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(A) :: Estamos a afundar-nos antes de entrar na água

Estamos a afundar-nos antes de entrar na água

Talvez, por isso, a pergunta mais importante não seja saber qual é a dimensão da tempestade que estamos a atravessar, mas perceber o lugar que lhe permitimos ocupar dentro de nós.

Manuel Ribeiro
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Há histórias que, mesmo sem sabermos se aconteceram realmente, possuem a estranha capacidade de nos revelar uma verdade que os factos, por vezes, não conseguem dizer. Não porque sejam necessariamente verdadeiras, mas porque nos colocam diante de nós próprios, das nossas fragilidades, das nossas contradições e daqueles medos que tantas vezes escondemos até de nós mesmos. São histórias que acabam por nos ler a nós muito mais do que nós as lemos a elas.

Conta-se que um alpinista escalava sozinho uma montanha quando, já ao cair da noite, perdeu o equilíbrio e ficou suspenso apenas por uma corda. A escuridão era tão cerrada que lhe era impossível distinguir o céu da terra. Não via o fundo do precipício, não sabia a distância que o separava do chão e, naquele instante, tinha apenas uma certeza: aquela corda parecia ser a única coisa que o separava da morte. Agarrou-se a ela com todas as forças e começou, desesperadamente, a pedir ajuda.

Depois de um longo silêncio, ouviu uma voz que lhe perguntou: «Confias em Mim?» O homem respondeu que sim. Então a voz tornou a fazer-se ouvir: «Larga a corda.» Mas ele não conseguiu. Queria confiar, certamente, mas o medo era maior do que a confiança e dizia-lhe que abrir as mãos seria escolher a morte. Permaneceu agarrado durante toda a noite àquilo que acreditava ser a sua salvação e, na manhã seguinte, encontraram-no sem vida, suspenso a menos de um metro do chão.

Talvez esta história nunca tenha acontecido. Mas aquilo que ela conta acontece todos os dias. Acontece quando adiamos indefinidamente uma decisão que sabemos necessária, quando permanecemos presos a situações que nos destroem apenas porque receamos aquilo que virá depois, quando desistimos de um sonho para não enfrentarmos a possibilidade do fracasso, quando deixamos uma palavra por dizer porque tememos a reacção de quem a vai escutar ou quando preferimos uma infelicidade conhecida à incerteza de um caminho novo. Há momentos em que nos agarramos tanto àquilo que julgamos dar-nos segurança que já nem percebemos que é precisamente isso que nos mantém suspensos.

O medo faz parte da condição humana e seria ingénuo imaginar uma vida completamente livre dele. Há medos que nos protegem, que nos tornam prudentes, que nos fazem reconhecer os nossos limites e evitar perigos desnecessários. O problema começa quando o medo deixa de ser um visitante ocasional e se transforma no arquitecto da nossa existência. Quando isso acontece, já não decidimos a partir daquilo em que acreditamos, mas daquilo que receamos; já não escolhemos o que consideramos verdadeiro ou bom, escolhemos apenas aquilo que parece menos arriscado. E, quase sem percebermos, vamos diminuindo a vida, estreitando horizontes e fechando portas, até descobrirmos que algumas das prisões mais difíceis de abandonar não têm muros nem grades, porque foram sendo construídas lentamente dentro de nós.

Talvez este seja um dos grandes paradoxos do nosso tempo. Nunca tivemos tantos instrumentos para tentar antecipar o que vai acontecer e nunca pareceu tão difícil conviver com aquilo que não podemos prever. Queremos saber antecipadamente o tempo que fará, a evolução dos mercados, os riscos de uma doença, o comportamento das pessoas, o resultado provável das nossas escolhas e até aquilo que um algoritmo imagina que desejaremos amanhã. Não há nada de errado em procurar conhecimento, segurança ou prudência; o problema começa quando confundimos a possibilidade de prever algumas coisas com a ilusão de poder controlar a vida inteira.

Porque a vida conserva sempre uma margem de imprevisibilidade que nenhuma tecnologia conseguirá eliminar. Podemos fazer planos, construir projectos, calcular riscos e tomar todas as precauções razoáveis e, ainda assim, haverá um telefonema que não esperávamos, uma ausência que não conseguimos compreender, uma porta que se fecha, outra que inesperadamente se abre, uma doença, um encontro, uma despedida ou simplesmente uma manhã em que percebemos que aquilo que julgávamos definitivo deixou de fazer sentido. Talvez amadurecer seja também aprender a habitar essa fragilidade sem permitir que ela nos roube a liberdade.

