na vulgaridade de citar os Abba, ou os Beatles, pois podem confundi-lo, respectivamente, pelo responsável pela música ambiente de uma grande superfície, ou alguém que foi jovem há 50 anos atrás. A produção nacional é escassa, portanto opte por artistas estrangeiros, que favoreçam a sua imagem de cidadão do mundo.
Post scriptum. Até aqui, as preciosas ‘dicas’ do Cónego Jeremias, para quem tiver a infelicidade de ser entrevistado neste Verão. Sejam quais forem as suas respostas, o mais certo é que nada tenham a ver com a realidade e, por isso, não se esqueça de depois se ir confessar porque, afinal, mentir é pecado.