Hugo Soares e Luís Montenegro, com as respetivas famílias nas toalhas, vão até à beira-mar e conversam durante largos minutos, na praia do Garrão, no Algarve. A imagem repete-se há anos, mas é mais uma prova de que o inner circle político de Montenegro é, na verdade, uma dupla. “A pergunta é: algum ministro podia estar ali com o primeiro-ministro? A resposta é: não”, regista um dirigente do PSD ao Observador. Luís Montenegro não toma nenhuma decisão importante sem ouvir o amigo e líder parlamentar e, apesar de serem muito diferentes (“são como irmãos, mas não siameses“, regista outro dirigente), as declarações de Hugo Soares permitem, muitas vezes, antecipar o que vai decidir um mais silencioso Luís Montenegro.
Percebeu-se, por exemplo, que Luís Montenegro não ia deixar cair Luís Neves quando saíram as notícias mais sensíveis e Hugo Soares saiu em defesa do ministro, destacando a sua “grande seriedade” e “grande credibilidade”. Para os que esperam uma remodelação governamental no fim do verão, podem ler nas cartas (as declarações do secretário-geral do PSD), que a ideia do primeiro-ministro continua a ser aguentar o máximo que puder a atual composição governativa. “Quando chegarmos a setembro teremos provavelmente o mesmo elenco governativo”, vaticinou Soares. O “provavelmente”, porém, dá margem para que, se for necessário, a mudança ocorra.
Hugo Soares terá esta segunda-feira a sua própria rentrée política, com a abertura, como habitual, da Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide, que será encerrada depois pelo líder do partido. Se há um ano atacou uma comissão de inquérito proposta pelo Chega aos incêndios rurais, agora terá de começar a preparar-se para o embate do inquérito à atuação de Luís Neves na Polícia Judiciária.
O líder parlamentar e secretário-geral é o número dois do partido e do Governo, precisamente pela influência que tem e por aquilo que Montenegro nele delega. O próprio Hugo Soares nega sempre essas referências e ao Observador responde de forma institucional: “É claro que o número dois do Partido é a Leonor Beleza e do Governo o Paulo Rangel.” O secretário-geral do PSD lembra ainda que Montenegro é “e bem” um “institucionalista”, logo são eles, de facto, os números dois. Mas isso é do ponto de vista formal, a prática é bem diferente.
O poderoso número dois do partido, que tanto dá colinho como ralhetes
No feudo parlamentar ninguém contesta a liderança terrena de Hugo Soares. No partido idem. E, no Governo, mesmo tendo decidido não ir para o Executivo, o antigo líder da JSD é uma espécie de ministro sem pasta ou décimo oitavo ministro. Apesar do papel de coordenação de António Leitão Amaro e da centralidade que assume na gestão do Governo, o ministro da Presidência não tem nem uma proximidade nem uma influência — como aliás o Observador já escreveu — tão próxima junto do primeiro-ministro como tem o secretário-geral do PSD.
O facto de não ter nenhuma pasta coloca, precisamente, Hugo Soares acima dos ministros. No dia em que Montenegro decidiu dar um murro na mesa e desafiar a oposição a apresentar uma moção de censura (e admitir uma moção de confiança), a 1 de março de 2025, Luís Montenegro almoçou com Hugo Soares no restaurante Via 14, em Sacavém, para ultimar a estratégia. Era para ter sido no restaurante Maçã Verde — o favorito de ambos quando lhes apetece secretos — mas estava fechado. Só depois da refeição com o amigo e secretário-geral é que o primeiro-ministro ouviu os ministros. E com o Presidente da República nem falou. O processo terminaria com novas eleições.
Hugo Soares, explica um observador privilegiado da dinâmica de ambos, faz de “ama seca dos ministros”. O secretário-geral do PSD, explica a mesma fonte, “leva-os a almoçar ou a jantar”: “Como o primeiro-ministro, apesar de ser acessível, cultiva uma maior distância pessoal e institucional, é o Hugo que dá o colinho. Tem o papel do calor humano”.
