“Não se deitam foguetes antes da festa”
(Provérbio Popular)
À saída de uma reunião na Proteção Civil, o Primeiro-Ministro Luís Montenegro fez hoje um balanço otimista do combate aos fogos. Destacou uma redução de quatro vezes na área ardida face ao ano passado, o dobro das detenções por crime de incêndio e o “maior dispositivo de sempre”, aproveitando para blindar o seu Ministro da Administração Interna, Luís Neves, cujas críticas considerou “desfasadas da realidade”. Não obstante, alertou que ainda teremos semanas de elevada complexidade pela frente.
Sr. Primeiro-Ministro, apesar desse último alerta, lamento discordar e adverti-lo de que está iludido pela situação; não devia, como sabiamente diz o povo, deitar foguetes antes da festa. Lembre-se do que aconteceu, já consigo, há dois anos, em 2024, quando também se garantia que tudo corria bem. Bastou uma única semana a meio de setembro para o país mergulhar num autêntico Inferno, que resultou em trágicas mortes e mais de 135 mil hectares de área ardida. A soberba política costuma ser o pior inimigo na gestão do risco.
Compreendo perfeitamente que tenha de defender o seu Ministro da Administração Interna, afirmando que está a fazer um bom trabalho. Contudo, pelas próprias questões que aponta, o que o Governo está a ter é pura sorte. A sorte de uns é, infelizmente, o azar de outros: este ano, é Espanha que está a sofrer com os problemas avassaladores que nós costumamos enfrentar por esta altura. A meteorologia tem sido o seu principal aliado, não a estratégia.
Veja bem: quando diz que estamos mais organizados, pergunto-lhe quantas das 20 recomendações da Comissão Técnica Independente (CTI) estão implementadas? Nenhuma, claro. A lentidão na constituição da própria Comissão fez com que o relatório só saísse há 15 dias. Há ali muitos erros graves apontados, mas alterações estruturais só se verão no futuro, nunca agora. Por sorte, São Pedro tem sido amigo e as nossas debilidades ainda não vieram totalmente ao de cima.
É inegável que temos o “maior dispositivo de sempre”. Mas, Sr. Primeiro-Ministro, não temos sempre? Há décadas que ouvimos rigorosamente a mesma frase todos os anos. E afinal, numa das poucas janelas meteorológicas adversas, há um mês e pouco em Vouzela, ainda no arranque do verão, fomos logo obrigados a pedir ajuda ao mecanismo de proteção civil europeu. Felizmente, esses dias terríveis têm sido raros este ano. Mais uma vez, tem-nos valido a clemência do tempo.
Além da organização, falou na prevenção, e o Ministro já tinha elogiado os 95% de sucesso no ataque inicial. Ó Sr. Primeiro-Ministro, essa conversa também já está gasta. Em 2017, o então Secretário de Estado Jorge Gomes falava num sucesso de 99% num debate na RTP. Na altura, o professor José Miguel Cardoso Pereira explicou-lhe pedagogicamente por que razão isso não é uma vitória: porque basta que 1% dos fogos escape ao controlo para se gerar o caos.
A própria CTI mostrou exatamente isso no ano passado: de mais de 8 mil ignições, o problema real concentrou-se em apenas 44 incêndios. Se olharmos para Espanha, percebe-se ainda melhor: há uma semana iam com perto de 200 mil hectares ardidos. Desse total, 5440 fogos queimaram 50 mil hectares, mas bastaram apenas 5 incêndios — ou seja, um em cada mil — para devastar 150 mil hectares. O problema nunca é a quantidade, é a exceção que, inevitavelmente diga-se, foge ao controlo.
Fala também orgulhosamente nas mais de 200 detenções. Mas quantos desses detidos foram soltos em seguida? A esmagadora maioria. E bem, porque grande parte destas pessoas teve apenas um azar, um acidente, uma queimada legal que se descontrolou ou um trabalho agrícola que correu mal. A lei manda deter, mas a maioria não agiu com dolo. Isto lembra uma caça às bruxas medieval: pode ser popular e dar bons títulos de jornal, mas não resolve o nosso verdadeiro problema.
E qual é o nosso problema, Sr. Primeiro-Ministro? O nosso problema é a acumulação de combustível; são os barris de pólvora que continuam espalhados pelas nossas paisagens. Os incêndios florestais são, no fundo, um problema de economia — ou melhor, da falta dela. Falta uma economia rural viva que consiga gerir e rentabilizar os matos. Enquanto não nos focarmos na gestão estrutural do território, continuaremos eternamente dependentes e ao sabor da sorte.
Para que não restem dúvidas: vamos hoje com mais de 60 mil hectares ardidos e, nos próximos dias, ultrapassaremos os 69 mil de 2023. Assim sendo, os seus três anos como Primeiro-Ministro serão, estatisticamente, os três piores anos desde 2017. Significa isto que de 2018 a 2023, com o PS, Eduardo Cabrita e José Luís Carneiro tudo estava bem? Não, não estava. Tragédias como Monchique, Mação ou Serra da Estrela provam-no. Tiveram foi sorte. O problema estrutural continua lá e, mais dia menos dia, virá de novo ao de cima.