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(A) :: Segues esta conta desde que est@ gaj@ pediu para te seguir

Segues esta conta desde que est@ gaj@ pediu para te seguir

Deixar de seguir, fazer “unfollow” ou “dessubscrever” podem ser dos mais lúcidos gestos contemporâneos, mas aplicam-se como defesa do cidadão inundado por coisas que não subscreveu

Alexandre Borges
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Talvez não exista uma palavra certa. Os “amigos” do Facebook eram, claramente, de mais; as “conexões” do Linkedin o fruto do amor impossível entre o encaixe de uma máquina e o esoterismo de um sentimento de ligação inexplicável. De modo que, algures entre uns e outros, triunfou, por todo o Instagram e afins, o verbo “seguir” e respectivo campo semântico. Segue-se e é-se seguido – uma maravilha para um vasto campo de personalidades, dos voyeurs aos narcisistas. Mas, se já temos falado abundantemente dos perigos de seguidistas e “influenciadores”, há, neste ecossistema moderno (para usar um termo muito da moda), um subtipo ainda pouco dissecado: o do fulano ou fulana que pediu para nos seguir; a quem, por simpatia, mera cortesia, compaixão ou simples ideia de reciprocidade, seguimos de volta; e que, depois, pela calada, deixa de nos “seguir”.

Deixar de seguir, fazer “unfollow” ou “dessubscrever”, se é que a palavra existe, podem ser dos mais lúcidos gestos contemporâneos, mas aplicam-se como defesa do cidadão inundado por coisas que, justamente, nunca subscreveu. Comunicações de empresas, publicidade, marketing pessoal e “recomendações” do algoritmo em geral com que nos atulham o ecrã do telemóvel e a caixa de correio porque, algures, alguém, vendeu ou pirateou os nossos contactos. Coisa diferente é solicitar qualquer coisa para, logo de seguida, a deitar fora. Como quem convida para almoçar e não aparece. A criança birrenta e o seu “agora já não quero”.

Este subgénero de habitante digital consegue juntar o pior do narcisista ao pior do voyeur. É o voyeur que te dá tampa. O tarado que quer que tu espreites pela fechadura. Poderia ter perdido o interesse na figura que decidira seguir; ter descoberto que, afinal, não publica nada que lhe interesse; ter compreendido que, no fim de contas, nada os liga, que não a quer no seu mundo, como quem troca de restaurante, de ginásio, muda de disco ou de canal. Mas não. Ele não corta relações, não elimina a ligação; limita-se a cortar um dos fios, a deixar de seguir o outro, deixando que o outro, que nunca solicitou nada, o continue “a seguir”.

Quem corta relações, continua a tratar o outro como outro, como pessoa, de igual para igual. Já o fulano que pede para seguir, mas, na verdade, quer é ser seguido, reduz o outro a uma unidade numérica, a um suposto consumidor, cliente, um admirador não se sabe de quê, um seguidor não se sabe para onde. Porque, certamente por alguma infeliz coincidência, calha este tipo de pessoa não ter em geral nada para dizer, nada para mostrar. Visitam-se as páginas ou perfis que, tão avidamente, querem que sigamos e não se descobre lá nada, uma ideia, uma perspectiva, uma originalidade, quando muito meia dúzia de partilhas de outros e recordações pessoais certamente de enorme interesse para os próprios. Simplesmente querem seguidores porque talvez faça parte da fórmula da felicidade que julgam ter decifrado no mundo contemporâneo: número de seguidores = sucesso = felicidade. Então, como diria a outra nos anos 90, porque é que parecem tão tristes? (Sim, amig@ leitor@, acabámos de citar Sheryl Crow. É Agosto, tenha piedade.)

Não sei se é o último degrau de um longo caminho de descida desde o Olimpo, mas estamos, certamente, lá perto. Na Antiguidade, adoravam-se os deuses; de vez em quando, metiam-se com os humanos, mas os filhos dessas relações, os típicos heróis da tragédia, mesmo com os seus poderes especiais, continuavam a perder sempre contra eles. O Cristianismo foi talvez o primeiro momento em que o além tentou ser apenas “normal”: era Deus que se fazia homem. Passámos aos descendentes de reis e imperadores, em cujo sangue correria uma natureza especial, quantas vezes ainda caucionada, na origem, por uma escolha celeste. Até nos desprendermos de vez da metafísica e tomarmos, destemidamente, a liderança do rebanho com comandantes cada vez mais terrenos: artistas, desportistas, quem quer que fosse como nós, mas, sendo-o, exibisse ainda a capacidade de nos inspirar a ser algo mais, chegar mais longe.

Até que até isso se tornou condenável. Exibir um talento com que se nasceu passou a ser um incómodo deselegante, um gesto presunçoso, censurável. Todos tinham de ter à força lugar no Olimpo, no pódio, no púlpito, no ecrã. Os reality shows celebraram a conquista do espaço mediático pelo homem banal, cuja grande qualidade consistia precisamente em ser igual aos outros; as redes sociais fizeram o resto. Não há hoje político que aspire a liderar um país que não se tente apresentar à força como “um de nós”.

@ gaj@ que pediu para o seguir, mas queria era ser seguid@ é o último andamento da peça. Seguimos a multidão. O público. A assistência. Olhamos para quem está a olhar, sujeitos objectificados, estranha tentativa de resolução do paradoxo identificado por Sartre n’ O Ser e o Nada. Ficou o nada. O nada venceu. É muito resistente. O que resta, depois de tudo arder.

E uma pessoa com tão pouco tempo e tanta coisa para ler na estante.