Na bancada parlamentar a influência ainda é maior. O grupo funciona como uma espécie de região autónoma em que o presidente é Hugo Soares. Luís Montenegro, que o escolheu como sucessor há nove anos para essa função, confia plenamente na intuição política do líder parlamentar para gerir a bancada. Se Hugo Soares disse um dia que Rio não precisava de “fazer dele um Cristo” (já lá iremos a essa história), é certo que é através dele que os deputados fazem chegar a mensagem a Deus (Montenegro).
Decisões sobre quem vai às televisões, rádios, quem representa a bancada sobre determinado tema têm uma regra clara: o Hugo decide. Há coordenadores das áreas e, por norma, o indicado é a pessoa mais preparada sobre determinado assunto, mas o líder parlamentar tem poder de veto. Principalmente em momentos sensíveis ou de crise iminente. Quando o líder parlamentar dá ordem para os deputados não falarem com os jornalistas, já todos aprenderam, alguns da pior forma, que não vale a pena contrariar. Já aconteceu os deputados aceitarem convites para entrevistas a órgãos de comunicação à revelia de Hugo Soares e depois tiveram de passar pela humilhação de declinar os convites antes de entrar para o ar com a justificação que não tinham “autorização” para intervir.
Apesar do estilo de liderança impositivo, os deputados — bem como todos os funcionários do grupo parlamentar — respeitam e têm genericamente uma boa relação com Hugo Soares. “É um bom gigante“, diz um deputado do PSD ao Observador. “Tem aquele estilo combativo, mas tem um bom coração”, sintetiza outro. “É duro, mas é frontal. Diz: ‘Isso não pode ser’. E a partir daí, está passada a mensagem”, arrisca outro. Também há os deputados que, por vezes, se sentem secundarizados ou preteridos nas escolhas do chefe, mas isso fica para a boca-pequena. Contam-se pelos dedos das mãos os que ousam criticar, mesmo em circuito fechado, Hugo Soares.

No terceiro vértice, o partido, Hugo Soares também é um secretário-geral incontestado. Quando há um diferendo sério, é ele que intervém, poupando Luís Montenegro de questões de lana caprina. Também poupa o líder do partido a conversas mais desagradáveis com o aparelho. Quando as estruturas começam a exigir cargos em centros hospitalares ou na segurança social também é ele que dá as negas (quando existem, claro). Também é ele que valida as escolhas.
Apesar de ser o homem dos sete ofícios, delegou algumas áreas para ter mais tempo. Hugo Soares acaba por beneficiar de ter dois secretários-adjuntos que lhe resolvem muitos problemas. Ricardo Carvalho trata de forma exímia das contas, além de assumir, com grande sucesso, as funções do PSD junto do PPE. Trata tu-cá-tu-lá alguns líderes europeus (como Alberto Núñez Feijóo) e foi fundamental na visita de Von der Leyen ao Porto nas europeias de 2024. E depois há Paulo Cavaleiro que trata de tudo quanto são as questões operacionais do terreno. A eficácia de Carvalho (uma espécie de CFO e homem do partido na Europa) e Cavaleiro (uma espécie de COO) permite a Hugo Soares ter mais tempo para aquilo onde é mais preciso: o combate político.

Hugo Soares tem uma força no aparelho que um secretário-geral do PSD não tinha desde Miguel Relvas (quer no tempo de Barroso, quer depois no primeiro ano de Passos). No tempo de Rio, José Silvano chegava a ter menos influência que Salvador Malheiro. Matos Rosa nunca teve o poder que Hugo Soares agora tem, uma vez que primeiro Relvas, depois Jorge Moreira da Silva e, acima de tudo, Marco António Costa assumiam o controlo do aparelho. Relvas e o atual secretário-geral são muito diferentes, mas têm em comum terem a confiança total dos líderes no momento em que assumem funções (isso não acontecia com Arnaut ou Rio com Marcelo, por exemplo). Hugo é mesmo o todo-poderoso no partido. Como comentou um ex-líder do PSD com o Observador perto do penúltimo Congresso, “o Hugo agora é o homem que manda naquilo [PSD] tudo“.
