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O desastre anunciado que não aconteceu

Há poucas semanas, dizia-se que a correção digital dos exames nacionais ia comprometer o futuro académico de uma geração. As candidaturas ao ensino superior acabaram de bater um recorde de 30 anos

André Mota Ribeiro
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Há poucas semanas, o processo de correção digital dos exames nacionais era descrito como um desastre em curso. Um movimento de professores documentava, quase ao minuto, dezenas de casos de convocatórias erradas, incluindo docentes já reformados ou, nalguns casos, já falecidos. A Fenprof apresentou queixa na Procuradoria-Geral da República. O PCP forçou um debate de urgência no Parlamento, com uma deputada a falar em “opção política desastrosa” a colocar “em causa a vida destes jovens”. O ministro da Educação chegou a admitir, publicamente, que o processo podia acabar em Portugal se os problemas se repetissem. Semanas depois, os números contam uma história bem diferente: todos os exames foram corrigidos e classificados, o calendário de acesso ao ensino superior manteve-se inalterado, e a primeira fase do concurso de acesso registou 60.391 candidatos, o número mais alto em três décadas fora dos anos de pandemia.

Vale a pena parar aqui antes de seguir em frente. O que estava em causa não era uma medida cosmética. Era a extensão da correção digital a todas as disciplinas dos exames nacionais, depois de, no ano anterior, o modelo ter sido testado apenas com Filosofia. Passar de uma prova-piloto para um sistema nacional com centenas de milhares de exames de um ano para o outro é, por definição, um salto arriscado. Não era ajustar um detalhe do sistema educativo. Era mudar-lhe a espinha dorsal, num dos processos mais sensíveis e mais escrutinados do calendário nacional.

E, sendo justo, os problemas foram reais. Houve convocatórias erradas, plataformas inacessíveis em momentos críticos, professores a receber pedidos de correção de disciplinas que não lecionavam. Nenhuma dessas falhas deve ser branqueada, e o próprio ministro reconheceu, sem rodeios, que “a primeira fase não começou bem”. Mas há uma diferença enorme entre um sistema que tropeça no arranque e um sistema que colapsa. E é essa diferença que a narrativa dominante, nas primeiras semanas, insistiu em apagar.

É um padrão conhecido em Portugal: qualquer fricção numa reforma é imediatamente lida como falência total, muitas vezes antes de o processo sequer terminar. Confunde-se, com uma facilidade preocupante, ter problemas com ter falhado. E essa confusão tem um custo político elevado, porque cria um incentivo perverso: mais vale não arriscar nada do que arriscar e tropeçar em público.

É precisamente por isso que a atitude do ministro da Educação nesta reforma merece ser reconhecida, independentemente da avaliação técnica que se faça do processo. Perante um debate de urgência no Parlamento, uma queixa formal ao Ministério Público e semanas de pressão mediática constante, a resposta mais fácil, e a mais comum entre governantes portugueses, teria sido recuar, suspender o modelo e devolver o problema para o ano seguinte. Não foi isso que aconteceu. A segunda fase de exames decorreu, no reconhecimento do próprio ministro, sem os mesmos incidentes, e o modelo manteve-se de pé.

Este é, aliás, um contraste incómodo com um padrão que já foi tema deste espaço: o de reformas estruturais que ficam anos à espera do momento politicamente seguro para avançar, precisamente para evitar o desgaste de um arranque imperfeito. Aqui, pelo contrário, houve a opção de absorver o custo político de um processo visivelmente inacabado, em vez de o adiar até estar hipoteticamente perfeito, o que, como a experiência portuguesa tantas vezes demonstra, normalmente significa adiá-lo para sempre.

Isto não significa isenção de escrutínio. Reconhecer coragem reformista não é o mesmo que dar um cheque em branco. A avaliação anunciada pelo Conselho Nacional de Educação, prevista para o final do ano, é exatamente o tipo de acompanhamento que este processo precisa: identificar o que falhou, corrigi-lo com rigor, e não repetir os mesmos erros num sistema que lida com o futuro académico de centenas de milhares de jovens. Defender a ousadia da reforma não pode significar desvalorizar as famílias e os professores que, durante semanas, viveram genuína incerteza.

No fundo, o episódio dos exames digitais deixa duas lições que valem mais do que a polémica em si. A primeira é que a distância entre um problema sério e uma catástrofe nacional costuma ser maior do que a urgência do debate público deixa transparecer. A segunda é que a reforma, quando é a sério, quase nunca é indolor, e talvez seja hora de deixarmos de tratar essa dor como prova de fracasso e começarmos a tratá-la como o preço normal de mudar alguma coisa que, durante anos, ninguém teve coragem de mexer.