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Esquerda e islamismo

Islamistas e esquerdistas são mesmo companheiros de estrada? Por que razão o deputado comunista Miguel Urbano Rodrigues escreveu que o Hamas e o Hezbollah eram movimentos revolucionários?

José António Rodrigues do Carmo
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O 11 de Setembro de 2001 apanhou-me de férias numa praia, perto de Tavira. Havia sol, mar, tranquilidade e optimismo num mundo que eu julgava decente. Era um tempo ingénuo, levava-se para a praia a toalha e o protector solar, não um manual da jihad para perceber as notícias.

Recordo-me bem desse dia e das discussões que se seguiram. Até então, o Islão não estava sequer no meu horizonte de interesse ou preocupação. Mas nesse dia entrou pelos olhos dentro, com aviões civis transformados em mísseis, arranha-céus reduzidos a poeira e milhares de pessoas imoladas por causa de um argumento teológico apresentado de forma aterradora.

Surpreendeu-me que dezanove homens “normais” tivessem decidido suicidar-se para matar desconhecidos. Não por impulso, loucura, desespero, ganância ou ciúme, mas por convicção numa ideia. Ora quando uma ideia convence homens a derrubar os instintos de sobrevivência e os tabus éticos da civilização, para morrer e assassinar pessoas que nunca viram, convém investigá-la, em vez de chamar «contexto» ao fanatismo.

Comecei então a ler o Corão, hadiths, comentários, exegeses, estudos históricos, apologias, críticas e acusações inflamadas. Li autores de vários quadrantes, com diferentes simpatias, intenções opostas e graus variados de honestidade intelectual.

O resultado foi a pouco tranquilizadora impressão de que, nos seus fundamentos, enquanto projecto político, o Islão é muito mais do que uma religião no sentido ocidental. É doutrina de poder e visão totalitária da sociedade. Pretende regular a lei, a moral, a família, a educação, a liberdade, a guerra e a submissão. Não se contenta em salvar almas, quer governar corpos, e colide com a civilização liberal por fundamental incompatibilidade, não por falhas de tradução.

Mas a descoberta mais perturbadora estava aqui mesmo, no Ocidente.

Sempre que se sinalizavam as características intolerantes do fundamentalismo islâmico e dos seus textos, acorriam logo em sua defesa sectores significativos da esquerda ocidental. Não toda, mas uma parte, ruidosa, cínica e moralmente arrogante, surgia invariavelmente a explicar que tudo era complicado, que era preciso compreender, que o Ocidente, Israel, a América, o colonialismo, e o capitalismo tinham culpas e, no limite, que era “bem feito”, que as coisas não surgiam no vácuo, e que as vítimas tinham tido o mau gosto de morrer no lugar errado à hora errada, sem consultarem as teorias pós-coloniais.

O espectáculo continua a ser inacreditável. “Progressistas”, feministas, laicos, libertários e defensores de todos os direitos humanos, incluindo os inventados anteontem, revelam infinita compreensão por regimes, pessoas e doutrinas que subordinam a mulher, perseguem o apóstata e o “infiel”, enforcam o homossexual, odeiam o judeu, calam o dissidente e encaram a liberdade como decadência. É um enviesamento que exige tudo às democracias e nada aos carrascos, desde que estes insultem com boa dicção os americanos e judeus, e os matem com galhardia.

O mesmo estudante do CES/Universidade de Coimbra, da NOVA/FCSH, ou do ISCTE, que detecta fascismo num pronome, numa piada mal calibrada ou numa bacorada do Sr. Ben Gvir, descobre «resistência» no terrorismo puro e duro, e pitoresco cultural na intolerância teocrática.

A pergunta impõe-se: islamistas e esquerdistas são mesmo companheiros de estrada?

Por que razão o comunista francês Roger Garaudy se converteu ao Islão?

Por que razão o deputado comunista Miguel Urbano Rodrigues, chefe de redacção do Avante, escreveu que o Hamas e o Hezbollah eram movimentos revolucionários e “representantes de princípios universais”?

Por que razão o “socialismo bolivariano” encontrou aliados naturais nos teocratas iranianos?

Por que razão Miguel Portas, vindo do Partido Comunista para o Bloco de Esquerda, prestava homenagem a Hassan Nasrallah, chefe terrorista às ordens dos aiatolas?

Por que razão o poeta anarquista Barahona da Fonseca se converteu ao Islão e adoptou o nome de Muhammad Abdur Rashid?

Por que razão Nova Iorque elegeu Zohran Mamdani, um muçulmano antissemita, que se diz socialista?

A resposta é menos misteriosa do que parece. A esquerda folclórica e o Islão político encaram o Ocidente liberal como o inimigo comum.

Uns odeiam-no por ser capitalista, imperialista, burguês, americano e opressor. Outros por ser decadente, infiel, permissivo, de influência judaico-cristã, secular e livre. Ambos olham para a civilização liberal, com as suas imperfeições, parlamentos, jornais, mulheres livres, minorias protegidas, liberdade de expressão, tribunais independentes e o irritante hábito de permitir que os seus inimigos a insultem, como uma monstruosidade a destruir. Não têm o mesmo destino final, mas viajam alegremente na mesma flotilha.

Esta aliança é a peça central da crise do nosso tempo. Não porque todos os muçulmanos sejam islamistas ou toda a esquerda seja cúmplice da barbárie, mas porque uma parte da esquerda decidiu que o ódio ao Ocidente e à sua própria pertença é mais importante do que a liberdade. Quando a ocasião se propicia, a máscara cai e fica exposta a preferência real, não pelos fracos, oprimidos, mulheres ou minorias, mas por qualquer força, incluindo terroristas e genocidas, que lhe pareça capaz de atacar a civilização ocidental.

O verdadeiro problema do Ocidente não é apenas a agitação, a violência e a intolerância dos que o querem destruir mas, sobretudo, a bovinidade colaborante com que alguns dos seus filhos, idiotas úteis dotados de ignorância e telemóvel, lhes abrem a porta, carregam as malas e ainda pedem desculpa por existirem.

O caso de Jamey Carney, ocorrido no mês passado, oferece uma imagem tristemente ilustrativa.

A americana conheceu Ahmad Al-Saqar, jordano e “refugiado”, numa manifestação “pró-palestiniana” na Irlanda, o país mais antissemita da Europa (a par da Espanha), e levou-o para casa. Carney foi assassinada em casa e Ahmad fugiu para a Jordânia.

Este caso não demonstra uma teoria sobre milhões de pessoas, obviamente. Mas é o que é: uma activista “antissionista” (vocábulo que hoje se usa para dizer o indizível), de esquerda, abriu a sua porta a um islamista que conheceu na “causa” emblemática da amálgama do nosso tempo. A realidade respondeu da forma mais brutal, sem consultar o manifesto ideológico, como vem acontecendo sistematicamente na Europa, cujos cidadãos são atacados à bomba, a tiro e à facada por fundamentalistas islâmicos, acolhidos por razões humanitárias. Os companheiros de estrada sobreviventes encolherão os ombros, procurarão o contexto, culparão a civilização que lhes dá o chão, e talvez acabem, como de costume, a fustigarem-se a si mesmos, em penitência por serem ocidentais.