Se a suspeição já pairava entre os corredores do meio académico em 2023, foi Nathan Cofnas quem a fez agigantar-se. Agora, o académico que acusou de plágio Jason Arday, o professor negro encontrado morto na sexta-feira passada, foi suspenso pela Universidade belga de Ghent enquanto decorre uma investigação disciplinar preliminar.
Cofnas acusou-o em julho deste ano de plágio, tendo ainda levantado dúvidas sobre o seu percurso académico. Semanas de escrutínio mediático levaram-no depois a deixar a prestigiada Universidade de Cambridge. E, dias mais tarde, a 14 de agosto, foi encontrado morto.
“Acabei de ser suspenso pela Universidade de Ghent. É quase certo que me vão despedir. A decisão foi tomada pela reitora Petra De Sutter, uma antiga líder do Partido Verde”, escreveu o académico e blogger Nathan Cofnas, um assumido “americano anti-woke” no X.
https://twitter.com/nathancofnas/status/2090416033072861245
Numa publicação anterior, na mesma rede social, Cofnas divulga o comunicado conjunto assinado pelo reitor e vice-reitor da Universidade de Ghent. A instituição, que pretende ser “clara sobre os valores que mantém”, afirma estar “chocada” com a morte do académico e que o ocorrido “deveria levar à reflexão”.
“Atribuímos grande importância à liberdade académica e ao debate académico aberto, mesmo quando as opiniões são controversas. No entanto, essa liberdade não é ilimitada“, consta ainda do comunicado.
https://observador.pt/2026/08/11/demissao-plagio-e-duvidas-biograficas-a-queda-do-professor-negro-mais-jovem-da-historia-de-cambridge/
Em maio deste ano, o autodenominado “realista racial”, de acordo com a imprensa internacional, passava por uma fase difícil. Dizia estar “agarrado à carreira académica com unhas e dentes” enquanto trabalhava como pós-doutorando na Universidade de Ghent. Foi nessa altura que um ex-colega lhe perguntou num email se já tinha ouvido falar de Jason Arday?
Posteriormente, Nathan Cofnas divulgou no Substack o texto “Fraude e encobrimento relacionados com a DEI em Cambridge” — de que Cofnas já disse não se arrepender. Nele, acusou a tese de doutoramento de Jason Arday de plagiar várias passagens de outro trabalho académico e pôs em causa relatos biográficos do professor, como ter sido uma criança incapaz de se expressar verbalmente até aos 11 anos e ter corrido 30 maratonas em 35 dias. Para Cofnas, Jason Arday não era apenas uma fraude, mas a representação do ‘politicamente correto’.
A trajetória de Nathan Cofnas no Emmanuel College, vinculado à Universidade de Cambridge, chegou ao fim em 2024. A decisão aconteceu após declarações polémicas feitas pelo investigador no seu blog pessoal, onde defendeu que, sob um sistema estritamente meritocrático, “os negros desapareceriam de quase todos os cargos de destaque fora dos desportos e do entretenimento”, segundo o The Guardian.
Além disso, no texto intitulado “Não usem as mulheres como bode expiatório” e publicado em janeiro do mesmo ano, ele sustentou que “as mulheres, e não os homens, podem fazer com que outras pessoas sejam demitidas apontando o dedo e chorando”.
Após semanas de polémica, Arday, o professor negro mais jovem de Cambridge, foi encontrado morto em Battersea, no sul de Londres, depois de se despedir da Universidade de Cambridge. Mais de 30 mil pessoas estiveram numa vigília em homenagem a Arday na Trafalgar Square, no centro de Londres.