Um dia, cruzei-me com um vulto «da bolha». Impôs-se, da minha parte, claro, uma apresentação. O compatriota começou a trocar os «b» pelos «v» e, não satisfeito, anunciou à sala que «em Viana bebem todos vinho de malga». Horrorizado com a habilidade do bonacheirão, ousei corrigir: «desculpe, não é vinho no geral, é tinto verde, o Porto, por exemplo, é em cálice, mas, já agora, não bebemos só na malga, enfiamos mesmo o polegar lá dentro para a segurar melhor». Isso o conviva não pôde consentir. Era cedo de mais para perceber o sarcasmo. As boas maneiras permitem elevar-se acima do suburbano, mas nunca meter uma falange dentro de um mini alguidar de barro. Era o que faltava. Que horror. Hoje, pensando bem, podia ter respondido com a letra da Chula: «O anel que tu me deste nem o dei, nem o vendi. Deitei-o da ponte abaixo. Também te deitava a ti».
Gosto de ser de Viana, do Alto-Minho e da Romaria da Senhora d’Agonia. Gosto que me perguntem sempre porque é que não trouxe bolas do Natário. Não gosto do Minho visto como «Portugal de Postal», servil, domesticado, reverente. Gosto do Minho da propriedade privada e, por isso, da partilha. Gosto do Minho sem tempo para utopias e ideologias. Gosto que me chamem bárbaro quando isso significa reconhecer uma dignidade tão elevada à natureza que nem o sangue dos animais é desperdiçado, a ponto de se inventar o sarrabulho e a cabidela. Como cantamos num rap do Hugo Soares: «Sou do Minho, sou do Minho, mas não comes sarrabulho?, aí o sangue que nojinho, vou ao Mac comer entulho». Por isso, não gosto do Minho sem contradições, de fast-food ou unha de gel.
Gosto da nortada e do esteroeiro. Do basculho, do broeiro, do trengo e da cabaneira. Gosto do amor hospitaleiro e agressivo. «Não vai sair daqui sem comer este chouriço caseiro». Gosto que saibamos que falar bem não é ser bem-educado. Não do Minho usado como fato de carnaval, traje de circunstância ou plataforma para o sucesso. Gosto do Minho por fazer de um fado uma música de claque. Gosto do Minho do contrabando e da lota negra. Gosto do Minho da Bienal de Cerveira paredes-meias com o Chico da Tina, do Paredes de Coura e do Vilar de Mouros lado a lado com o Quim Barreiros e o Augusto Canário. Não gosto do Minho, quando o tornamos uma competição para ver quem é o mais autêntico ou genuíno, quando «antigamente é que era bom», quando aceitamos que nos tratem como se fôssemos o Portugal dos Pequeninos, ou somos snobes face ao que somos.
Ser do Minho é saber que não há «fonte sem lodo, nem jardim sem arvoredo». Ser do Minho é estar na praça a vender alguma coisa e deitar «de contrapeso, o coração de nós ambos». Ser do Minho é exigir: «amor, vira-te para mim».
Há culturas que privilegiam a harmonia, que associam a iluminação à eliminação da diferença ou da violência. O Minho, ao invés, procura a tempestade, assalta a natureza e confunde saudade com alegria. Só alguém desatento pode achar que os bombos são barulho. Acredito que seja uma forma de vitória sobre a instabilidade. Se batemos palmas durante o caos, que mal nos poderá dominar? Se acordamos ao som de relâmpagos conseguidos através da fricção da madeira e da pele dos animais, que contratempo nos pode deter e que agressão pode ser destruidora? Se tudo começa com figuras grotescas como os cabeçudos e os gigantones, que medo, que ânsia, que receio nos pode aprisionar? Se celebramos a Senhora da Agonia, que morte nos poderá escapar ou surpreender?
Há um modo totalmente contraintuitivo de viver no Minho. A segurança pressupõe recato, proteção, defesa. No Minho, na Senhora da Agonia, toda a riqueza e património mais valioso das famílias está na rua. Ali: evidente, sem vidro à prova de bala, à mão de semear. Parece que quanto mais expostos, mais seguros estamos.
Se o famoso diálogo d’O Sétimo Selo de Ingmar Bergman decorresse em Viana, perto da Romaria da Senhora da Agonia, e a morte anunciasse a um vianense que o fim da sua vida estava próximo, qualquer um de nós pediria a mesma coisa: ao menos que seja depois das festas. Mas, tal como Gombrowicz pediu aos polacos que a exaltação do passado não correspondesse à humilhação do presente e à negação do futuro, peço que também o amor à tradição do Minho não se transforme em impossibilidades. Não precisamos de simular ancestralidade. Precisamos, sim, de novos tradutores.