As diferenças de estilo e um ‘bromance’ que começou com uma boleia
Montenegro é mais tímido, Soares mais extrovertido. Montenegro é mais disciplinado e organizado, Hugo Soares é mais intuitivo e reativo. Um é mais palavroso, outro mais vocal. Mas, como diz uma fonte da AD ao Observador, “complementam-se”. Hugo iniciou o percurso via jota, Montenegro entrou diretamente para o PSD. Excluindo as disputas em Espinho e Aveiro e o início da subida com Miguel Macedo, os grandes momentos da vida política de Luís Montenegro, os bons e os maus, foram sempre ao lado de Hugo Soares.
Os dois conhecem-se há 15 anos. Hugo Soares chega ao Parlamento após a vitória de Passos, em 2011, na mesma legislatura em que Luís Montenegro é eleito líder parlamentar. O advogado de Espinho já tinha ouvido falar de Hugo Soares através de Miguel Macedo, que inicialmente era o denominador comum entre aqueles dois advogados desconhecidos. O antigo secretário-geral e ex-ministro do PSD foi uma espécie de padrinho político de Hugo e foi também ele que promoveu Montenegro a vice-presidente da bancada parlamentar.
Em pleno período da troika, Montenegro achou piada à pinta do jovem de Braga, que estava perto de substituir Duarte Marques na liderança da JSD. Há uma segunda-feira, logo na fase inicial da legislatura, que Luís Montenegro liga a Hugo Soares a pedir-lhe boleia. Pergunta-lhe se não podia passar por Espinho a caminho de Lisboa. O jovem de Braga tinha afazeres e só ponderava descer na terça, mas não podia declinar a abordagem do chefe. “O líder do partido queria ir de boleia comigo, senti-me orgulhoso”, chegou a confessar ao Observador. A viagem mudaria a vida de ambos. Tiveram uma química total até porque — como é descrito no livro Na Cabeça de Montenegro (da autoria do Editor-adjunto de política do Observador, Miguel Carrapatoso) — tenham “falado de tudo menos de política”. A partir daí, tornaram-se inseparáveis. Era o início de um ‘bromance’. De profunda amizade. E, claro, de compatibilidade política. Dois anos depois, em 2013, é Montenegro a fazer o que Miguel Macedo tinha feito com ele: puxa-o para vice-presidente da bancada parlamentar.
As famílias tornaram-se próximas. Os filhos de Montenegro chamam “tio” a Hugo Soares — e não é por serem betos. Um dos filhos de Hugo Soares chama-se Diogo por causa do primo emprestado Diogo, segundo filho de Montenegro. Durante a campanha das legislativas de 2024, Luís Montenegro parabenizou mesmo a mulher do amigo a partir do púlpito durante um comício: “Beijinho especial à mulher do Hugo Soares, à Patrícia.” Sobre a proximidade da família Soares e a família Montenegro, dispensam-se mais caracteres.
Mas voltemos à compatibilidade e aos caminhos comuns na política. Durante todo o período da troika, no fim de algumas sessões legislativas, Luís Montenegro realizava jantares com os jornalistas que acompanhavam os trabalhos parlamentares. Além de dois assessores (Ana Cristina Gaspar e Zeca Mendonça), só levava uma pessoa com ele: o vice-presidente Hugo Soares. No verão de 2017, Montenegro decide prosseguir com a sua vida profissional fora do Parlamento. Mas mostra a sua força, articulado com Passos Coelho, quando consegue impor como seu sucessor Hugo Soares, que mantém toda a equipa, e é eleito com 85,4% dos votos. Antes disso, ainda há uma tentativa de desafio, por parte de uma deputada sem qualquer relevância, Manuela Tender (atualmente deputada do Chega), que não tem êxito na procura de alternativa a Hugo Soares.
Luís Montenegro estava de saída do Parlamento e convida os jornalistas para um novo jantar no sítio do costume, o Café In, em Lisboa. O jantar decorreu descontraído, desta vez sem Hugo Soares ao lado, e só na parte final acaba por falar sobre ambições futuras de liderança. Diria uma frase que repetiria muitas vezes mais tarde: “No dia em que for para avançar, não pedirei autorização a ninguém“. Sabia que lá chegaria e com quem (Hugo Soares), só não sabia quando.
