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(A) :: Este governo está sempre a esconder-se debaixo da cama

Este governo está sempre a esconder-se debaixo da cama

Os protestos depois de se conhecer o estudo sobre as pensões assustaram o governo, que fugiu tomado por tremeliques e suores frios. Montenegro guardou a ambição na mesma gaveta onde esconde a coragem.

Miguel Pinheiro
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Ronald Reagan, Margaret Thatcher e, claro, Cavaco Silva gabavam-se, com razão, de terem a capacidade quase sobrenatural de falar diretamente com os eleitores. Cavaco até gostava de notar que não dedicava um único minuto do seu dia a ler jornais ou a falar com jornalistas. De facto, não havia motivos para perder tempo com essa gente pouco confiável quando podia, simplesmente, por atos, palavras ou omissões, comunicar os seus planos a cada português sem intermediários e convencê-lo de que ele, e só ele, era portador da razão. Um político que tenha a capacidade mediúnica de fazer isso é um líder; um político que não a tenha é um gestor de economato ou um fiel de armazém.

Luís Montenegro tem proclamado inúmeras vezes que, quando for grande, quer ser igual a Cavaco Silva; mas, desgraçadamente, o tempo passa e ele não consegue, de maneira nenhuma, ser igual a Cavaco Silva. Em vez de falar com os eleitores ignorando os jornalistas, Montenegro queixa-se dos jornalistas que não o ajudam a falar com os eleitores. No seu discurso da rentrée, lacrimejou sobre uma nova “espécie de censura moderna” em que “as pessoas só conhecem, sabem e debatem os assuntos mais polémicos”, deixando “aquilo que é mais importante escondido em notas de rodapé ou mesmo omitido dos grandes espaços de veicular e comentar a informação”.

Este queixume tem especial graça porque o primeiro a “esconder” aquilo que “é mais importante” é o próprio Luís Montenegro. Esta semana, o grupo de trabalho que foi nomeado por este governo para estudar as pensões apresentou as suas esforçadas conclusões e, subitamente, uma parte do país entrou em apoplexia. O PS, o PCP, o BE, o Livre e o Chega, coitados, não acreditam que temos um problema na nossa segurança social. A diferença entre o último salário e a pensão efetivamente paga a quem se reforma é cada vez maior, mas aqueles dirigentes partidários, estando habituados a viver em Marte, ainda não deram por nada. Eles rasgam a camisa e arrancam os cabelos de cada vez que falam sobre os pensionistas, mas tudo indica que nunca se terão dado ao trabalho de falar com os pensionistas. Qualquer reformado lhes poderia explicar em dois minutos (ou, aos mais espessos, em três) que não faz sentido insistir na ideia extraordinária de que o sistema de pensões dá lucro quando as pensões deles lhes dão prejuízo.

Lamentavelmente, estes protestos dos partidos assustaram o governo, que foi mais uma vez a correr esconder-se debaixo da cama, tomado por tremeliques e suores frios. O relatório completo ainda nem era conhecido e fontes oficiais próximas do primeiro-ministro já estavam a jurar, enquanto se aspergiam com água benta, que Luís Montenegro não pretendia fazer qualquer reforma estrutural do sistema de pensões. É uma deprimente confissão de incompetência e de impotência: o primeiro-ministro sabe que temos um problema, mas decide não fazer nada para o resolver porque se sente incapaz de conseguir o apoio dos eleitores. Uma pessoa, legitimamente, é tomada pela suspeita de que Luís Montenegro tinha a ardente ambição de ir para o palacete de São Bento apenas para exercer a anódina função de abrir a porta de manhã e apagar as luzes à noite, evitando a todo o custo cruzar-se com chatices, com dificuldades ou com adversidades.

A desculpa para este comportamento temeroso é sempre a mesma: sem uma maioria no Parlamento, o governo tem de negociar; tendo de negociar, precisa de ceder; precisando de ceder, é obrigado a guardar a ambição na mesma gaveta onde esconde a coragem. Quando, na festa do Pontal, alguém lamentou o facto de o PSD não ter uma maioria absoluta, Luís Montenegro tranquilizou-o: “Não é nenhum drama, não é nenhum drama”. O primeiro-ministro acha que podemos dar-nos ao supremo luxo de ter calma porque, como dizia alguém, é apenas um pouco tarde. Claramente, não lhe passa pela cabeça que, na realidade, talvez seja já demasiado tarde — para nós, tristemente, mas, convém notar, para ele também.