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A IA e o óbvio

O elemento mais importante, e mais óbvio relativamente ao computador é o que ensinou Francis Bacon relativamente ao dinheiro: ele é um bom servo, mas um péssimo mestre.

João César das Neves
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Perder de vista o óbvio é um dos maiores males, especialmente em momentos de turbulência. Mergulhados em tumulto, como hoje acontece na vertigem da Inteligência Artificial, esquecemos algumas ideias simples e evidentes que são indispensáveis.

Um computador é um objeto, não é um sujeito. Um computador não diz nada, não manda nada, não decide nada. Ele é uma coisa, sem consciência, sem vontade, sem inteligência. Isto é indiscutível e, no entanto, a cada passo o negamos nas nossas atitudes, tratando-o como se fosse alguém. Ninguém tem dúvidas que a televisão ou o telefone, apesar de falarem muito, são objetos a quem nada atribuímos, para lá da capacidade de nos pôr em contacto com outros sujeitos. No computador acontece a mesma coisa, mas temos tendência a esquecê-lo, imputando-lhe aquilo que outras pessoas fazem com ele e através dele.

Um computador é uma máquina, um instrumento que produzimos para nos ajudar nas nossas tarefas. Como tal, ele é funcional, mecânico, operativo, sendo útil apenas na medida em que cumpre aquilo que precisamos. Uma torradeira serve para tostar pão e é muito útil nisso, mas apenas nisso. É verdade que a torradeira consegue fazer coisas que os humanos não conseguem. Todas as máquinas, desde os machados nas cavernas, realizam tarefas que nós não alcançamos sem elas; por isso as produzimos e ninguém fica espantado com isso. No entanto, quando um computador processa algo que nos ultrapassa, temos-lhe respeito. Parece que deixa de ser uma máquina para ser um parceiro.

Um computador é programável. Isso significa que contém um conjunto de instruções, que lhe permite atuar segundo as circunstâncias, como uma fechadura tranca ou abre conforme queremos. Isso significa que a máquina vai ajustar o seu funcionamento, mas fá-lo-á sempre de forma automática, seguindo rigidamente as orientações que lhe estão impostas. Não decide nada, não escolhe, não pensa; limita-se a cumprir aquilo que está prescrito na sua estrutura. Por mais complexa, diversa e minuciosa que seja essa programação, as reações do computador são sempre rigidamente definidas pelo algoritmo. O facto de essas instruções serem concebidas para fingir que o computador pondera e escolhe, apenas acrescenta fraude à operação, sem conceder nenhum raciocínio à máquina; como um cão vestido de polícia continua a ser apenas um canídeo à procura de ossos. A personalidade que realmente se esconde atrás do computador é a multidão de programadores, que tem total responsabilidade por tudo o que acontece com ele.

O computador é um instrumento muito útil, flexível, eficiente, que podemos aplicar em inúmeras atividades da nossa vida, obtendo através dele resultados preciosos; como um anestésico que amortece todo o tipo de dores. Só que essas espantosas vantagens dependem de manter o dispositivo no seu lugar, cumprindo a sua finalidade para nosso proveito, sem extravasar as suas funções. Como nos anestésicos, é fácil ficar drogado em computadores.

O computador muda o mundo, como o machado de pedra mudou a vida nas cavernas, apesar de tudo ter ficado na mesma. Há séculos que os visionários nos dizem que vamos viver numa realidade nova e extraordinária, o que em cerca medida é verdade, apesar de sempre permanecerem os problemas milenares da humanidade. Com computadores cada vez melhores, o mundo continua o mesmo.

Pode dizer-se que está a acontecer com o computador aquilo que sucede há milénios com outro dos instrumentos mais úteis e mais perigosos da humanidade: o dinheiro. Inventado há 2600 anos, a moeda é muito útil, flexível, eficiente, que podemos aplicar em inúmeras atividades da nossa vida, obtendo através dela resultados preciosos. Só que, precisamente por isso, são muitas as pessoas que se deixam manipular e controlar pelo dinheiro, destruindo assim a vida que o numerário poderia ajudar. Desta vez o perigo é ainda maior porque, apesar de toda a devoção avarenta, nunca ninguém se atreveu a pensar que as notas fossem inteligentes.

O elemento mais importante, e mais óbvio relativamente ao computador é o que ensinou Francis Bacon relativamente ao dinheiro: ele é um bom servo, mas um péssimo mestre.