O a todos os títulos lamentável caso de Jason Arday, o cidadão britânico de origem africana que trepou rapidamente no mundo universitário apoiado num currículo e percurso de vida mais do que fantasiosos, e nas complacências e tolerâncias excessivas no seio das universidades no Reino Unido, é do domínio público. Quando foi questionado sobre as suas histórias inverosímeis e confrontado com acusações de plágio, demitiu-se do seu lugar na Universidade de Cambridge, vindo infelizmente a morrer pouco tempo depois. A sua história é sobejamente conhecida para me dispensar de a detalhar aqui. O que quero chamar a atenção é para a forma como muita gente de esquerda tem reagido ao caso, sobretudo depois da notícia da sua morte, porque essa forma revela um preocupante embotamento dos critérios morais e um desleixo ou relaxe face à verdade.
É claro que todas as pessoas bem formadas, de qualquer quadrante político que sejam, lamentaram a morte de Arday, o percurso trágico de sucessivas mentiras que o terá levado a esse triste e precoce fim, e a terrível visão da vida de uma pessoa a desmoronar-se como se fosse um castelo de cartas. Mas a gente de esquerda, se bem avalio o que vou lendo nas redes sociais e nos jornais ingleses, espanhóis, norte-americanos, franceses e portugueses, foi mais longe e fez de Arday uma vítima de um assassinato perpetrado por gente de direita. Dito de outra forma, a esquerda fez deste ex-professor da Universidade de Cambridge uma vítima de racismo, de anti-wokismo da extrema-direita e da inveja dos brancos perante o sucesso profissional e académico de um negro.
Isso também é visível aqui em Portugal ou em esferas culturais de língua portuguesa. Por todo o lado, as pessoas de esquerda, desde as mais moderadas às mais radicais, vieram sugerir ou afirmar que Arday tinha sido vítima de uma perseguição impiedosa e eventualmente, provavelmente ou garantidamente — aí a esquerda divide-se —, injusta ou infundada. Entre os negros de esquerda a indignação tem sido grande e a teoria da conspiração tem tido livre curso. Nas palavras do escritor e jornalista angolano João Melo, por exemplo, “o professor Jason Arday foi vítima de um autêntico assassinato mediático, cometido não apenas pelos fascistas das redes, mas também pela imprensa ocidental (ou “ocidentalizada”) convencional, dita séria, mas igualmente criminosa”. Nas do inevitável Mamadou Ba, “o linchamento, dispositivo central dessa ideologia da morte que é o racismo, continua a fazer o seu macabro trabalho. Foi essa mesma violência racial, em toda a sua brutalidade, que ceifou a vida de Jason Arday”.
Como era de esperar, em Inglaterra, a reacção dos negros de esquerda tem sido de grande solidariedade para com Arday e de repúdio pela contestação que sofreu, e Lord Woolley, o negro que é membro da Câmara dos Lordes e que está à frente do Homerton College, na Universidade de Cambridge, foi ao ponto de classificar como “massacre” aquilo a que o recém-falecido Arday esteve sujeito, e de exigir que seja feita uma investigação sobre a forma como os meios de comunicação trataram do seu caso. Além disso Woolley foi um dos signatários de uma carta aberta defendendo Jason Arday das acusações de plágio, e parlamentares do Partido Trabalhista como Clive Lewis ou Bell Ribeiro-Addy, originária do Gana, foram outros dos muitos signatários negros desse texto.
