(c) 2023 am|dev

(A) :: O cónego Jeremias e o questionário de Proust

O cónego Jeremias e o questionário de Proust

Aproveite a oportunidade para se autoelogiar, mas discretamente, com uma pitada de vitimismo, que fica sempre bem.

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
text

No Verão, fatais como os incêndios são as entrevistas de vida. Se tiver a desgraça de ser interrogado, não se esqueça de que o importante não é ser, mas parecer. Para este efeito, siga os preciosos conselhos do Cónego Jeremias, que aqui lhe dá uma dica para cada pergunta do tradicional questionário de Proust.

1 – Qual a sua virtude preferida? Diga sempre que todas, mas que o seu forte é, como é óbvio, a humildade. Livre-se de dizer que o que o caracteriza é a frontalidade, eufemismo sinónimo de brutalidade, ou que é muito rebelde, ou seja, um selvagem que anda à solta.

2 – Quais são as qualidades preferidas num homem? Se quiser ser politicamente correcto, responda que as mesmas que mais aprecia numa mulher e poderá avançar cinco casas no jogo da (vã) Glória, que é o jogo da vida. Se não quiser ser politicamente correcto, pode dizer uma virtude característica do sexo masculino, mas depois vai ter à perna umas quantas feministas ululantes, valha a redundância.

3 – Quais são as qualidades preferidas numa mulher? Idem, aspas. Se for casado, é obrigatório responder que as qualidades que prefere são as que tem a sua mulher. Se já teve várias e, como a samaritana, a que agora tem não é sua (Jo 4, 16-18), esclareça que é a esta que se refere, ou então comece já à procura de uma nova parceira.

4 – Qual é a sua principal característica? Aproveite a oportunidade para se autoelogiar, mas discretamente, como quem não quer a coisa. Acrescente uma pitada de vitimismo, que fica sempre bem. Diga, por exemplo, que a sua principal característica é ser muito sincero e, por isso, já perdeu muitos amigos e oportunidades na vida.

5 – O que aprecia mais nos seus amigos? Como é óbvio, que sejam seus amigos pois, em caso contrário, seriam seus inimigos. Escusa de os enaltecer, mas pode aproveitar para dizer que aprecia neles o bom gosto e a exigência com que escolhem os seus amigos e assim também se elogia a si próprio, o que o seu ‘ego’ agradece.

6 – Qual é o seu principal defeito? É óbvio que não tem nenhum e que, mesmo que o tivesse, o não iria revelar, mas, como fica mal dizê-lo publicamente, invente o excesso de uma qualquer virtude como, por exemplo, a sua compaixão pelos que sofrem, ou a sua extrema credulidade para quem, afinal, não merece a sua confiança.

7 – Qual a sua ocupação favorita? Todos sabemos que é não fazer nada, mas, como não o pode dizer, invente uma ocupação que lhe dê um certo verniz intelectual, dizendo, por exemplo, que gosta muito de ler ensaios de física quântica, ir a concertos de música clássica, ou ver exposições de arte contemporânea.

8 – Qual é a sua ideia de felicidade? Não seja narcisista ao ponto de afirmar alguma coisa pessoal, mas diga que seria feliz se vivesse numa sociedade em que todos se respeitassem e procurassem o bem comum. Para efeitos de opinião pública, fica-lhe bem essa imagem de cidadão honrado, com profundas preocupações sociais.

9 – Qual é a sua ideia de miséria? É óbvio que é a manha do seu colega que ocupou o lugar que tanto ambicionava, mas não o diga, para não parecer invejoso, nem ressentido. Mas aproveite a ocasião para lhe dedicar uma subtil indirecta, dizendo que detesta o chico-espertismo dos que progridem na vida à custa de cunhas.

