A reprovação moral e política do nacional-socialismo constituiu a referência fundadora da história europeia, e mesmo ocidental, o consenso de base que nortearia os tempos históricos vindouros. Uma coisa era certa: nie wider, como se dizia em alemão. Nunca mais. Dessa forma, os 12 anos da ditadura nazi e o seu mais tenebroso resultado, a segunda guerra mundial e a tentativa de extermínio do povo judeu, marcou uma cesura histórica que se queria radical. Não que não tenha havido apologias do nazismo e de Hitler, mas, as mais das vezes, argumentava-se de tal modo, que se ratificava a avaliação negativa do nazismo. Em tais hostes podiam-se encontrar anticomunistas de longa data que viram em Hitler o baluarte contra a maré bolchevista, cristãos angustiados com o avanço geral do ateísmo ou pequeno-burgueses déclassés para quem o insignificante cabo do exército alemão era um instrumento de vingança social. Não poucos se afirmaram post factum traídos pelo próprio movimento e pelo seu chefe. Afinal, ninguém teria querido aquilo. Em grande parte, era uma confissão sincera; sem dúvida, também as houve pura e simplesmente oportunistas. Imprevisível, a monstruosidade dos acontecimentos era incontestável. O revisionismo histórico, Robert Faurisson e David Irving à cabeça, era tudo menos ingénuo. Ainda assim, o afã de desvalorizar factualmente a desvalorização moral do nazismo depunha no mesmo sentido. Discutia-se a responsabilidade histórica das restantes nações europeias, a fim de as tornar solidárias do crime e apagar o carácter excepcional do nazismo, esgrimiam-se números de mortos ou punha-se em causa a existência dos campos de extermínio e das câmaras de gás, ou até a autenticidade do Diário de Anne Frank, tudo isso supunha como dado primeiro uma maldade intrínseca para a qual se procuravam circunstâncias atenuantes. Em tempos mais recentes, o fascínio de um certo kitsch de direita nacional-socialista levou gerações jovens a sonhar com tempos edénicos de camponeses a lavrarem os paterna rura por detrás de uma junta de bois ou com desvelos de sacrifícios em belas fardas; tudo isso com poucas ou nenhumas consequências práticas. Houve também nazis convictos, antigos e modernos, conscientes e violentos. A atmosfera de conventículo ultraminoritário e a clandestinidade obrigatória militam, no entanto, na mesma direcção: dão testemunho a contrario da mesma reprovação consensual do nazismo. E estes bas-fonds permaneceram também sem resultados dignos de nota.
Na sequência do ataque terrorista do Hamas, em 7 de Outubro de 2023, a Europa e o mundo ocidental foram alvo de uma campanha propagandística ímpar. Tinha em vista sapar o crédito moral de que o povo judeu gozava, mais ficção do que realidade, como aliás o próprio êxito da campanha prova, para apartar, na economia moral que aquele consenso de base expressava, a tentativa de genocídio do povo judeu dos restantes elementos do mal absoluto que o nazismo continuava a ser por antonomásia. Para o conseguir sem suscitar eventuais resistências ainda adormecidas, começou-se por transfigurar o judeu em sionista, e o sionista no seu sentido original num imperialista, colonialista, racista e capitalista, desse modo poder-se-ia ser anti-sionista sem ser anti-semita, em seguida, baptizou-se a resposta israelita ao ataque do Hamas como genocídio, neutralizando assim a natureza única do crime nazi e transferindo a condenação moral do nazismo para o sionismo. Desde então acumulam-se as medidas anti-sionistas, que atingem, no entanto, todos os judeus. Desde a polémica à volta do festival da Eurovisão a pizzarias na Baviera que se recusam a servir judeus, de lojas que não aceitam judeus (judeus, note-se, não israelitas) a reportagens televisivas que não apresentam os concorrentes israelitas, trata-se da forma popularizada de DBS – Boycott, Divestment, Sanctions. Em linguagem corrente, decreta-se a morte social dos judeus. Como outrora fizeram os nazis. A par disso surgiu um novum histórico. Começaram-se a ouvir lamentos sem rebuço, e sem respostas de outrem, pelo facto de Hitler não ter acabado o trabalho [Too bad Hitler didn’t finish the job] – depois da morte social, a morte real. Hitler é reabilitado moralmente: já não há «excessos» ou «exageros» que maculariam os bons princípios iniciais, pelo contrário, a falha é não ter concluído a tarefa. Agora, na mais sinistra das ironias, Hitler agiu bem, positivamente bem, ao matar os judeus. Os genocidas de Gaza deveriam ter sido vítimas totais do genocídio originário. O genocídio é elevado por via retroactiva a instrumento de justiça política. A compaixão pelo sofrimento em Gaza oferece um sorriso acolhedor que afinal disfarça apenas o rosto do perseguidor desfigurado num esgar de ódio. Dissociado indirectamente em duas metades pela propaganda coerente, contínua e sistemática do Hamas e seus apoiantes, Hitler permanece o símbolo do mal apenas no que diz respeito às boas causas no Ocidente das quais o grupo terrorista se serve para os seus fins, é uma forma de kitsch de esquerda; no que diz respeito aos judeus agiu correctamente, é readmitido no mundo humano. Na medida em que os judeus como anti-tipo racial desempenharam um papel insigne na ideologia e prática nacional-socialistas, a distorção moral imposta à Europa e ao Ocidente – aceite e promovida como tal, assim ficou demonstrado pelos casos do encarregado de negócios da internacional antiocidental e anti-semita, António Guterres, e do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez – relativiza o mal que já foi absoluto e acaba por desvalorizar por igual princípio as vítimas secundárias desse mal (secundárias no sentido de que os campos de extermínio não foram construídos primariamente para elas; não se trata de hierarquizar vítimas enquanto vítimas). Doravante o nazismo poderá ser moral consoante as circunstâncias; sê-lo-á quando for conveniente ao Hamas e seus apaniguados. Nesse momento serão inúteis os arrependimentos. Morrerão aqueles que se entregaram – tamanho é o desnorte auto-fóbico – à fé desesperançada de que teriam a vida a troco da morte dos judeus – uma lúgubre e persistente ilusão.