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Reconstituição. O primeiro soco no bar, o corpo deixado na espreguiçadeira e a captura a 150 km: como morreu Luís na Albânia

Luís morreu esfaqueado após uma "briga por uma rapariga" num bar em Ksamil. Suspeito, com cadastro em Inglaterra, foi capturado ensanguentado na mala de um carro. E garante que "a faca era da vítima".

Mariana Furtado
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Madalena Guinote Ramos
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Quando a polícia chegou de manhã, o corpo de Luís Mendes estava sobre uma espreguiçadeira na praia de Kumil, na zona turística de Ksamil, Albânia, junto ao bar Paradise. O jovem português de 20 anos foi morto durante a madrugada do dia 18 de agosto depois de ter defendido uma mulher que estaria a ser assediada, conta a imprensa local. Foi espancado por várias pessoas dentro de um bar e ferido mortalmente com uma faca na praia ao lado.

Ao Observador, o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) garante estar a “acompanhar a situação” em permanente contacto com a embaixada em Roma e o consulado honorário em Tirana. O Governo enviou as “mais sentidas condolências à família” e manifestou total disponibilidade para prestar o apoio logístico necessário, escusando-se, contudo, a revelar outros pormenores.

Integrado num grupo de franceses, Luís estaria a fazer turismo num destino que, nos últimos anos, muito tem atraído os viajantes portugueses. Ksamil fica junto ao Estreito de Corfu, entre as águas azul-claro dos mares Jónico e Adriático, e na costa sul da Albânia. Entretanto, a polícia local já deteve 11 pessoas e prossegue as buscas por outros dois suspeitos em fuga. Estão indiciados por crimes de “homicídio qualificado em coautoria”, “omissão de denúncia” e “omissão de medidas para pôr fim a um estado de ilegalidade”. O principal suspeito, um cidadão albanês com cadastro no Reino Unido, foi intercetado quando tentava escapar escondido na bagageira de um carro conduzido por uma mulher turca e ocupado por outro passageiro da mesma nacionalidade. O momento da captura de Sokrat Vata, a cerca de 150 quilómetros da praia onde Luís foi morto, ficou registado em vídeo. Sem camisa e com os calções manchados de sangue, pretendia chegar a Tirana, a capital no centro do país, segundo as autoridades.

Há, pelo menos, três momentos que culminaram na manhã em que o principal suspeito é descoberto na mala de um Ford preto: uma discussão inicial no bar do resort Principotes, a escalada de violência no areal contíguo, e o momento em que as autoridades encontram Luís sem vida sobre uma espreguiçadeira. E tudo começa com um conflito.

Madrugada de 18 de agosto. A discussão sobre uma “rapariga”, o primeiro soco e o “conluio” dos empregados no bar

“As luzes apagam-se, a noite começa”. É este o mote do programa noturno do bar La Guerre do resort Principotes em Ksamil, uma das zonas turísticas mais concorridas do sul albanês. As noites de segunda-feira, segundo o site do bar La Guerre, são exclusivas aos hóspedes do resort. Cerca das 5h da madrugada (4h em Lisboa) de terça-feira, a festa prosseguia frente ao mar, no areal salpicado pelos chapéus de sol da Algida, o nome comercial da marca de gelados Olá na Albânia. Dentro do bar, deflagra “a briga” que acabaria com a morte de Luís.

Segundo a Vox News, o confronto começa entre dois cidadãos franceses. “A briga começou por causa do assédio a uma rapariga. Várias pessoas envolveram-se no conflito. Luís interveio para acalmar os ânimos”, relataram mais tarde amigos da vítima, de acordo com o mesmo portal.

Sokrat Vata, segurança do espaço e o principal suspeito do homicídio, intervém assim que a tensão começa a escalar. O próximo será Luís — na tentativa de prestar auxílio e/ou separar os envolvidos, os relatos nos media locais dividem-se — que se torna rapidamente o alvo direto de agressões.

São 5h15 na Albânia (4h15 em Lisboa). De acordo com a cronologia fixada pelas autoridades, o primeiro soco que Luís terá sofrido é desferido por David Heurtevent (um albanês de 29 anos, com cidadania britânica, segundo avançou a Report TV) na direção da cabeça do português. Depois, em todas as outras.

De seguida, quatro empregados de mesa do estabelecimento — identificados pela imprensa albanesa como Serxhi Selimi, Ervis Bunci, Ildi Cekani e Murat Zhabina — juntam-se à agressão, com socos, ao jovem de 20 anos. Todos acabaram indiciados pelo “crime de homicídio qualificado, cometido em conluio”.

