(c) 2023 am|dev

(A) :: Deputado socialista lança think tank de esquerda e garante que "não é uma divisão no PS"

Deputado socialista lança think tank de esquerda e garante que "não é uma divisão no PS"

Instituto Progresso é dominado por socialistas e elementos de gabinetes dos governos Costa, mas também é subscrito por nomes do PSD, Livre, BE e por Isaltino Morais. Centeno estará na 1ª conferência.

Rita Tavares
text

Nasce esta quarta-feira um novo laboratório de ideias da esquerda, fora dos partidos mas com um socialista à cabeça. Miguel Costa Matos é o deputado do PS que levou ao último congresso do partido uma moção crítica do atual líder e agora aparece a liderar um movimento que tenta congregar personalidades para lá do seu partido para trabalharem em “estratégias e políticas progressistas”. O novo think tank, com o nome Instituto Progresso (IP), é dominado por socialistas e antigos membros de gabinetes dos governos de António Costa, mas também conta com alguns nomes de outros partidos, como os sociais-democratas Duarte Pacheco e Adão Silva, Paulo Muacho, do Livre, Vasco Barata, do BE, ou ainda o independente Isaltino Morais.

O pontapé de saída foi dado por Costa Matos que já tinha a ideia em mente desde o tempo em que António Costa conquistou a maioria absoluta, em 2022. O tempo passou, o PS saiu do poder e é com o PS na oposição que o socialista lança agora o think tank que assegura não ter como objetivo preparar uma liderança alternativa no partido.

https://observador.pt/2026/03/24/geracao-que-se-segue-no-ps-recusa-posicao-de-parceiro-do-governo-e-desafia-carneiro-a-saltar-de-cima-do-muro-do-nim/

A leitura é possível, já que o Instituto Progresso tem, entre os seus subscritores, nomes como o de Duarte Cordeiro ou de Pedro Costa e até contará, na primeira conferência que está marcada para 19 de setembro, com a participação de Mário Centeno. Tanto o ex-ministro das Finanças como Cordeiro são nomes apontados como possibilidades para a liderança e sobretudo acarinhados numa ala do partido menos rendida a José Luís Carneiro.

Mas Miguel Costa Matos — ele mesmo a trilhar o percurso já feito por alguns líderes, tendo presidido à JS — garante que não é isso que está em causa. “É legítimo todo o tipo de leituras, mas o tempo vai demonstrar que não é assim. Era inaceitável adiar este projeto pelo risco das leituras. Já falei sobre o projeto com o José Luís Carneiro e haverá outros dirigentes do PS envolvidos”, diz quando confrontado com o Observador sobre se há alguma ameaça à atual direção socialista nas entrelinhas deste movimento. Na lista de mais de 170 subscritores iniciais constam dois nomes da direção socialista: Luís Soares, secretário nacional de Carneiro para a organização, e Filipe Santos Costa. Está ainda o vice da bancada parlamentar, António Mendonça Mendes.

O presidente do Instituto garante mesmo contar com o “entusiasmo” de Carneiro e que esta “não é uma divisão no partido. É um conjunto de militantes do PS que, para além da sua intervenção nos órgãos do partido, querem juntar-se a outros independentes.” E quando questionado se sente que não há, neste momento, espaço de debate no partido, o deputado responde prontamente que José Luís Carneiro lhe dá “todo o espaço para participar, mas isso não anula a importância de haver um espaço destes”. Tenta estancar interpretações divisivas nesta iniciativa que lidera e procura focar na necessidade de existir uma “infraestrutura de pensamento” à esquerda “com mais liberdade e outra dinâmica que um partido não pode ter pela sua natureza”.

A inspiração veio, curiosamente, da direita, mais concretamente do Instituto Mais Liberdade que foi lançado em 2021 sob a liderança de Carlos Guimarães Pinto, então ex-presidente da Iniciativa Liberal. Consolidou-se como uma rede de personalidades da direita liberal vindas sobretudo da IL, mas também do CDS (Adolfo Mesquita Nunes) e do PSD. Na altura, este grupo apareceu com gráficos marcantes a converter dados complexos numa linguagem simples e direta para demonstrar um ponto de vista. No caso da carga fiscal, por exemplo, que, desde 2010, cresceu muito mais do que o PIB, enquanto o rendimento líquido médio praticamente estagnou.

Costa Matos ficou com vontade de responder na mesma moeda e foi assim que o Instituto Progresso começou a ganhar forma: “Senti a necessidade de fazer um think-tank para trazer à geração mais qualificada de sempre uma nova dimensão de medidas”.