Na alegria e na tristeza. O veto de Rio que foi uma “medalha”
Mas primeiro era preciso sair para ganhar fôlego. E marcar distâncias para o então líder. Até porque tinha quase Montenegro escrito na testa, pelo alinhamento que ambos mostravam. É por isso que, quando é informado da decisão de Passos, após as autárquicas de 2017, de abandonar a liderança do PSD, Luís Montenegro decide não avançar. No Conselho Nacional desse dia, 3 de outubro, o não avanço é selado num almoço a dois entre Hugo Soares e Luís Montenegro no restaurante Último Porto, em Lisboa.

Rui Rio ganha a Santana e Hugo Soares, com o rótulo de montenegrista, nunca tem a confiança da nova direção. Nem quer. Nem faz por isso. Ainda com uma bancada escolhida por Passos, Hugo Soares orquestra a primeira maldade à nova direção, que indica Fernando Negrão para líder parlamentar. Enquanto decorre a eleição de Negrão na sala do grupo parlamentar, Hugo Soares passeia-se divertido pelos corredores e faz sorrisos comprometidos para os jornalistas que aguardam resultados à porta dos sofás junto à sala do PSD. E ainda ironiza: “Tenho a certeza que o doutor Fernando Negrão vai ter uma grande vitória”. A vitória nesse dia seria de Hugo Soares: Negrão era eleito por ser o único candidato, mas teria mais votos contrários à sua eleição (53 entre brancos e nulos) do que a favor (apenas 35).
Quando Luís Montenegro decide desafiar a liderança de Rui Rio em janeiro de 2019, com um Conselho Nacional extraordinário, o homem de Espinho faz, antes disso, um ultimato ao líder do PSD para que convoque eleições no Centro Cultural de Belém. Mais uma vez, só há dois políticos na sala: o autarca de Espinho Joaquim Pinto Moreira (de quem entretanto se afastou) e Hugo Soares. Não foi Montenegro, mas Hugo Soares que fez a esmagadora maioria das chamadas para tentar virar o Conselho Nacional a favor do que seria o “impeachment” de Rio. Também foi ele os olhos, os ouvidos e a voz de Montenegro dentro do órgão máximo entre Congressos. Montenegro nem sequer foi ao Hotel Porto Palácio, onde se realizou a reunião.

Seguem-se então as legislativas e — apesar de ser escolhido pela concelhia de Braga e, em condições normais, integrar os lugares cimeiros do círculo daquele distrito — o nome de Hugo Soares é pessoalmente riscado por Rio. O secretário-geral José Silvano confirma no Conselho Nacional que o ex-líder parlamentar foi o “único vetado” pelo presidente do PSD. Hugo Soares disse na cara de Rio que ele não gostava do partido e que não respeitava as estruturas. Rio responde-lhe a apelar a que canalizasse a “raiva” que tinha contra o PSD para o PS. Aos jornalistas, Hugo Soares assumia-se como o mártir que voltaria mais tarde com a boa nova: “Carrego com orgulho essa medalha ao peito porque é um veto cheio de futuro”.

As legislativas não foram brilhantes para Rio, que perdeu para Costa, e Hugo e Luís puseram-se no terreno para uma candidatura ao PSD. Agora sim. Mais uma vez, Hugo Soares foi o grande negociador, apesar de Luís Montenegro também fazer muitas chamadas e encontros com apoiantes. A primeira volta foi traumática. Os dois estavam perfeitamente convencidos de que a esmagadora maioria do partido odiava Rio, mas o incumbente vence e volta a repetir a vitória da segunda volta. É um balde de água fria para a dupla Hugo e Luís. A “malta do Montenegro”, como lhe chamavam os rioistas, é remetida à hibernação até que os ventos fossem mais favoráveis.
Passam dois anos, quase todos em pandemia, e no verão de 2021, Paulo Rangel consegue tomar conta do aparelho. Hugo Soares e Luís Montenegro, entretidos que andavam a ganhar dinheiro na vida profissional, nem tentam contrariar o ímpeto. Como anti-rioistas acabam por ter abordagens tímidas no apoio ao opositor do líder, Paulo Rangel. Luís Montenegro decide não ir a jogo e critica Rio, mas não apoia Rangel. Quem o faz é Hugo Soares que, numa entrevista ao programa Vichyssoise, da Rádio Observador diz estar de “corpo e alma” com Paulo Rangel. Não estava. E até se arrependeria de utilizar uma expressão tão convicta. Até porque, tanto ele, como Montenegro, sabiam que havia uma janela de oportunidade: ou se corresse mal a Rio, ou se corresse mal a Rangel.
