Assim que lhe disseram que o tema era espionagem, Bruno Pernadas não teve dúvidas: a resposta era “sim”, de olhos fechados. Primeiro, há muito que queria criar a banda sonora de uma história de espionagem (apesar de já o ter feito noutra escala em Glória, a primeira série portuguesa da Netflix); segundo, há muito que queria criar a banda sonora de um Podcast Plus do Observador. Os astros ou as vontades alinharam-se e assim se completou A Vida Dupla do Espião Traidor, sobre o português que vendia segredos à Rússia e a operação internacional montada para apanhá-lo.
O músico não conhecia a história de Frederico Carvalhão Gil, mas com o briefing recebido dos jornalistas e a voz do narrador, Ivo Canelas, em mente, criou uma sonoridade dinâmica perfeita. “O tempo foi curto, mas tive a liberdade de construir algo que tivesse o ritmo que achei adequado para uma história destas”, conta ao Observador.
[o trailer de “A Vida Dupla do Espião Traidor”:]
https://www.youtube.com/watch?v=E_CPMucDuwE
Compositor, arranjador, instrumentista ou professor, a vida de Bruno Pernadas tem muitas vidas — numa outra, paralela, podia ter sido psicólogo ou até jornalista, mas a paixão que partilhava com os amigos (tocar, tocar, tocar) acabou por rapidamente passar de hobby a vocação.
Uma adolescência de prédio em prédio
As raízes da família são de Abrantes, mais precisamente da aldeia de Alvega, onde passava os longos e saudosos verões. “Eram três meses que pareciam não ter fim, éramos muito felizes”, recorda. É lá que volta religiosamente todos os anos para as festas da aldeia no final de agosto — a não ser que esteja a trabalhar, como é o caso em 2026.
Bruno Jorge de Oliveira Pernadas faz parte da primeira geração nascida em Lisboa e apresentou-se ao mundo a 9 de dezembro de 1982. Cresceu entre as portas de Benfica, onde os pais tinham uma empresa de pronto a vestir, e a Amadora, onde viviam. A irmã, Elsa, tinha 15 anos quando ele nasceu. Não partilharam brincadeiras de criança, mas foi ela que lhe mostrou artistas que o influenciaram profundamente. “Eu dava-me com os amigos dela que eram todos mais velhos do que eu. Mas foi por causa dessa convivência que tive acesso a toda a música dos anos 70 e 80. Quando falava disso aos meus amigos, eles não faziam ideia do que estava a dizer.”
Da infância guarda as memórias das festas do Casal de São Brás, que aconteciam no ringue atrás do prédio onde vivia, dos carnavais, e sobretudo das bandas de garagem. “Ensaiavamos na casa da porteira, no meu prédio. Na verdade, os amigos andavam sempre todos de prédio em prédio e muitas vezes as portas das casas estavam, todas abertas.”
Tinha 12 ou 13 anos quando começou a tocar guitarra e bateria — esta foi ficando para segundo plano por ser muito ruidosa para os vizinhos. Chamaram Crítica Real à primeira banda. “Os temas eram originais e cantávamos em português.”
Chegaram a apresentar-se na antiga FIL, o que foi um grande feito para um grupo de miúdos de 15 anos, apesar de não terem sabido capitalizar o momento. “Ofereceram-nos um cachê e eu, na minha inocência, disse que a banda ainda estava a começar e, por isso, não precisávamos de cachê. Fui um péssimo empresário, hoje vejo isso.”
Gravações desses tempos não tem, mas sabe que elas existem. “Uma vez encontrei no trânsito um rapaz que tinha andando comigo na escola e que tinha os nossos concertos gravados.” Bruno chegou a dar-lhe a morada, mas as gravações nunca chegaram.
Por essa altura fazia também natação no Sport Lisboa e Benfica. Começou para corrigir uma ligeira escoliose, mas foi subindo até aos escalões de competição, chegando a passar para o Clube de Natação da Amadora. Na escola fazia também atletismo, mas nunca gostou de provas de resistência, admite. “Gostava de coisas mais rápidas.”
Apesar disso, e de até ter ponderado estudar psicologia ou comunicação social, sabia que a grande paixão era a música e foi em frente para a Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal. Já ouvia jazz, mas sentia não ter ferramentas para entendê-lo. “Havia uma certa estranheza, que o jazz também tem, e que eu já procurava nas melodias, nos sons, na criação, nas composições, embora não tivesse qualquer ferramenta para trabalhar. Isso foi uma das razões pelas quais eu quis estudar ali.”
Quando terminou o curso, seguiu-se um ano sabático: foi viajar. Por um lado, para esvaziar a cabeça; por outro, para enchê-la com novas sonoridades e culturas. Em quase todos os países apercebia-se de que devia sair de Portugal, embora nunca tenha avançado. “É difícil escolher emigrar, porque não temos a língua e a nossa cultura, mas em muitos sítios vemos um civismo muito maior do que aqui.”
Aos 25 anos decidiu inscrever-se na Escola Superior de Música de Lisboa (ESML), mas lembra que foi difícil conciliar as aulas que já dava, os concertos e as composições. Licenciado em música na variante de jazz, estava finalmente na altura de cumprir o sonho: tocar ao vivo e compor, tão simples quanto isso. Porém, não há mundos perfeitos e com contas para pagar e as obrigações da vida adulta, Bruno teve de passar mais tempo a dar aulas para ter rendimentos que não chegavam por outras vias. “Nessa altura tinha poucos convites ou nenhuns e dar apenas aulas não era de todo o que queria para a minha vida. Gosto do ensino, mas o que acontece quando estás o dia inteiro a dar aulas, seja a iniciados, a adolescentes ou a crianças, é que chegas ao final do dia e já não queres saber de música, não queres ouvir música e, sobretudo, não queres fazer música. Estava a usar uma das coisas de que mais gosto apenas para sobreviver. Foi complexo”, recorda.
