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Inquietações num mundo em mudança (I)

Não é largamente maioritária entre os europeus a opção de que a política de educação deve defender os nossos valores históricos, civilizacionais e culturais e rejeitar o wokismo e seus derivados?

Fernando Faria de Oliveira
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Mudanças na cultura e nos valores civilizacionais

O ritmo das mudanças que se verificam nas últimas duas décadas ultrapassa o que se podia imaginar.

Salientam-se 4 tipos das mudanças em curso: na cultura e nos valores civilizacionais; na politica; na geopolítica; na tecnologia

Hoje tratarei do primeiro: Cultura e valores civilizacionais

O Padre Manuel Antunes definia “cultura” como a maneira de ser, estar e permanecer no mundo.

A ideia central é que a cultura molda a visão que uma comunidade tem da realidade, orienta valores, comportamentos e instituições, cria continuidade histórica, identidade coletiva, sentido de pertença e permite ao homem habitar o mundo com sentido.

As culturas preservam memória, símbolos, língua, modos de vida e sentimentos de pertença. Criam uma identidade. Sustentam um propósito.

Já os valores civilizacionais procuram estabelecer um mínimo ético e comportamental partilhável entre sociedades/nações diferentes.

Perguntamo-nos muitas vezes quais são os valores europeus e ocidentais.

Hoje em dia também nos interrogamos sobre as causas da progressiva perda desses valores e do declínio da identidade europeia que vem ocorrendo.

O filão mais profundo da identidade europeia e da civilização ocidental é a herança judaico-cristã, a que se juntaram, com ela coexistindo por vezes com tensões, os legados iluminista e moderno.

Da tradição judaica, salientam-se a história como linear e com sentido, a lei moral transcendente, a dignidade do ser humano e o profetismo (este como ideia de que o poder pode e deve ser criticado à luz de uma norma superior).

Do cristianismo sobressaem a dignidade da pessoa humana como valor inviolável e a liberdade como valor inquestionável, concedida por Deus desde a criação, a consciência individual perante Deus, o conceito de direito natural, o sentido de dever para com o próximo, a obrigação dos mais fortes protegerem os mais fracos, a separação entre o temporal e o espiritual e o papel das instituições ao serviço das pessoas. Tudo com base nas suas virtudes centrais – o amor ao próximo, a paz, a verdade, a caridade, a humildade, a justiça, a misericórdia e o perdão.

A herança iluminista surge a partir do Sec XVII que tem como pilares a liberdade, os direitos naturais e os direitos humanos, a solidariedade, a separação de poderes, o Estado de Direito, a ciência como autoridade epistémica e o laicismo.

Estas grandes tradições, a que se juntam as aculturadas de origem oriental e a liberal moderna – têm um núcleo convergente desses valores, mas respondem de forma diferente em relação a outros.

A matriz europeia é, assim, um campo de tração produtiva entre Jerusalem, Atenas, Roma e as Luzes, debatendo-se a sua identidade entre o universalismo (todos os homens são iguais em dignidade) e o particularismo europeu.

As tensões mais difíceis (e que levam a opções políticas diferenciadas) existem entre liberdade e responsabilidade, indivíduo e comunidade, justiça e misericórdia, relativismo e universalismo.

Temos, ainda, a questão da igualdade, consensual em relação à igualdade de direitos e oportunidades, mas mais difícil de aplicar noutras facetas, já que, sendo a igualdade humana uma condição não natural (todos somos diferentes uns dos outros e contribuímos de forma diferente para o bem comum), a igualdade só é possível se forçada pelo Estado, e é, assim, usualmente “inimiga” da liberdade.

Nos nossos dias, no entanto, é inevitável a aspiração humanista e de justiça social da redução das gritantes desigualdades materiais e de oportunidades que proliferam no mundo e que requerem mesmo uma intervenção do Estado, pela via fiscal, pelo apoio social e pelo acesso indiferenciado aos bens públicos. Aliás, bem conforme com os valores ocidentais.

Claro que se levanta sempre um problema de fundo: os valores morais são universais, válidos para todo o ser humano em todo o tempo, ou são relativos, dependendo da época, da cultura particular e das circunstâncias?