Ir a um estúdio da Rádio Observador, que temporariamente funcionava num rés-de-chão na Amadora por razão de obras nos estúdios principais, foi o máximo que o ex-líder parlamentar se esforçou por Rangel no outono de 2021. Hugo Soares, apesar de ter rede e influência, não mexeu uma palha a favor do que hoje diz ser o número dois do Governo. Rangel perde na concelhia de Braga e também não ganha em Famalicão, onde Paulo Cunha, mais tarde peça-chave para Montenegro, decide não apoiar Rangel (apesar de ser anti-Rio). Rio acaba por vencer, outra vez contra as expectativas. Na noite eleitoral das diretas, na sede improvisada de Rangel, o Hotel Sana Malhoa, desconfiava-se do dedo da dupla Soares-Montenegro em alguns resultados.
Com legislativas antecipadas à porta, Hugo Soares e Luís Montenegro gerem o Congresso — que consagra a segunda reeleição de Rio — de forma inteligente. Conciliatória. Fica mais ou menos claro para todos que, se corresse mal ao incumbente, o caminho ficaria livre para Montenegro. Foi isso que aconteceu. Montenegro seria eleito líder do PSD. Todo o processo de fechar apoios, negociar cargos e outras abordagens ficou para Hugo Soares. É assim nas diretas, será assim no Congresso. Mais uma vez, Montenegro também faz chamadas e também faz contactos, mas boa parte do trabalho é feita por Hugo Soares. A escolha do agora já menos jovem de Braga para secretário-geral é óbvia para todos.
A história repete-se e uma boleia volta a juntá-los. No dia das buscas a São Bento, que culminará com a demissão de António Costa, por um conjunto de circunstâncias, Hugo Soares volta a dar boleia a Luís Montenegro de Espinho para Lisboa. Assistem juntos, já na casa de Montenegro na capital, à declaração de demissão de Costa. Outra história contada no livro Na Cabeça de Montenegro é que Hugo Soares filma a reação de Montenegro à demissão de Costa em vídeo por achar que podia ser útil para um futuro documentário. Os dois não tinham grandes dúvidas de que, a partir dali, estava aberto o caminho para Montenegro fazer parte da história do País.
Hugo Soares foi, sem surpresa, uma figura central na definição da estratégia da campanha eleitoral de 2024. Depois de vencerem as eleições, Hugo Soares decidiu, em conjunto com Luís Montenegro, não integrar o Governo. O mesmo se repetiu nas legislativas de 2025. Acordaram que seria mais necessário a segurar o partido e a bancada parlamentar. Apesar do comentariado ter apontado várias vezes o ex-líder da JSD ao Governo isso não aconteceu e, até agora, têm concordado que é mais útil manter-se nessas funções duplas.
Ao contrário do que muitos desconfiam no partido, o Governo não os afastou, ainda os aproximou mais. Hugo Soares sentiu o caso Spinumviva como um ataque a si próprio. São família. E quem ataca um, ataca o outro. O caso Spinumviva mostrou também que os círculos profissionais de ambos se cruzam. Uma das funcionárias da Spinumviva, por exemplo, é mulher do ex-sócio de Hugo Soares (hoje presidente da câmara de Braga). O sogro de João Rodrigues, por sua vez, é o dono da gasolineira que fez um dos contratos mais chorudos com a Spinumviva. Ficou ainda mais claro para todos que são mais do que amigos. E não é só pelos mergulhos no Garrão.
O passado de líder (conservador) da JSD e o futuro no PSD
Hugo Soares sempre se fez notar e, estranhamente, não foi por ter uma altura próxima dos 1,90m. A estatura física mete respeito, mas sempre foi muito mais intrépido e ousado na linguagem. Também há excessos e momentos de truculência. Pode meter o ar mais cândido a dizer que não era a sua intenção, mas quando disse a Pedro Santos Frazão que lhe daria a morada de casa poucos acreditaram — como diria Seguro — que fosse para tomar chá.
