O que tem acontecido em Ceuta desde o fim de Julho mostra, antes de mais, a incapacidade do Estado espanhol de proteger as suas fronteiras. Se fosse capaz, ninguém teria entrado ilegalmente em Ceuta. Assistimos também ao aumento da insegurança em Ceuta, com ataques aos cidadãos locais (incluindo tentativas de violações a menores de idade), furtos e assaltos a lojas.
Por fim, o PM espanhol, Sánchez, demonstrou, mais uma vez, a sua total irresponsabilidade política. Há uns meses, anunciou a legalização de cerca de meio milhão de imigrantes ilegais. Os pedidos de legalização já passaram de um milhão. Ninguém sabe onde vai parar. No caso de Ceuta, desapareceu no meio da crise. Ninguém sabe o que está a fazer. Convém notar que não há aqui uma divisão entre a direita e a esquerda. Meloni atacou Sanchez, mas a PM dinamarquesa também o fez e pertence à família política dos socialistas. É verdade que em regra os governos das esquerdas têm mais responsabilidades sobre a imigração ilegal. Mas há excepções que devem ser notadas e elogiadas, como o governo da Dinamarca.
Noutros países europeus os partidos de direita também foram responsáveis pelo aumento da imigração ilegal, como aconteceu com os governos conservadores no Reino Unido. Entretanto, a actual liderança conservadora já mudou de posição, defendendo o fim da imigração ilegal. Mas o governo trabalhista continua a ser incapaz de resolver a imigração ilegal. Desde que os trabalhistas chegaram ao poder, em 2024, a imigração ilegal aumentou no Reino Unido. Hoje, entram no Reino Unido cerca de 60 mil imigrantes ilegais por ano. O número total de imigrantes ilegais no Reino Unido está na ordem de um milhão. São expulsos do Reino Unido cerca de 10 mil imigrantes ilegais por ano. Se deixassem de entrar novos imigrantes ilegais no Reino Unido (um enorme SE), a este ritmo de 10 mil por ano, seria necessário um século para acabar com a imigração ilegal. Eis o retrato de um país incapaz de garantir a segurança das suas fronteiras e de impor a lei.
Mais, a maioria dos deputados trabalhistas e dos ministros do governo não querem resolver o problema da imigração ilegal porque não querem adoptar políticas defendidas por Farage. Num debate recente com um conservador, uma figura relevante do partido trabalhista, Alastair Campbell, apesar de concordar em geral com a necessidade de combater a imigração ilegal, foi incapaz de defender a expulsão de imigrantes ilegais, justificando a sua posição com a seguinte frase: “não estão à espera que eu defenda as mesmas políticas de Farage.” Quando se chega a este ponto, a democracia já está a funcionar de um modo muito precário. Foram os pensadores britânicos clássicos que nos ensinaram que sem Estado de direito a democracia funciona mal. Hoje, o partido trabalhista prefere não cumprir a lei a ser acusado de concordar com Farage.
Os que mais sofrem com a imigração ilegal são os mais pobres, a classe trabalhadora, os antigos eleitores dos trabalhistas. Os imigrantes ilegais não são acolhidos em Hampstead ou em Notting Hill, mas em Lewisham ou em Brent.
A imigração ilegal também é, frequentemente, usada como uma arma geopolítica por aqueles que querem enfraquecer as democracias europeias como a Rússia, o Irão ou os movimentos jihadistas, ou a Irmandade Muçulmana, aliados a grupos de crime organizado que ganham fortunas com a imigração ilegal. O governo britânico e os governos europeus sabem muito bem o que se passa, e têm provas da actuação de Moscovo e de Teerão (e, por vezes, de Ancara), e dos grupos de traficantes de imigrantes ilegais. Também sabem que o objectivo é criar instabilidade e fracturas políticas que enfraqueçam os regimes democráticos. O problema não é o desconhecimento, mas sim a fraqueza e a incapacidade de impor a lei.
Enquanto os governos europeus, como o britânico, o espanhol e outros não forem capazes de travar a imigração ilegal, estão a permitir que os inimigos dos países europeus continuem a enfraquecer as nossas democracias. E se assim continuar, os eleitores britânicos, os eleitores espanhóis e os eleitores franceses darão a Farage, ao Vox e a Marine Le Pen mandatos para acabarem com a imigração ilegal. Os avisos e os sinais não faltaram, mas o tempo para agir começa a faltar.