A cultura ocidental, de facto, não é estática, enriqueceu-se ao longo da história com o conhecimento de aspetos muito positivos de outras culturas, com a introdução de outros valores que aportam mais valias, com a diversidade que aumenta a nossa força e não introduz elementos de fraqueza na coesão social.

Mas, na nossa Europa e no mundo ocidental em geral, vamos constatando a sensação generalizada de que estamos a viver uma crise de identidade, derivada designadamente de dois fatores:

(1)  –  O multiculturalismo

(2) –  A “sabotagem” interna provocada pelo wokismo e seus derivados, pela prática do politicamente correto, pelas narrativas distorcidas ou que se tentam impingir e que não correspondem à verdade dos factos, e pela cultura de cancelamento que os seus arautos procuram impor. Esta “sabotagem” visa a desconstrução dos valores e da moral cristã e a implantação de uma cultura pós-marxista. A Esquerda radical, em particular, utiliza-a, prossegue-a e tenta impô-la, com o argumento da liberdade e da defesa de outros valores ou pseudovalores e de causas de minorias, muitas vezes fraturantes.

Há que mencionar ainda outros fatores de desagregação de  significativa relevância, nomeadamente:

1º- A prática de um ambiente de suspeição permanente em substituição de uma cultura de confiança e de honra.

2º- A verdade objetiva está a ser marginalizada da vida pública em favor da “verdade opinada” e da “verdade sentida”, isto é, a verdade de facto está a ser substituida por opiniões e sentimentos, com a objetividade a ser ostracizada.

3º- As alterações que se vão verificando na vida das famílias ocidentais, sejam de natureza institucional, comportamental ou educacional.

4º- O ativismo que, mais do que promovido por motivos de justiça e elevação social, de defesa dos desfavorecidos ou descriminados, é motivado pelos sentimentos da inveja e da mesquinhez, e a acusação de discurso do ódio aos que rejeitam as suas opções (quando imensas  vezes são os próprios que “destilam” ódio). Armas de arremeço que utilizam em lugar de um seu objetivo de elevação social pelo acesso universal e pelo mérito.

Quanto ao multiculturalismo, para o qual muito contribuem as correntes migratórias, procura permitir a coexistência de diferentes culturas dentro da mesma sociedade política, reconhecendo identidades étnicas, religiosas, históricas e linguísticas diversas. Pode, assim, ser vista tanto como uma riqueza democrática, como uma fonte de tensões sociais, dependendo da forma como é aplicado.

As virtudes do multiculturalismo são o enriquecimento cultural, o reconhecimento da dignidade e identidade dos outros, uma maior tolerância e cosmopolitismo, a adaptação ao mundo globalizado.

Mas os riscos do multiculturalismo que, de facto, existem, são também muito importantes: a fragmentação social, que faz diminuir o sentimento de pertença comum; o relativismo cultural, que em nome da tolerância e de um respeito cultural, leva a evitar críticas a práticas problemáticas, mesmo quando colidem com direitos fundamentais; a guetização de comunidades paralelas, que não se integram e promovem ambientes sociais separados, dificultando a confiança e a coesão nacional; a reação identitária, que alimenta nacionalismos radicais e populismos.

O multiculturalismo que confunde e desequilibra constitui, assim, um risco civilizacional que há que cuidar. Há valores de outras civilizações que se devem respeitar e acomodar. Mas há outros a que não se deve aderir.

O exemplo mais notório das tensões atuais que provoca na Europa  reside no problema de compatibilidade entre a cultura ocidental e a cultura islâmica extremista e fundamentalista. É decisivo evitar a radicalização das comunidades islâmicas que vivem entre nós, para reduzir o risco do fanatismo religioso e da sua aplicação prática.

O ponto central do multiculturalismo reside, pois, na questão “integração versus assimilação”.

A integração dos imigrantes surge muito mais fácil quando já comungam ou vêem a partilhar da história, da cultura e da língua dos países de acolhimento. Quando não o fazem, pelo menos nos valores essenciais, os imigrantes acabam por não terem vontade ou serem incapazes de se integrar e podem surgir “quistos” ou, no extremo, “tumores malignos” nas comunidades de acolhimento.

Uma visão ocidental, cristã, não pode deixar de prosseguir a integração das comunidades imigrantes e o apoio à boa educação dos filhos como missões a cumprir.