Logo quando se candidatou à liderança da JSD, em 2012, tinha um programa adulto, numa moção que podia, na sua maior parte, ser de uma candidatura à liderança do partido-mãe. Desde logo, depois do projeto frustrado de Passos com Paulo Mota Pinto dois anos antes, Hugo Soares insistia na revisão da Constituição: “Cabe à nossa geração dizer de uma vez por todas, que a Constituição que nos fez chegar aqui, a constituição dos nossos pais, falhou”. E acrescentava: “Não podemos mais ter um texto constitucional com uma carga ideológica com que os portugueses já não se identificam”. Os outros partidos podem tirar notas daqueles tempos para a revisão que aí vem.
Depois, num tema também atual, Hugo Soares mostrava-se preocupado com a sustentabilidade da Segurança Social, defendendo um teto para as pensões. “Se nada mudar, a minha geração não terá direito a qualquer reforma. Queremos repensar o sistema de remunerações da Segurança Social e impor tetos às pensões e à acumulação de pensões”, dizia o então jovem líder da JSD.
Em tempos em que já se desconfiava de alguns atos do ex-primeiro-ministro José Sócrates durante a governação, Hugo Soares defendia um “profundo debate sobre a criminalização dos atos políticos: precisamos encontrar um texto legislativo que criminalize todos os atos políticos que se venham a demonstrar ruinosos para o país, seja a título de dolo ou negligência grosseira”.
Mas Hugo Soares passa para a ribalta com uma proposta que rompe com um histórico de os líderes da JSD serem tradicionalmente mais progressistas que o partido-mãe. Apoiado por Luís Montenegro e Passos Coelho, o líder da JSD propõe a realização de um referendo sobre a adoção e coadoção por casais do mesmo sexo já depois de o Parlamento ter aprovado um diploma que a permitia na generalidade. A proposta de Hugo Soares foi viabilizada pelo PSD, mas o Tribunal Constitucional travou o referendo ao considerá-lo inconstitucional. Mas o jovem de Braga tinha palco mediático e ganhara também o rótulo de conservador.
É preciso dizer que esse lado mais conservador — que também era atribuído a Luís Montenegro — esbateu-se ou desapareceu mesmo desde que assumiram a liderança do PSD e, ainda mais, desde que o PSD é Governo. O que, aliás, por vezes irrita o deputado Bruno Vitorino e outros da ala passista que queriam uma maior defesa dos valores tradicionais e, por exemplo, um maior ataque à chamada “ideologia de género”.
Pode até nem aparecer na lista d’Os Mais Poderosos do Jornal de Negócios, mas Hugo Soares é claramente um dos homens com mais poder não apenas no PSD, mas no País. É inegável a influência que tem na governação. A rede e as ligações que inevitavelmente vai criando nos dois cargos que ocupa (secretário-geral e líder parlamentar), mais a influência que tem (por ser o principal conselheiro e ouvinte do primeiro-ministro) dão-lhe um poder que poucos têm.

Hugo Soares é, por isso, um dos nomes naturais para a sucessão de Montenegro. É certo que a história diz que deve haver uma quebra com o líder anterior e Hugo seria sempre uma continuidade de Luís — uma sucessão quase dinástica. Mas tudo depende da conjuntura. Se Montenegro sai da liderança em primeiro, em segundo ou em terceiro. Se daqui a dois anos ou daqui a dez. Tudo isso ajudará também a definir o futuro político de Hugo Soares. Se, na altura, Hugo Soares já terá sido ministro por ser inevitável integrar o Executivo. Mas uma coisa é certa: quanto mais sucesso tiver Luís Montenegro, mais sucesso terá Hugo Soares. Na decisão, os dois estarão sempre lado a lado. Até porque muitas vezes, como mostram os exemplos aqui descritos, a solução ou a resposta emana de uma conversa dos dois. Apesar da fraternidade genuína que os une e da maior assertividade de Hugo, não há, porém, dúvidas de quem toma a decisão final.