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(A) :: A reabilitação moral do nazismo

A reabilitação moral do nazismo

Agora, na mais sinistra das ironias, Hitler agiu bem, positivamente bem, ao matar os judeus. Os genocidas de Gaza deveriam ter sido vítimas totais do genocídio originário.

João Tiago Proença
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A reprovação moral e política do nacional-socialismo constituiu a referência fundadora da história europeia, e mesmo ocidental, o consenso de base que nortearia os tempos históricos vindouros. Uma coisa era certa: nie wider, como se dizia em alemão. Nunca mais. Dessa forma, os 12 anos da ditadura nazi e o seu mais tenebroso resultado, a segunda guerra mundial e a tentativa de extermínio do povo judeu, marcou uma cesura histórica que se queria radical. Não que não tenha havido apologias do nazismo e de Hitler, mas, as mais das vezes, argumentava-se de tal modo, que se ratificava a avaliação negativa do nazismo. Em tais hostes podiam-se encontrar anticomunistas de longa data que viram em Hitler o baluarte contra a maré bolchevista, cristãos angustiados com o avanço geral do ateísmo ou pequeno-burgueses déclassés para quem o insignificante cabo do exército alemão era um instrumento de vingança social. Não poucos se afirmaram post factum traídos pelo próprio movimento e pelo seu chefe. Afinal, ninguém teria querido aquilo. Em grande parte, era uma confissão sincera; sem dúvida, também as houve pura e simplesmente oportunistas. Imprevisível, a monstruosidade dos acontecimentos era incontestável. O revisionismo histórico, Robert Faurisson e David Irving à cabeça, era tudo menos ingénuo. Ainda assim, o afã de desvalorizar factualmente a desvalorização moral do nazismo depunha no mesmo sentido. Discutia-se a responsabilidade histórica das restantes nações europeias, a fim de as tornar solidárias do crime e apagar o carácter excepcional do nazismo, esgrimiam-se números de mortos ou punha-se em causa a existência dos campos de extermínio e das câmaras de gás, ou até a autenticidade do Diário de Anne Frank, tudo isso supunha como dado primeiro uma maldade intrínseca para a qual se procuravam circunstâncias atenuantes. Em tempos mais recentes, o fascínio de um certo kitsch de direita nacional-socialista levou gerações jovens a sonhar com tempos edénicos de camponeses a lavrarem os paterna rura por detrás de uma junta de bois ou com desvelos de sacrifícios em belas fardas; tudo isso com poucas ou nenhumas consequências práticas. Houve também nazis convictos, antigos e modernos, conscientes e violentos. A atmosfera de conventículo ultraminoritário e a clandestinidade obrigatória militam, no entanto, na mesma direcção: dão testemunho a contrario da mesma reprovação consensual do nazismo. E estes bas-fonds permaneceram também sem resultados dignos de nota.

Na sequência do ataque terrorista do Hamas, em 7 de Outubro de 2023, a Europa e o mundo ocidental foram alvo de uma campanha propagandística ímpar. Tinha em vista sapar o crédito moral de que o povo judeu gozava, mais ficção do que realidade, como aliás o próprio êxito da campanha prova, para apartar, na economia moral que aquele consenso de base expressava, a tentativa de genocídio do povo judeu dos restantes elementos do mal absoluto que o nazismo continuava a ser por antonomásia. Para o conseguir sem suscitar eventuais resistências ainda adormecidas, começou-se por transfigurar o judeu em sionista, e o sionista no seu sentido original num imperialista, colonialista, racista e capitalista, desse modo poder-se-ia ser anti-sionista sem ser anti-semita, em seguida, baptizou-se a resposta israelita ao ataque do Hamas como genocídio, neutralizando assim a natureza única do crime nazi e transferindo a condenação moral do nazismo para o sionismo. Desde então acumulam-se as medidas anti-sionistas, que atingem, no entanto, todos os judeus. Desde a polémica à volta do festival da Eurovisão a pizzarias na Baviera que se recusam a servir judeus, de lojas que não aceitam judeus (judeus, note-se, não israelitas) a reportagens televisivas que não apresentam os concorrentes israelitas, trata-se da forma popularizada de DBS – Boycott, Divestment, Sanctions. Em linguagem corrente, decreta-se a morte social dos judeus. Como outrora fizeram os nazis. A par disso surgiu um novum histórico. Começaram-se a ouvir lamentos sem rebuço, e sem respostas de outrem, pelo facto de Hitler não ter acabado o trabalho [Too bad Hitler didn’t finish the job] – depois da morte social, a morte real. Hitler é reabilitado moralmente: já não há «excessos» ou «exageros» que maculariam os bons princípios iniciais, pelo contrário, a falha é não ter concluído a tarefa. Agora, na mais sinistra das ironias, Hitler agiu bem, positivamente bem, ao matar os judeus. Os genocidas de Gaza deveriam ter sido vítimas totais do genocídio originário. O genocídio é elevado por via retroactiva a instrumento de justiça política. A compaixão pelo sofrimento em Gaza oferece um sorriso acolhedor que afinal disfarça apenas o rosto do perseguidor desfigurado num esgar de ódio. Dissociado indirectamente em duas metades pela propaganda coerente, contínua e sistemática do Hamas e seus apoiantes, Hitler permanece o símbolo do mal apenas no que diz respeito às boas causas no Ocidente das quais o grupo terrorista se serve para os seus fins, é uma forma de kitsch de esquerda; no que diz respeito aos judeus agiu correctamente, é readmitido no mundo humano. Na medida em que os judeus como anti-tipo racial desempenharam um papel insigne na ideologia e prática nacional-socialistas, a distorção moral imposta à Europa e ao Ocidente – aceite e promovida como tal, assim ficou demonstrado pelos casos do encarregado de negócios da internacional antiocidental e anti-semita, António Guterres, e do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez – relativiza o mal que já foi absoluto e acaba por desvalorizar por igual princípio as vítimas secundárias desse mal (secundárias no sentido de que os campos de extermínio não foram construídos primariamente para elas; não se trata de hierarquizar vítimas enquanto vítimas). Doravante o nazismo poderá ser moral consoante as circunstâncias; sê-lo-á quando for conveniente ao Hamas e seus apaniguados. Nesse momento serão inúteis os arrependimentos. Morrerão aqueles que se entregaram – tamanho é o desnorte auto-fóbico – à fé desesperançada de que teriam a vida a troco da morte dos judeus – uma lúgubre e persistente ilusão.