“Mais do que um think-tank, um do-tank”, dita o Manifesto

O manifesto fundador apresenta os seus subscritores como defensores de “um progressismo assente nas liberdades individuais, no crescimento económico inclusivo e sustentável, no desenvolvimento dos mercados e na correção das suas falhas, na rejeição de populismos iliberais e de guerras culturais importadas. Acreditamos num Estado mais eficiente, estrategicamente capaz e orientado para o longo prazo, apto a planear, executar e avaliar políticas públicas com rigor, estabilidade e visão de futuro.”

Propõem-se a seguir uma metodologia inovadora que descrevem como “mais do que um think-tank, um do-tank”, que integra “análise e implementação” de medidas concretas que propõe, através de parcerias com “empresas, municípios, escolas, academia e sociedade civil”. Estas parcerias ainda estão em negociação, mas a ideia é conseguir aplicar nesses meios algumas das propostas que vierem deste laboratório de ideias. A ideia, consta no Manifesto do IP, é poder “experimentar, calibrar e validar soluções antes da sua adoção em maior escala”.

O financiamento do IP também está ainda assente nas quotas dos associados e donativos, com Costa Matos a dizer que ainda procuram mecenas que possam querer juntar-se ao movimento que descreve como “inovador para testar políticas públicas”.

Quem subscreve e quem dirige (a génese nos gabinetes de Costa)

Na lista de subscritores, além dos nomes já referidos e de vários independentes, estão também ex-governantes, como a antiga ministra da Presidência do primeiro Governo de Costa, Maria Manuel Leitão Marques, Mário Campolargo, que foi secretário de Estado da Digitalização e Modernização Administrativa ou Catarina Marcelino, que foi secretária de Estado para a Cidadania e para a Igualdade.

Também lá está o nome de Fernando Araújo, que foi cabeça de lista pelo Porto nas últimas legislativas, nas listas feitas pelo líder do PS Pedro Nuno Santos, e foi o primeiro diretor executivo do SNS (saiu quando entrou o primeiro Governo de Montenegro). Outro independente subscritor é o ex-bastonário dos Psicólogos Francisco Rodrigues.

A deputada e líder da JS, Sofia Pereira, também assina o manifesto, bem como Paulo Lopes da Silva, o deputado socialista que foi o diretor da campanha presidencial de António José Seguro. Aliás, o Presidente da República foi um dos elementos contactados por Costa Matos, nas diligências que fez para montar o IP, e ficou prometida uma audiência em Belém com membros da direção, que ainda não tem data marcada. Há dois elementos que fazem parte da sua Casa Civil que também estão entre os subscritores: Ana Santos Pinto (que foi secretária de Estado da Defesa Nacional entre 2018 e 2019) e Gustavo Cardoso (que já tinha sido consultor do Presidente Jorge Sampaio).

Costa Matos é o presidente e o advogado Bruno Matias é o diretor-geral. No passado esteve no Ministério da Agricultura (onde foi chefe de gabinete de Maria do Céu Antunes) e em várias secretarias de Estado dos três governos Costa. No departamento dedicado às políticas públicas estarão André Santos Pereira que é professor no ISCTE-IUL, foi adjunto de Duarte Cordeiro nos Assuntos Parlamentares e chefe de gabinete da secretária de Estado da Habitação. Será o diretor de políticas públicas, acompanhado no departamento por Luísa Ribeiro Lopes, a diretora de Digital e Inovação, e é presidente do conselho diretivo da Associação DNS.PT.

No departamento de operações e desenvolvimento estará Joana Drummond Borges, que trabalhou com Augusto Santos Silva tanto no seu gabinete de presidente da Assembleia da República como também nos Negócios Estrangeiros, e também Pedro Espírito Santo, assessor político do Comissário Europeu Jozef Síkela — o comissário é do PPE, mas o assessor é socialista, tendo trabalhado nos gabinetes de Tiago Antunes (foi adjunto do primeiro-ministro e secretário de Estado dos Assuntos Europeus), nos governos de António Costa. E foi mesmo o diretor de campanha de Marta Temido, nas últimas europeias. Neste departamento estarão ainda Frederico Serras Gago, economista e investidor, e Alexandre Meireles, que foi diretor da Associação de Jovens Empresários.

No departamento de comunicação e formação estarão três consultores de comunicação, todos eles também com passagens, nos últimos anos, por gabinetes governamentais PS: Francisco Themudo, que esteve ligado ao Ministério da Economia entre 2019 e 2024; José Pedro Mozos, que esteve nos gabinetes de Tiago Antunes; Joana Portugal, que foi assessora na Secretaria de Estado para a Cidadania e a Igualdade e, mais tarde, na Digitalização e Modernização Administrativa.

Cozinhado no caldeirão socialista, o think tank pretende agregar pessoas “do centro até à esquerda”, descreve Costa Matos que, quando questionado sobre se é um laboratório para uso próprio, dispara que “é para transformar o país, ter ideias e pessoas preparadas para transformar o país para qualquer Governo que queira implementar políticas progressistas. Terá o nosso apoio e parceria”, promete.

[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]