O próximo golpe já não será um soco, será antes desferido com uma arma branca. E já fora do bar.

Manhã de 18 de agosto. Corpo de Luís foi encontrado no areal junto a outro bar

David e Sokrat Vata arrastam o turista português para o exterior do bar. Para trás fica a discoteca La Guerre e a música escolhida por um DJ francês. Os dois suspeitos terão levado Luís para as espreguiçadeiras junto ao bar de praia vizinho, o Paradise. Foi aí que Sokrat Vata, munido de uma arma branca “cortante”, atacou repetidamente o jovem português. Os ferimentos revelar-se-ão fatais. Já de dia, outros turistas que se encontravam no primeiro bar disseram aos investigadores que não testemunharam o homicídio e que só se aperceberam do desfecho da altercação noturna pela manhã, com a chegada das autoridades.

O corpo sem vida de Luís permaneceu no areal, sem que nenhuma autoridade fosse notificada de imediato ou fossem chamados os meios de socorro, até ser finalmente encontrado pela polícia, pelo menos três horas depois.

Não haverá testemunhas e as imagens de videovigilância que existem são apenas do primeiro bar. Ainda assim, os registos mostram apenas os primeiros momentos da briga e, devido às pessoas que se encontravam no local, não é possível ver claramente. Além disso, o momento em que o jovem de 20 anos foi esfaqueado não foi captado pela videovigilância.

Ao Observador, o MNE assegurou estar a acompanhar o caso junto das autoridades locais e através da embaixada de Roma e do consulado honorário em Tirana (uma vez que não existe uma embaixada residente de Portugal na Albânia). “Enviámos as mais sentidas condolências à família e estamos a acompanhar todas as diligências possíveis que decorrem neste tipo de situações no estrangeiro”, refere fonte oficial do secretário de Estado das Comunidades Portuguesas.

Tarde de 18 de agosto. A fuga a 150 km da praia, a boleia de dois turcos e uns calções ensanguentados

A vila de Levan fica a cerca de 150 quilómetros a noroeste do Principotes, quase a meio caminho entre a zona costeira de Ksamil e a capital albanesa. Foi aí que o principal suspeito, que se pôs em fuga depois do crime, acabou por ser intercetado pelas autoridades horas depois da descoberta do corpo. Estava dentro do porta-bagagens de um Ford preto.

No interior do carro, seguiam dois cidadãos turcos: Ezgi Perlak, de 31 anos, ao volante, e Nuh Mahmutoglu, de 38 anos, como passageiro, indica a imprensa albanesa. Segundo a polícia local, os dois cidadãos conheciam o suspeito e o destino traçado para a fuga era precisamente a capital. Acabaram também detidos em flagrante por cumplicidade no crime.

É a cidadã turca que surge a conduzir e que mais tarde parece surpreendida no vídeo da detenção que começou a circular nos órgãos de comunicação social e nas redes sociais albanesas. Assim que várias unidades operacionais cercaram o automóvel ao som das ordens “sai daí, sai daí, deita-te no chão”, a polícia foi diretamente à bagageira. Vata estava lá dentro, deitado atrás de uma mala vermelha e coberto por uma toalha azul. Estava sem camisa, com as mãos ainda cobertas de sangue e os calções beges visivelmente tingidos de vermelho. Enquanto alguns agentes imobilizavam Vata — pouco colaborante —, outros algemavam a condutora e o passageiro.

Se Perlak tapou a boca ao ver Vata a sair, Mahmutoglu ainda resistiu antes de ser manietado e algemado. Foram eles os únicos que, no momento da detenção, decidiram prestar declarações: afirmaram ser clientes habituais do Principotes, mantendo uma relação de proximidade com Vata — a quem, inclusivamente, costumavam pagar por serviços de segurança pessoal e acompanhamento. Relataram apenas saber que tinha ocorrido uma grande briga no bar e que não sabiam que alguém tinha sido morto em Ksamil.

Em comunicado, a polícia albanesa sustenta o contrário: “Este indivíduo viajava na bagageira de um veículo conduzido por E. P., de 31 anos, cidadã turca, tendo como passageiro N. M., de 38 anos, também cidadão turco. Ambos conheciam o autor do crime e tinham-no escondido no carro com a intenção de o transportar para Tirana”.

