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"Considero-me russo". Os ucranianos capturados a lutar pelo lado de Moscovo que não se arrependem

Cresceram em território ucraniano ocupado desde 2014, sob influência russa. Lutaram contra o país e hoje são prisioneiros de guerra na Ucrânia. Continuam a referir-se a Putin como "meu Presidente".

Manuel Nobre Monteiro
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Num campo de prisioneiros de guerra no oeste da Ucrânia, entre homens capturados enquanto combatiam pelas forças russas, estão também ucranianos que decidiram lutar pelo lado de Moscovo. Muitos nasceram em territórios ocupados pela Rússia desde 2014 e cresceram sob a influência das políticas do Kremlin.

Anton, um deles, conta à BBC que tinha apenas dez anos quando a região do Donbass, onde vivia, passou para o controlo das forças russas. Em 2022, quando a guerra em larga escala começou, completou 18 anos e alistou-se no exército para combater as forças ucranianas.

“Não me arrependo da minha escolha. Fui defender a minha terra“, afirmou ao jornal britânico. Segundo Anton, também vários dos seus amigos se voluntariaram. “Depois começam a chegar as mensagens. Morto, morto, morto”, explicou.

O jovem, agora com 22 anos, disse que muitos dos homens com quem foi combater já morreram. Outros prisioneiros, ouvidos no mesmo campo, relataram o mesmo e afirmaram que está cada vez mais difícil encontrar voluntários para substituir os soldados mortos, apesar dos elevados pagamentos oferecidos a quem se alista.

https://observador.pt/2024/01/15/russia-esta-a-alistar-no-exercito-mil-voluntarios-por-dia-afirma-kiev/

Quando a Ucrânia captura cidadãos ucranianos no campo de batalha que combatem pela Rússia, estes são julgados por traição. Depois, são enviados para os mesmos campos de prisioneiros que os militares russos.

Oficialmente, Kiev continua a considerá-los cidadãos ucranianos, encarando o controlo russo sobre os territórios ocupados como temporário. Mas a realidade é mais complexa: “São muito pró-russos e a sua identidade nacional está muito difusa”, explicou Petro Yatsenko, responsável pela coordenação dos prisioneiros de guerra.

Mas Anton não se considera um traidor. “Considero-me russo. Um país não significa nada, tudo tem a ver com a nacionalidade. Toda a minha família é da Rússia. Todas as minhas raízes são de lá”, explicou à BBC. O facto de ter um apelido ucraniano não altera a sua visão, uma vez que cresceu numa região ocupada por Moscovo, sob um sistema educativo e meios de comunicação controlados pela Rússia, onde as autoridades de Kiev são apresentadas há anos como “ilegítimas”.

Anton diz que se refere a Vladimir Putin como “meu Presidente” e defende que o líder russo deve continuar a tentar conquistar o restante território do Donbass, apesar do elevado número de mortos provocado pela guerra. “É uma pena que tenham morrido pessoas, especialmente aquelas que são inocentes”, admitiu, acrescentando que “a guerra podia ter acabado, mas ninguém quis fazê-lo”.

https://observador.pt/especiais/donbass-a-regiao-historicamente-russa-para-putin-que-pode-abrir-caminho-a-uma-nova-invasao-se-a-ucrania-a-perder/

“Já fiz a minha parte para defender a pátria”

No mesmo complexo está, também, Artyom. O ucraniano, natural de Donetsk, combateu apenas dois meses. Foi o suficiente para ficar com mazelas. Tal como Anton, decidiu voluntariamente juntar-se às forças russas, embora diga que não o fez apenas pelo dinheiro. “Temos os nossos próprios ressentimentos“, contou à BBC, recordando os combates de 2014, quando o exército ucraniano tentou impedir a separação da região de Donetsk.

A experiência no exército russo deixou-o, porém, desiludido. Descreveu o comandante como “mau” e afirma que nunca recebeu os 400 mil rublos (cerca de 4.100 euros) prometidos pela assinatura do contrato. Para agravar a situação, explicou que um soldado russo ferido que estava na cama em frente à sua recebeu cinco vezes mais.

Entre os prisioneiros está também Sergei, nascido em Luhansk, no leste da Ucrânia. Diz considerar-se russo, à semelhança dos pais, que se mudaram para o Donbass quando a Ucrânia e a Rússia ainda faziam parte da União Soviética. Alistou-se no exército de Moscovo há uma década “para defender a pátria”, mas garantiu que não pretende regressar ao combate quando for libertado. “Já fiz a minha parte”, afirmou ao jornal.

Konstantin, por seu turno, era traficante de droga e alistou-se para evitar uma longa pena de prisão. “Para mim, 15 anos de prisão era demasiado”, explicou. “Sei que provavelmente isso não me desculpa, mas é um facto. Tenho 44 anos, teria 60”. Decidiu, portanto, combater contra o seu país.

Combater os ucranianos? Esta é uma pergunta “provocatória”

Questionado pela BBC sobre o facto de ter combatido outros ucranianos, Sergei considera a pergunta “provocatória” e recusa responder. Já Konstantin é mais cauteloso: “Não vejo nada de bom em nenhuma guerra e, numa guerra como esta, não pode haver nada de bom a priori“, afirmou.

Nenhum dos dois acredita que a guerra vá terminar em breve. Sergei e Konstantin entendem que Putin não deverá parar enquanto não controlar todo o Donbass. “Mas toda a gente que conheço lá já está farta”, disse Konstantin, sublinhando que só quer “que isto acabe o mais rápido possível”.

No campo, os prisioneiros recebem refeições e trabalham em oficinas. A reportagem do jornal britânico mostra que alguns soldados fabricam árvores de Natal artificiais, enquanto outros constroem caixões de madeira. Dizem utilizar o dinheiro que recebem pelo trabalho para comprar comida e cigarros.

Para Kiev, a principal prioridade, segundo os prisioneiros, é utilizá-los nas negociações para recuperar os soldados ucranianos. Mas os homens naturais do Donbass dizem sentir que têm pouca importância para Moscovo. “Só cerca de uma dúzia foi transferida este ano. Parece que não querem trocar-nos. Acho que seremos os últimos a sair”, lamentou Konstantin.