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Estrangulou os três filhos…sem arma

É um crime de bradar aos céus, pior do que crianças a matar os colegas, porque a mãe é a pessoa mais responsável e inclinada para proteger as suas crianças. Então como há tanta gente a defendê-la?

Julie Machado
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Lindsay Clancy estrangulou os seus três filhos pequenos e tentou suicidar-se em janeiro de 2023 e agora o julgamento está a dar que falar. Apesar de ela admitir ter cometido este crime premeditada e intencionalmente, muitos pessoas, especialmente mães, estão a dizer que ela não teve culpa.

O que me chamou logo a atenção é que este crime horroroso, anti-humano e antinatural fui cometido sem arma de fogo. Se tivesse sido com arma de fogo, muitos teriam dito, “Pois CLARO, tinha acesso a uma arma!” Este tipo de crime tão antinatural parece-me ter semelhanças com os tiroteios na nas escolas, onde são logo culpadas as armas. Ainda bem que desta vez o foco está na saúde mental e nos fármacos, pois essa é a questão de base. A posse e o acesso às armas nos Estados Unidos não tem mudado desde a sua fundação em 1776. A saúde mental e a quantidade de fármacos psiquiátricos, especialmente tomados por crianças e adolescentes é que tem mudado. Sabiam que a maior causa de morte em pré-adolescentes e adolescentes nos Estados Unidos é o suicídio? Sabiam que 2/3 das mortes por arma nos Estados Unidos são suicídios? Homicídios com arma são mais frequentes em países da América Latina. O atirador jovem das escolas americanas quase sempre se suicida no fim, como Lindsay Clancy. É uma questão de saúde mental e acredito que Portugal esteja a trilhar o mesmo caminho.

Nos podcasts que costumo ouvir, a psiquiatria como indústria tem sido um assunto frequente. Laura Delano, autora do livro “Unshrunk”, é uma convidada frequente em vários podcasts. Fala da sua infância num meio diferenciado e competitivo, onde ela se sentia valorizada só pelo pelos resultados e pelo sucesso, e não por ser quem era. Uma sociedade virada para o sucesso e a produção, que se torna desumana. Laura teve um diagnóstico psiquiátrico em adolescente, tomou medicamentos prescritos pelo seu  médico durante anos e foi internada várias vezes. Agora fala em como deixou de tomar medicamentos e vive uma vida mais simples. Laura fala extensivamente sobre os efeitos secundários destes medicamentos e a falta de estudos antes da sua aplicação, especialmente em associação.

Lindsay Clancy escreveu nas notas do seu telemóvel, “a medicação roubou a minha maternidade e a minha vida.” Disse também: “Tinha 3 filhos pequenos para cuidar; estava um pouco ansiosa. Fiz o que se faz… Pedi Zoloft ao psiquiatra. O médico aconselhou a subir a dosagem. Quando Clancy não conseguia dormir, o psiquiatra parou o Zoloft e aconselhou Ativan e Benadryl, para ajudar a dormir. Clancy escreveu que foi aí que tudo piorou e ela ficou dependente da medicação para adormecer. Nos meses antes do crime, ela consultou médicos diferentes e tomou outros medicamentos. O marido disse no tribunal que não era questão de lhe tirar os medicamentos, mas de acertar. Ela também foi internada no mês do crime.

Clancy escreveu que a raiz da sua insatisfação era não poder ser boa mãe para os seus filhos mais novos, especialmente o bebê, como tinha sido para o mais velho. Este é um sentimento que já experimentei, e que tenho ouvido de muitas amigas frustradas. Donde vem esta meta de perfeição de maternidade? Pelo menos em parte, com certeza, das redes sociais.

Estrangular três filhos pequenos com elásticos de exercício requer imensa força física e frieza em vê-los sofrer e sufocar durante tanto tempo, um a um. Algo premeditado: enquanto o marido foi à farmácia e buscar o jantar. Porque sentia pressão de ser boa mãe? É um crime de bradar aos céus, ainda pior do que crianças a matar os colegas, porque a mãe é a pessoa  naturalmente mais responsável e inclinada para cuidar e proteger as suas crianças. Um bebé de oito meses!

Então como há tanta gente a defender Lindsay Clancy, com pena dela e a dizer que não tem culpa? Acho que todos nos revemos neste declínio de saúde mental, no meio duma vida afluente, confortável e calma, sem problemas aparentes. Por debaixo: uma angústia e um desespero cada vez crescentes.

Acho que está ligado à solidão e isolamento sempre a aumentar na nossa sociedade. Há dias,  pensei nas aldeias e bairros de antigamente: se alguém morresse, toda a aldeia se juntava e ia ao funeral. Agora, conhecemos as pessoas do nosso prédio? Vai uma ambulância, sai um saco com corpo e os vizinhos olham todos das suas varandas e janelas com curiosidade. Quem será aquele vizinho? Como se chama? O que se passava na sua vida? O que fazes com um vizinho com problemas de toxicodependência, de pensamentos suicidas, de problemas no casamento? Nada, nem o conheces.

Robert F. Kennedy, no primeiro episódio do seu novo programa de culinária, fala na taxa de suicídio nos jovens e aponta também para os ecrãs, que isolam ainda mais. Como solução,  sugere que pais e filhos cozinhem juntos e valorizarem o tempo da refeição. Este como primeiro passo.

Onde esta nova configuração da sociedade, aumento de fármacos psiquiátricos e tempo nos ecrãs se mostra mais prejudicial é na maternidade. A maternidade já é o desafio maior do mundo. O mais importante, e por isso o mais difícil. Sabiam que a palavra “matrimónio” tem por base “fazer uma mãe”? Tudo devia existir para criar e apoiar a maternidade, e é preciso uma aldeia.

Ser mãe a tempo inteiro é a experiência mais solitária de sempre. As outras mães estão geograficamente longe e estás muito ocupada com tanto que fazer, não se pode propriamente marcar um café com amigas todos os dias. Um contraste com as aldeias onde as mulheres trabalhavam juntas e conviviam diariamente. A mulher trabalhar fora de casa não soluciona o problema, porque chega a casa e vive a tarefa da maternidade igualmente sozinha e talvez até tenha menos tempo para o convívio com amigas. Acrescentem-se fármacos e as metas irrealistas das redes sociais a esta experiência de solidão, e qualquer um já sente um pouco mais de compaixão por Lindsay Clancy.