Felizmente, essa fase não durou muito e os projetos começaram a suceder-se, desde colaborações com orquestras, projetos com outros músicos ou em nome próprio. Toca guitarra, piano, baixo, sintetizadores, bateria, entre outros, e é descrito como um dos nomes mais talentosos do jazz fusion, uma vertente do jazz que vai buscar influências a outros estilos, como rock ou música progressiva. Também é um estilo que se manifestou sobretudo na década de 70. “No meu caso, não tem a ver, obviamente, com o facto cronológico, mas sim com o facto de misturar esses estilos.”
Em 2014 editou o disco de estreia, How Can We Be Joyful In A World Full Of Knowledge, mas esse não foi realmente o primeiro álbum que gravou. O primeiro, de 2008, continua na gaveta, à exceção de dois temas que partilhou online no SoundCloud. “Tinham uma mistura prematura, mas uma produtora ouviu e convidou-me para fazer a banda sonora de um filme.” Ramiro, de Manuel Mozos, chegou aos cinemas em 2018. Em 2020 assinou igualmente a banda sonora de Patrick, que lhe deu uma nomeação para um Prémio Sophia e para um Globo de Ouro.
Ainda percorrendo a discografia, 2016 teve o Worst Summer Ever e em 2021 chegou Private Reasons. Logo depois, Bruno Pernadas criou o hino das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril.

Já tinha feito alguns filmes, peças de teatro e trabalhado em diversas artes performativas, até que 2021 trouxe um convite empolgante: criar a banda sonora de Glória, uma história de espionagem passada na Guerra Fria que foi também a primeira série portuguesa a fazer parte do catálogo da Netflix.
Porém, a escala gigantesca do serviço de streaming trouxe algumas limitações.
“Havia muitas pessoas a tomarem decisões, o que limitava a liberdade criativa. No início, se calhar estava a criar coisas à escala de Hollywood e depois percebi que se calhar não era isso que eu procurava. Fiz mais de 70 composições, sem a certeza de que seriam usadas.”
Nos EUA tatuam as capas dos álbuns dele
O projeto continua a ser um marco importante no currículo de Bruno Pernadas, até porque espionagem é um tema que naturalmente o inspira, mas não foi um ponto de viragem — ou, pelo menos, não exatamente como esperava. “Se calhar, em momentos, imaginei que alguém do cinema de fora de Portugal fosse fazer um convite para fazer uma banda sonora depois de ter ouvido esta. Isso não aconteceu.”
Pode não ter havido essa causa/efeito, mas muitas pessoas foram à procura da música dele depois de verem a série. Nas estatísticas de Bruno Pernadas há um dado curioso: é que é nos EUA que tem mais ouvintes. O fenómeno vai tendo picos: Worst Summer Ever (2016), que tem pouca fusão e vai mais à raiz do jazz, é um dos mais ouvidos e o mais recente álbum, unlikely, maybe (2026) está a começar a manifestar-se. “Entre 2017 e 2023, eu recebia emails todas as semanas. Para ir tocar lá, trabalhar lá. Dei algumas entrevistas e cheguei a receber vídeos de pessoas a tatuarem capas dos meus álbuns e a tocarem a minha música em recitais de final de curso.”
Ainda assim, Bruno Pernadas nunca atuou em solo norte-americano, já que “as instituições portuguesas e americanas que existem lá nunca quiseram apoiar”. O objetivo continua presente, mas talvez precise de ser um pouco adiado: “Preferia tocar lá quando o [Donald] Trump já não estivesse no poder, mas também não sabemos o que vem a seguir”.
unlikely, maybe, o projeto mais recente de originais que agora promove, conta com a colaboração com músicos que o acompanham e é uma fusão dos anos 80, misturando música indie, pop, jazz e pop. “Não consegui criar o disco que queria inicialmente — porque tinha pensado numa residência artística com experimentação e o resultado dessa experimentação seria um disco, mas a logística implicava muito tempo para todos os envolvidos, o que não era possível — mas consegui criar muitas composições de que gosto. Portanto fizemos um disco como se faz normalmente: fizemos as músicas, ensaiamos e gravamos. E estou muito satisfeito com isso.”
Em mais uma das gavetas do estúdio há também gravações de hip hop e de rap. Para já, ainda não têm um propósito, mas ele pode aparecer a qualquer momento. “São experiências que um dia podem ser músicas ou podem fazer parte de espetáculos.”
Nos próximos meses vai ter de mudar o chip muitas vezes, começando pela atuação no festival MEO Kalorama, a 29 de agosto. Depois continua com a digressão deste último álbum pela Europa e ainda vai à Coreia do Sul tocar com um trio de jazz — toca igualmente em sexteto e continua a dar aulas no Hot Clube de Portugal.
Em 2027 tem concertos agendados para 20 e 21 de março no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Com homenagem a José Mário Branco, o CCB dá a um artista Carta Branca.
Quando Bruno Pernadas tem ideias, trauteia-as ou escreve-as no telemóvel, mas não se sente consumido pelas criações e garante que é capaz de desligar. “Não sou uma pessoa muito ansiosa e é bom limpar, é bom não ouvir música.”
Porém, a teoria é mais fácil do que a prática. “Estou sempre a ouvir música no carro, sim, mas devia limpar — é válido para várias áreas. Posso começar a ouvir podcasts.”