10 – Se não fosse quem é, quem gostaria de ser? A pergunta é ridícula, até porque pressupõe que possa existir alguém melhor no mundo, o que é, decerto, uma impossibilidade metafísica. Mas, para não pecar por excesso de modéstia, escolha alguém com reconhecimento público garantido: Martin Luther King, Nelson Mandela, ou, se for mulher, Florence Nightingale, ou a Madame Curie. Não escolha nenhum santo – como Santa Teresa de Calcutá, ou São João Paulo II –, pois poderia parecer que a sua religiosidade o tornou uma pessoa sectária, eventualmente fundamentalista.

11 – Onde gostaria de viver? O desapego e desprendimento em relação aos bens materiais é essencial ao homem virtuoso e, portanto, em vez de referir a casa dos seus sonhos, diga que o que realmente o preocupa é a falta de alojamento de tantas famílias que vivem em difíceis condições.

12 – Qual é a sua cor e flor favorita? Aqui há poucas hipóteses de se espalhar ao comprido, mas cuidado com as especificidades cromáticas dos principais clubes de futebol: verde é Sporting, encarnado é Benfica, e azul é Porto. Por isso, seja impreciso e galante, o que fica sempre bem, dizendo, por hipótese, que a cor preferida é a dos olhos da pessoa que mais ama, ou que a flor predilecta é a do bouquet que logo à noite vai oferecer a essa pessoa, mas que, como é surpresa, não pode revelar. (So charming!)

13 – Quais são os seus autores de prosa favoritos? É óbvio que nunca leu nenhum romance digno desse nome, mas não pode exibir a sua vergonhosa iliteracia. Portanto, pesquise quem foi o último Prémio Nobel cuja obra já foi traduzida para português e cite-o com à-vontade, como se o conhecesse de toda a vida. Se quiser favorecer a produção nacional, fica sempre bem referir Lobo Antunes, Saramago, ou Sophia, que deve tratar assim, pelo nome próprio e com um glamoroso erro de ‘ortographia’.

14 – Quais são os seus poetas preferidos? Finja que são tantos que tem, de facto, grande dificuldade em escolher alguns, apesar de ter ficado a detestar poesia desde que, no liceu, foi obrigado a dissecar, com o rigor de um médico legista, Os Lusíadas, em que, por certo, não foi além da Taprobana. Se quiser citar poetas portugueses, Herberto Helder e Ana Hatherly podem servir para o efeito.

15 – Quais são os seus heróis favoritos na ficção? Se ainda é o Super-Homem, o Noddy ou o Homem-Aranha, não os refira, sob pena de ficar para sempre refém da sua infantilidade. Portanto, faça o favor de recorrer a exemplos clássicos, como o Ulisses, agora muito de moda, ou o Sancho Pança, cuja ruralidade e bom-senso lhe dão uma muito politicamente correcta patine de homem simples e desprovido de ambições.

16 – Quais são as suas heroínas favoritas na ficção? Tem duas hipóteses: citar as mulheres mais importantes da sua vida – mãe, avós, etc. – ou fazer um elogio às mulheres trabalhadoras, operárias, camponesas, etc. Se for casado, não cite nenhuma heroína, nem mesmo de ficção, para não correr o risco de a sua cara-metade o submeter a um interrogatório pidesco sobre as qualidades que essa heroína tem e ela não.

17 – Quais são os seus compositores e pintores preferidos? Atenção: se disser Wagner, volta à casa de início no tabuleiro da Glória, não do jogo, mas da vida, porque é um compositor maldito, que inspirou a Hitler os seus excessos belicistas e imperialistas. Não caia também na vulgaridade de citar os Abba, ou os Beatles, pois podem confundi-lo, respectivamente, pelo responsável pela música ambiente de uma grande superfície, ou alguém que foi jovem há 50 anos atrás. A produção nacional é escassa, portanto opte por artistas estrangeiros, que favoreçam a sua imagem de cidadão do mundo.

Post scriptum. Até aqui, as preciosas ‘dicas’ do Cónego Jeremias, para quem tiver a infelicidade de ser entrevistado neste Verão. Sejam quais forem as suas respostas, o mais certo é que nada tenham a ver com a realidade e, por isso, não se esqueça de depois se ir confessar porque, afinal, mentir é pecado.