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Mulheres conservadoras

Eu não sei o que são mulheres conservadoras, o que sei é que não me sinto nada confortável numa sociedade que quer ostracizar pessoas pelo simples crime de pensar e dizer coisas diferentes das minhas

Henrique Pereira dos Santos
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Confesso que o feminismo clássico me parece, em grande parte, um anacronismo, nas nossas condições (noutras regiões do mundo não é assim).

No essencial, as mulheres têm hoje as mesmas oportunidades que os homens e o meu interesse por essas discussões pouco passa da leitura dos óptimos artigos que Patrícia Fernandes tem escrito sobre o assunto.

Há diferenças entre mulheres e homens, incluindo as que resultam de cérebros que evoluíram durante milhares de anos com objectivos diferentes, que se reflectem no dia a dia, incluindo nas opções que cada um faz e na forma como os outros olham para cada um de nós.

A evolução biológica foi seleccionando os mais aptos – não os mais fortes, não é demais salientar esta diferença essencial na base das teorias evolucionistas – para sobreviver e se reproduzir, tanto no caso das mulheres como no dos homens, mas as oportunidades de reprodução e transmissão de genes são poucas nas mulheres e são virtualmente infinitas nos homens.

Não é, pois, de estranhar que as mulheres estejam mais aptas a manter as suas crias vivas.

O que, até muito tarde, implica a sobrevivência das mães porque as nossas crias são praticamente fetos externos, inacabados, que precisam de um longo período de cuidados parentais para aprender coisas básicas como ver, andar e procurar comida (umas horas depois de nascer, um potro consegue correr pelo prado, nós não).

Os homens, pelo contrário, podem assegurar a transmissão do seu património genético multiplicando os filhos, sem cuidar muito de saber se a maioria deles morre entretanto, o que significa que a evolução os tornou mais aptos para a reprodução em série do que para os cuidados parentais que asseguram a sobrevivência dos filhos.

Partindo do princípio de que o que é natural é intrinsecamente melhor e deve ser a norma, o que acabei de escrever parece uma defesa da desigualdade de oportunidades entre homens e mulheres e uma defesa de que o papel das mulheres é estar em casa a tratar dos filhos.

Mas não é, porque não perfilho esse princípio, não há nada de intrinsecamente melhor no parto com dor em relação ao pouco natural parto sem dor.

Não há nada de intrinsecamente melhor na natural elevada mortalidade de mulheres no parto e da mortalidade infantil que na artificialidade que nos permite ter muito menos mulheres a morrer no parto e uma taxa de mortalidade infantil que mais nenhuma espécie deve ter.

Não há nada de intrinsecamente melhor na dificuldade de controlo da reprodução que na capacidade que hoje temos de escolher quando ter filhos e quando não os ter.

Poderia continuar a dar exemplos de como o fino verniz da civilização é incomparavelmente melhor que a brutalidade e violência naturais.

E há, para além disso, um outro aspecto relevante: uma coisa é dizer que, nos grandes números e no tempo longo, mulheres e homens evoluíram – incluindo os seus cérebros – tendo contextos diferentes, de que resultam diferenças substanciais entre mulheres e homens, outra coisa é dizer que cada pessoa, por ser homem ou mulher, é assim ou deve ser assado.

Independentemente de, em grandes números, as mulheres escolherem profissões mais ligadas às pessoas (incluindo as que escolhem dar prioridade aos filhos sobre a carreira) e os homens escolherem profissões mais ligadas a coisas, cada pessoa deve poder escolher o que bem entender, pelas razões que entender, sem ter de se conformar com o que outros poderiam achar a escolha mais natural.

Por tudo isto, não dei muita atenção a um encontro de mulheres conservadoras – dificilmente seria assunto que me interessasse, a menos que fosse convidado a estar nesse encontro – e não me dei ao trabalho de ouvir um debate que houve entre duas mulheres com posições diferentes em relação a quase tudo, incluindo o aborto.

Uma coisa, no entanto, me impressionou: a quantidade de gente civilizada, informada, racional, que dedicou algum tempo ao assunto, concluindo que era inaceitável que uma das senhoras fosse contra o aborto, mesmo em caso de violação, considerando que ter esta opinião estava para lá do aceitável e ofendia valores civilizacionais inegociáveis.

Esta mania de pôr limites às opiniões dos outros irrita-me profundamente, mesmo quando diz respeito a coisas que para mim não fazem sentido nenhum.

Ser racista ou defender a eugenia, hoje, no Ocidente, ou a subalternidade das mulheres e coisas assim, é para mim incompreensível, mas toda a gente deve ter o direito a defender o que entender, mesmo que para mim essa defesa seja incompreensível (sim, incluo os que estão quase 200 anos atrasados e continuam a defender que a propriedade é o roubo).

A discussão sobre o aborto, no entanto, não é tão simples como a discussão sobre o racismo, de tal modo que são muito raros os sítios em que um aborto pode ser feito até à véspera do parto (e estão hoje quase abandonadas no mundo práticas ancestrais como o abandono ou morte misericordiosa de velhos ou crianças não desejadas).

Mesmo entre as pessoas que defendem que o aborto é um direito absoluto da mãe (como se não houvesse pai), desconsiderando totalmente os direitos do nascituro, raramente defendem a liberdade de abortar até à véspera do parto.

Compreende-se que assim seja, o aborto, natural ou não, sempre foi considerado uma perda, até há muito poucos anos, geralmente reconhecia-se a existência autónoma do nascituro.

Ao mesmo tempo, a sociedade reconheceu os riscos sociais associados ao aborto feito de formas primitivas, fora de um contexto médico, tornando o choque de direitos da mãe e da família e do nascituro particularmente evidente.

Pretender que, neste contexto, não se pode defender, bem ou mal, que reconhecer a existência autónoma do nascituro implica defendê-lo como se defendem os mais fracos e os que não têm voz, associando estas ideias a uma espécie de atraso mental (sim, eu sei que ninguém diz isto com esta crueza, mas todos ouvimos para lá do que é literal), é bastante estranho para mim.

Eu não sei o que são mulheres conservadoras, suspeito até que as há muito diferentes entre si, defendendo muita coisa diferente, mesmo que se reconheçam numa matriz ideológica comum (e nem todas se reconhecem), o que sei é que não me sinto nada confortável numa sociedade que pretende ostracizar pessoas pelo simples crime de pensar e dizer coisas diferentes das minhas.

Não me parece saudável.