A condenação a cinco anos de prisão no Reino Unido, a tese de que “a faca pertencia à vítima” e os polícias suspeitos

Sokrat Vata tem 29 anos e trabalhava como segurança no Principotes. Informações partilhadas pelo Albanian Daily News revelam que o principal suspeito de matar Luís viveu vários anos no Reino Unido. Em setembro de 2024, no tribunal de Cambridge Crown, foi condenado a cinco anos de prisão após ter-se declarado culpado de posse de droga com intenção de tráfico, posse de canábis, condução sob o efeito de drogas e dois crimes de condução perigosa.

A BBC noticiou que em abril desse ano, após desobedecer a uma ordem de paragem das autoridades, o albanês capotou um carro com matrícula falsa numa autoestrada inglesa, tendo conseguido escapar a pé. No interior do carro sinistrado, a polícia apreendeu diversas saquetas de cocaína e conjuntos de matrículas contrafeitas. Sem residência fixa no país, foi novamente perseguido a 30 de abril em Cambridge, quando circulava num Toyota RAV4 furtado. Acabou por ser detido quando estava escondido no quintal de uma habitação, com 560 libras (cerca de 650 euros) no bolso e mais matrículas dentro da viatura. Deu positivo num teste e a polícia acusou-o de condução sob o efeito de estupefacientes. Segundo a BBC, foi condenado a cinco anos de prisão em setembro de 2024; não é claro ainda o que levou à sua libertação pelo Reino Unido.

Depois de ter sido descoberto pelas autoridades albanesas na sequência dos acontecimentos em Ksamil, Vata rejeitou a tese de premeditação: “A faca com que o português de 20 anos foi morto pertencia à vítima”, alegou de acordo com o canal Top News. Na sua versão, o confronto terá começado entre turistas sob o efeito de álcool. Vata sustentou ainda que os envolvidos foram advertidos para manter a calma perante os restantes clientes, mas a violência física tornou-se incontrolável.

No total, 11 pessoas foram já detidas no âmbito da investigação. Entre elas contam-se três elementos das forças policiais que eram seguranças no Principotes: um agente da Direção de Polícia do Distrito de Gjirokastër, de 24 anos, um funcionário da Polícia de Imigração e Fronteiras de Fier, de 44 anos e um agente da Polícia Municipal de Gjirokastër, de 35 anos. O comunicado oficial da polícia refere que não intervieram para travar os desacatos, nem notificaram a polícia após a ocorrência.

Já o proprietário do estabelecimento Principotes, que se encontrava presente no momento do conflito, abandonou o local logo a seguir sem contactar a polícia. É, por isso, procurado pelas autoridades juntamente com David, o albanês com cidadania britânica tido como autor do primeiro soco que Luís sofreu.

Os autos do processo foram remetidos ao Ministério Público do Tribunal de Primeira Instância de Jurisdição Geral de Saranda.

Dos novos voos diretos para um destino desejado ao “verão negro” na Albânia

A Albânia, com o mar turquesa e os areais recortados da sua Riviera, vem a ocupar nos últimos anos o lugar de um destino em ascensão entre os viajantes portugueses. “A Albânia tem-se afirmado, também para o mercado português, como um dos destinos emergentes do Mediterrâneo. Esse interesse traduziu-se, do lado da oferta nacional, no reforço da programação por operadores portugueses e no lançamento, este verão, de voos diretos a partir de Lisboa e do Porto para o destino”, explica ao Observador Pedro Costa Ferreira, presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT).

O turismo é um dos pilares da economia albanesa e o caso de Luís assumiu quase de imediato contornos políticos. O Partido Democrático (PD), principal força da oposição albanesa, classificou o assassinato do português em Ksamil como mais uma prova inequívoca da incapacidade do Governo em garantir a segurança pública.

A força partidária liderada por Sali Berisha descreve mesmo um “verão negro para a Albânia”, apontando episódios recentes de homicídios, incêndios florestais, explosões e um clima geral de insegurança que, segundo a oposição, tem ensombrado o território nos meses de época alta.

“Este assassinato macabro não pode ser tratado como mais uma notícia na crónica sombria”, denunciou o PD em comunicado citado pela imprensa albanesa. Questionado sobre se considera a Albânia um destino seguro, o MNE não respondeu; entretanto, a investigação à morte do jovem português prossegue.

[O espião português suspeito de vender segredos à Rússia voa para Roma e as autoridades estão determinadas a apanhá-lo em flagrante a passar informações a um agente de Moscovo. “A vida dupla do espião traidor” é o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pelo ator Ivo Canelas, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio e aqui o segundo.]