Ainda que não excluam que possa ter havido motivações racistas no escrutínio a que Arday foi sujeito, à direita, os líderes políticos e de opinião negros, como James Cleverly, por exemplo, não se viraram contra os meios de comunicação e preferiram apontar o dedo ao laxismo e fanatismo woke das universidades que, por razões puramente ideológicas, deixaram de avaliar de forma séria e exigente aquele candidato de pele negra, receberam-no de braços abertos e sem grandes critérios de exigência, atirando-o, em consequência disso, para lugares de responsabilidade para os quais não estava habilitado nem preparado, e, claro está, para o inevitável escrutínio público
À semelhança de líderes de opinião negros como Cleverly as pessoas e a imprensa de direita em geral apontaram sobretudo — e bem, a meu ver — a fraude de processos que Arday personificava, os vícios e entorses que o wokismo introduziu na vida universitária, e aproveitaram a ocasião para reafirmar que o escrutínio é algo de saudável e de necessário nas nossas sociedades liberais. Aliás, alguma imprensa de esquerda também questionou a veracidade de diversas afirmações de Jason Arday, pois a sua história, nas palavras do próprio, era tão inacreditável que seria impossível não vir a ser questionada por qualquer pessoa razoável, independentemente de ser de esquerda ou de direita. De facto, esta figura frágil e trágica, que se doutorou aos 30 anos, afirmou que tinha sido mudo até aos 11 e iletrado até aos 18, que ultrapassou vários problemas de saúde, incluindo autismo, epilepsia, um tumor cerebral e um cancro nos testículos, e que realizou proezas atléticas dignas de um Deus do Olimpo, nomeadamente a de ter disputado, em 35 dias, 30 maratonas, as últimas das quais com uma fractura numa perna. Naturalmente que com uma história destas, com suspeitas de plágio e queixas de vários dos seus alunos, o jornalismo interessou-se por ele e investigou-o.
Ainda assim, e regra geral, a esquerda mais emotiva ou menos razoável veio dizer ou insinuar que esse escrutínio não decorria do facto de o homem ser, ao que tudo indicava, um mitómano, mas sim de ser negro. Mais. A gente de esquerda desvalorizou a acusação de plágio, garantindo que muitas outras pessoas o fizeram e fazem, sem as mesmas consequências, e que se Jason Arday fosse branco isso seria desculpado, omitido e não teria importância nenhuma. É claro que essas considerações são completamente falsas, e não precisamos de ir longe nem de sair de Lisboa para encontrar provas dessa falsidade. Quem não se lembra da acusação de plágio que caiu como uma bomba sobre a carreira e, suponho eu, a própria vida, de Clara Pinto Correia?
O problema, porém, é que a verdade parece ser insuficiente para desmontar o vitimismo e o wokismo da esquerda, e a sua irreprimível propensão para fechar os olhos, para ignorar ou desculpar, os erros e os passos em falso dos que, no seu entendimento, estão do lado certo da História e descendem dos brutalizados e oprimidos do passado. Mesmo perante factos irrefutáveis a esquerda recusa-se a ver e a sancionar os seus protegidos ou compagnons de route, e vira-se, reactivamente, contra quem os acusa de fraudes e práticas menos católicas. Há aqui uma desonestidade intelectual que não sendo geral, pois há gente de esquerda que escapa a ela, felizmente, é demasiado frequente para impedir ou dificultar uma vivência saudável entre gente com ideias políticas diferentes. É que — e infelizmente tem de se repetir isto constantemente à gente de esquerda — a verdade importa, os métodos também, e o valor de ambas as coisas não pode variar em função das preferências partidárias. Ainda que lamentemos a sua perda e possamos compreender e respeitar a angústia e o sofrimento a que terá estado sujeito nos seus últimos dias de vida, um mitómano de esquerda é um… mitómano, ponto final, tenha o tom de pele que tiver e chame-se Jason Arday ou outro nome qualquer, e o mundo académico não pode compactuar com mitomanias e aldrabices. Infelizmente, há décadas que compactua. Apesar da sua perspectiva dura sobre os acontecimentos — o seu artigo no Expresso foi escrito antes de se saber da morte de Arday —, perspectiva essa que lhe valeu múltiplos ataques de pessoas de esquerda nas redes sociais, Teresa Nogueira Pinto tem toda a razão quando nos lembra que “as universidades existem para alargar os limites da ciência e descobrir a verdade, não para fabricar vítimas”.