Luís Marques Mendes está de regresso esta quarta-feira a um dos principais palcos do PSD, a Universidade de Verão, mas com uma garantia: não volta a candidatar-se a um cargo político. O antigo líder do PSD, sabe o Observador, pretende, no entanto, retomar no final do ano a sua intervenção no espaço público e mediático, com o regresso ao comentário político numa televisão. O comentador Marques Mendes admite voltar, em princípio, já no final do ano, mas a política ativa é um capítulo encerrado.
Marcelo Rebelo de Sousa — quando fez a última visita, alegadamente para todo o sempre, à Universidade de Verão há um ano — decretou que a Carlos Coelho, o reitor da UV, “não se recusam convites”. Mendes aceitou participar esta quarta-feira naquela que é a segunda metade da rentrée laranja, mas só o fez em circunstâncias muito especiais. O jantar-conferência em que participa funcionará como uma homenagem do PSD a Francisco Pinto Balsemão. E terá dois oradores: Maria João Avillez, que falará na vertente do Balsemão jornalista, e Mendes, que falará na vertente de político. Os alunos têm total autonomia para escolher as questões pelo que será provável que o ex-líder do PSD tenha de arranjar forma de contornar questões sobre política interna ou mesmo sobre a sua derrota presidencial.

Depois das eleições de janeiro, Luís Marques Mendes afastou-se do espaço público, mas voltou ao escritório de advogados logo em março. Na altura, a Abreu Advogados explicou que o ex-líder do PSD ia regressar às funções que tinha de consultor sénior e membro do Conselho Consultivo. Houve algumas exceções em que marcou presença no espaço público e mediático, como um artigo de opinião no jornal Público a opor-se à revisão da Constituição, em abril, outro que escreveu no Observador sobre a distinção europeia a Cavaco Silva, em maio, ou ter ido comentar o Mundial de Futebol, no final de junho, na CNN Portugal.
Paralelamente, sabe o Observador, continua muito atento à situação política nacional e internacional. Assiste — naturalmente, a partir da televisão — a intervenções partidárias, a congressos e continua a tirar apontamentos com reflexões sobre cada tema, até porque lhe pode ser útil no regresso ao comentário. Marques Mendes tem, no entanto, evitado ao máximo fazer declarações públicas sobre política interna. Tem até um olhar crítico sobre algumas das situações que estão a ocorrer no atual Executivo, mas prefere guardar essas opiniões para o bloco de notas e para as conversas entre amigos. Também não deixa de dizer o que pensa a Montenegro, caso o primeiro-ministro lhe pergunte, uma vez que tem uma regra desde sempre: só dá conselhos a quem os pede.
Marques Mendes tem realizado algumas conferências pelo país, participado na apresentação de livros e realizado sessões em escolas. No entanto, opta por não publicitar nenhuma dessas intervenções. Não havendo comunicação social, é como se não existisse. O destaque mediático, de contrafogo ao Governo, que é dado às sessões de Passos Coelho é para Mendes mais uma prova de que se deve resguardar para evitar ter esse tipo de leituras das opiniões que eventualmente possa dar nos eventos em que participa.
“Sentimos um vazio ao domingo”. Um regresso pedido na rua
“Queremos que regresse”; “Sentimos um vazio ao domingo”; “Queremos voltar a tê-lo lá em casa ao domingo à noite”. São estas algumas das abordagens que Marques Mendes tem tido na rua. Enquanto estava de férias, quer no Algarve, quer no Norte, várias pessoas (leia-se telespectadores) o foram abordando, pedindo um regresso ao comentário. Sensível a esses apelos e também por voltar a fazer algo que gosta e que lhe está no sangue, o comentário, o ex-candidato presidencial começou a refletir sobre o regresso ao pequeno ecrã.
Se nos primeiros tempos rejeitou qualquer abordagem, nos últimos meses o antigo líder do PSD e candidato presidencial tem tido convites de canais televisivos que querem contar com ele no painel de comentadores. O antigo líder do PSD era um sucesso de audiências ao domingo à noite na SIC, mas ainda não estão negociados nem decididos os termos em que vai regressar. Não está fechado em que televisão será, se em canal aberto ou fechado, nem de forma precisa quando será. O Observador sabe, no entanto, que esse regresso pode ocorrer já no final do ano.

Quando decidiu avançar para a candidatura a Belém, Marques Mendes pensou, e chegou a verbalizá-lo, — porque estava convicto de que ganharia — que não voltaria ao comentário. Se fosse Presidente, não faria sentido. Nem durante, nem depois dessas funções. Quando o Observador acompanhou o primeiro dia do candidato, Mendes fez uma visita guiada ao escritório da sua casa. Havia duas molduras que chamavam a atenção: tinham gráficos com as suas duas melhores audiências registadas na SIC. “Sou recordista. São recordes do comentário”, disse na altura ao Observador.
Os 1,7 milhões de telespectadores da melhor audiência de sempre — que está numa moldura ao lado de outras de Mendes com Sampaio, Cavaco, Marcelo ou até o Papa João Paulo II — teriam sido suficientes, se convertidos em votos, para ter vencido a primeira volta (curiosamente o valor de 1,7 milhões corresponde ao resultado de Seguro). Se o sucesso eleitoral ficou aquém, o ex-candidato tem um histórico de resultados como comentador que — não ignorando que as circunstâncias não são hoje as mesmas — o torna num seguro ativo televisivo.
Vice-primeiro-ministro? “Um disparate”
A derrota das Presidenciais foi dura. Em política ganha-se e perde-se, mas como chegou a liderar as sondagens tornou ainda mais dolorosa a queda. Para Marques Mendes está por isso claro, e tem partilhado isso mesmo com amigos, que não se voltará a candidatar a qualquer cargo político. “Já tive a minha dose”, comentou com amigos.
Na sequência dos sobressaltos da pasta da Administração Interna, o nome de Marques Mendes foi sendo falado em painéis de comentário. Primeiro para substituir Maria Lúcia Amaral e, nos últimos tempos, para o lugar de Luís Neves. O antigo dirigente do PS Ascenso Simões escreveu mesmo um artigo de opinião no semanário Expresso a defender que Luís Montenegro devia “ponderar convidar Mendes para ser vice-primeiro-ministro com a pasta da Administração Interna, Regiões Autónomas e Autarquias Locais.” Seria, diz o socialista, “um ministro de profundidade que ouvisse o país, que levasse o país ao centro do poder.”

A ideia de Ascenso não tem, como o próprio assume na mesma crónica, grande caminho para percorrer. No PSD ainda são mais vocais a destruir a sugestão. Um dirigente social-democrata diz ao Observador que a ideia é “um absoluto disparate”. Uma outra fonte da AD diz que “não faz, naturalmente, sentido, até por respeito ao passado de Mendes, ele voltar a um cargo político”. E acrescenta: “Mesmo o Conselho de Estado, onde ele se encaixava bem, tornou-se um sítio estranho para ele estar depois de ser candidato derrotado por um Presidente que preside a esse órgão”. A política, pelo menos como protagonista (que o comentário é uma forma de fazer política), é mesmo um capítulo encerrado. Esta quarta-feira à noite ver-se-á, em Castelo de Vide, se consegue resistir à tentação de falar de política.
[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]