Quanto aos que atacam o Ocidente por fora e os que o sabotam por dentro, com o wokismo, a ideologia de género e outros derivados, a cultura do cancelamento, visam três objetivos:

(a) – desconstruir ou destruir os valores tradicionais de raiz cristã;

(b) – substituir as causas ultrapassadas do marxismo por novas causas apelativas para alguns estratos sociais;

(c) – criticar a nossa história para destruir a nossa identidade.

Pode dizer-se que estas ideologias surgem na esteira de Gramsci, que preconizou que a vitória do socialismo passava pelo domínio das mentes e, para isso, deviam utilizar-se três instrumentos fundamentais: a academia e os intelectuais para desenvolver a ideologia pós-marxismo para substituir a caduca luta de classes; a escola para incutir essas ideias nas crianças e jovens, criando cobaias ideológicas; e a comunicação social para as divulgar e manipular as consciências dos cidadãos.

No seu excelente livro “NOVA PESTE”, Manuel Maria Carrilho escreve “(quanto ao) … wokismo, a cultura de cancelamento e os seus derivados trata-se de uma peste, uma nova peste que se vem espalhando por todo o ocidente, sobretudo a partir da generalidade dos media e, lamentavelmente, de muitas universidades, peste que é preciso combater sem medo, com conhecimento, lucidez e coragem” (fim de uma citação deveras clarividente).

É que, uma vez que novos valores (ou pseudovalores) são assimilados, é difícil voltar atrás. Levam a um estilo de vida novo e a um outro julgamento moral. Os valores corrompidos podem não se recuperar.

Assim, não é esse combate uma nossa obrigação humanista, moral e ética, como sempre acontece face a uma peste, qualquer peste?

Os factos vêm confirmando esta tese: nos EUA e também na Europa e em Portugal, várias universidades estão tomadas e submetidas a docentes e grupos com estas ideologias, confundindo juízos de facto com juízos de valor ideológico, para propositadamente chegarem aos seus objetivos políticos. Esses professores são hoje designados por IYS: Intelectual yet stupid, capazes que são de defenderem imbecilidades e ideias que contrariam a ciência, a natureza e a realidade. Para esta Nova Esquerda, não importa se o que ativam é bom ou mau, o que lhes interessa é a sua utilidade política.

O declínio moral, o desequilíbrio cultural e a polarização política constituem, de facto, uma ameaça real para o Ocidente. Com graves consequências para o seu desenvolvimento económico, social e cultural. Ora, não foi o Ocidente o grande motor do desenvolvimento económico, social, cultural, espiritual nos último dois milénios?

Quando se perdem as raízes, se esquece a razão e a ciência e se começa a condescender com construções alucinadas, quando se troca a verdade objetiva pela verdade conveniente,  em geral aumentam a confusão, o descontentamento, a desconfiança, a insegurança e a conflitualidade – a sociedade entra em desagregação e declínio, perde algo essencial à vida – propósito comum.

As grandes interrogações de carácter prático a colocar são:

– Não é mesmo essencial combater o declínio da sociedade ocidental e preservar frontalmente os seus valores fundamentais, identitários, históricos, que permitiram criar os povos mais desenvolvidos e protegidos do mundo?  Não é isso decisivo para o progresso, para manter a coesão social e o sentido de pertença?

– Não foi e é a Esquerda a maior responsável pelo declínio do Ocidente, pela crítica e desconstrução dos seus valores? A sua presunção de superioridade moral não se torna ainda mais enganadora e hipócrita?

– Não deveria a política de imigração, além de cuidar do seu controle, de ser seletiva, privilegiando imigrantes com a mesma matriz cultural e os que afirmem a sua vontade inequívoca de integração?

– Não é da responsabilidade das famílias educar os seus filhos segundo as suas convicções e defender a sua estabilidade emocional? É ou não verdade que as novas gerações correm o risco de confusão moral?  Não é largamente maioritária entre os europeus a opção de que a política de educação deve defender os nossos valores históricos, civilizacionais e culturais e rejeitar o wokismo e seus derivados, que só geram confusão e instabilidade emocional? E não é fundamental arredar decisivamente a cultura do cancelamento?