É aqui que se torna decisiva a diferença entre segurança e confiança. A segurança procura garantias; a confiança permite-nos avançar mesmo quando não possuímos todas as garantias. Confiar não significa acreditar ingenuamente que tudo correrá bem, nem fechar os olhos perante os perigos, muito menos resignarmo-nos diante daquilo que nos acontece. Confiar é reconhecer que não controlamos tudo e, apesar disso, recusarmo-nos a entregar ao medo o governo da nossa existência. Talvez a verdadeira coragem comece exactamente aqui: não quando deixamos de sentir medo, mas quando o medo deixa de decidir por nós.

Há uma página do Evangelho que sempre me impressionou pela forma como descreve esta experiência profundamente humana. Pedro vê Jesus caminhar sobre as águas e pede para ir ao Seu encontro. Sai do barco e começa também ele a caminhar, mas, quando repara na violência do vento, sente medo e começa a afundar-se. O pormenor que mais me inquieta nesta narrativa é que o vento já soprava antes de Pedro sair do barco, as ondas já existiam e a tempestade não se tornou subitamente mais violenta. O que mudou não foi o mar. Mudou o olhar de Pedro. Enquanto a confiança foi maior do que o medo, conseguiu avançar; quando a tempestade passou a ocupar todo o seu horizonte, começou a afundar-se.

Talvez estejamos a fazer exactamente o mesmo. Passamos demasiado tempo a contemplar as ondas e acabamos por lhes entregar uma dimensão maior do que aquela que realmente possuem. Vivemos cercados por notícias, conflitos, crises, previsões, estatísticas, comparações e opiniões que chegam até nós a cada minuto e, quando permitimos que tudo isso ocupe permanentemente o nosso interior, começamos a acreditar que viver significa apenas sobreviver à próxima tempestade. O mundo torna-se ameaçador, o futuro transforma-se numa sucessão de perigos possíveis e nós começamos a afundar-nos muito antes de termos entrado verdadeiramente na água.

Todos atravessamos tempestades. Quem nunca passou por uma? Há tempestades que chegam devagar e outras que entram pela nossa vida sem pedir licença, há as que conseguimos compreender e aquelas para as quais provavelmente nunca encontraremos explicação. Nem todas trazem uma lição escondida e seria cruel transformar todo o sofrimento numa espécie de pedagogia necessária. Há dores que não deviam acontecer e perdas que nunca encontrarão uma explicação capaz de as justificar. Mas mesmo quando não podemos aprender com a tempestade, podemos aprender alguma coisa sobre nós próprios na maneira como a atravessamos.

É por isso que existe uma diferença decisiva entre atravessar uma tempestade e fazer dela morada. Podemos sofrer sem permitir que o sofrimento se transforme na nossa identidade, podemos ter medo sem entregar ao medo todas as nossas decisões, podemos cair sem fazer da queda o lugar definitivo da nossa existência. As feridas permanecem muitas vezes connosco, mas não precisam de possuir-nos. Talvez a liberdade comece precisamente quando conseguimos dizer: isto aconteceu-me, marcou-me profundamente, faz parte da minha história, mas não terá a última palavra sobre quem eu sou.

Volto, por isso, ao alpinista e à sua corda. Talvez o mais inquietante naquela história não seja imaginar um homem suspenso sobre um precipício, mas reconhecer quantas vezes fazemos exactamente o mesmo. Quantas oportunidades deixámos passar, quantos afectos adiámos, quantos abraços ficaram por dar, quantos projectos abandonámos e quantas palavras permaneceram por dizer porque o medo nos convenceu de que largar a corda seria mais perigoso do que continuar suspensos. Há cordas que realmente nos salvam da queda, mas há outras às quais permanecemos agarrados apenas porque ainda não descobrimos que já podemos voltar a caminhar.

Talvez, por isso, a pergunta mais importante não seja saber qual é a dimensão da tempestade que estamos a atravessar, mas perceber o lugar que lhe permitimos ocupar dentro de nós. Porque não podemos escolher todos os ventos que sopram sobre a nossa vida, nem impedir todas as ondas que nos atingem, mas podemos decidir se lhes entregamos o nosso horizonte inteiro. E talvez chegue um momento em que viver nos peça exactamente aquilo que aquele alpinista não conseguiu fazer: abrir as mãos, largar a corda e descobrir que confiar não é deixar de ter medo, mas recusar que seja o medo a decidir até onde somos capazes de viver.