A não ser que quem me lê tenha estado em isolamento profundo, saberá que o mundo esteve prestes a acabar porque o ministério da educação resolveu mudar a operacionalidade do processo pelo qual Afonso Henriques fez guerra contra a sua própria mãe: os exames nacionais do 12º ano. O mundo ficou imóvel para saber como é que a aplicação de tecnologia com 30 anos iria, ou não, modificar a vida a crianças com mais de 18 anos, cujas famílias teriam as férias suspensas porque, compreensivelmente, o petiz seria incapaz de resolver os seus problemas sozinho.
Associações de pais berraram, comissões de professores cantaram e alunos desfilaram contra aquilo que, aparentemente, terá sido o maior atentado às muralhas do ser português desde que roubaram a Bola d’Ouro ao Ronaldo e a deram ao Messi.
Justificadamente, afinal os exames nacionais do 12º ano servem para seriar os petizes gradativamente no acesso aos vários cursos universitários disponíveis nas dezenas de universidades públicas portuguesas, ordenando-os pelas notas que eles vão usar num processo organizado de candidatura, que atribui prioridades nas preferências do candidato de acordo com as notas que este pode apresentar, entre as quais aquelas que são obtidas nos ditos exames. Ou, por outras palavras, a perspetiva de vida futura dos petizes depende de forma crítica daqueles exames e o processo agora inovado poderia estragar tudo.
Esta é a visão do primata inferior a quem sempre foram dadas as bananas à hora do costume e nunca pensou no porquê. Mas, como não somos (todos) primatas inferiores, vamos fazer um exercício relativamente simples: quanto vale este drama todo? Um país a bater com a cabeça nas paredes durante meses, vidas suspensas, mães a roer unhas e, pior, horas de comentadores televisivos, para quê? Ou, fazendo a pergunta de outra maneira. Afinal se deixássemos as universidades meterem todos os que quisessem, isso custava quanto?
Vamos, por hipótese, admitir que todos os candidatos queriam ser médicos, por questões aritméticas, e que seria possível a carreira de médico sem mais constrangimentos que aqueles que estão à entrada da universidade (sim, eu sei que há as questões de internato, especialidades, etc.). O curso de medicina é conhecido como aquele que sai mais caro ao contribuinte, cada aluno custa ao estado cerca de 12 000 euros por ano, uma quantia que parecerá considerável para qualquer família, mas por uma questão de facilidade de argumento, em vez de fazermos exames nacionais, vamos dizer que, já que temos um problema de equidade, entra quem quer.
Como temos cerca de 50 000 candidaturas, no total, por ano, isso dá-nos a quantia relevante de 600 milhões de euros por ano, se fossem todos para medicina e se, já hoje, não entrasse ninguém, em lado nenhum. Mas dos 50 000 candidatos, há mais de 49 000 que entram num curso qualquer. Portanto, aquilo de que estamos a falar é da diferença entre entrar no curso que prefere ou entrar num curso que não era o preferido. Aqui vem a maior dificuldade em fazer contas, porque o estado dá o dobro desse montante para as universidades para os alunos que escolheram o curso favorito ou não. Portanto, problema número um para o contribuinte: perceber porque é que o estado paga o dobro daquilo que os alunos custam, mas poderá ser por naturais ineficiências – um professor universitário precisa de ser investigador também e (devia) dedicar metade do tempo a isso. A diferença real entre deixar entrar quem quer e selecionar por exames deve estar na ordem dos 100 milhões de euros, se tanto.
No entanto, vamos ser agressivos, vamos imaginar que não. Vamos partir de uma folha limpa e começávamos amanhã a pagar tudo e hoje não pagávamos nada. Ou seja, vão ser os 600 milhões. A câmara de Lisboa consome cerca de 1 400 milhões de euros e a sua função fundamental na sociedade é manter esgotos, arruamentos e jardins. A RTP consome 230 milhões de euros ao cidadão. Não venham dizer que não temos 600 milhões de euros para formar capital real nos nossos filhos porque aos nossos jardins lhe faltam amores-perfeitos ou porque a avó não passa sem o Preço Certo.
Até agora estive apenas a falar de dinheiro, ainda não comecei a falar no custo económico de termos médicos a menos, matemáticos a menos, engenheiros a menos e, pior, termos selecionado aqueles que o queriam ser só porque resolvi eliminar uns quantos por causa de uma nota num exame. O potencial médico que, possivelmente, lhe ia salvar a vida, afinal falhou num dia de nervos quando tinha 18 anos.
Pensará que não podemos ser todos médicos, não faz sentido andar a formar 5000 médicos porque só podemos ter 2000. É verdade, mas prefere ter “médicos a varrer ruas” ou ser operado por um “varredor”? É claro que não podemos ser todos médicos, até porque há mais para ser médico que a simples cadeira de uma universidade. Há internatos, precisam de médicos seniores para os acompanhar, há especialidades a preencher e mais experiência a adquirir. A questão é que escolhi os médicos como caso limite. O país carece de capital humano como de água para beber e andamos a discutir a correção de um exame de seriação que ninguém, em consciência, conseguirá dizer que vale alguma coisa. Sendo certo que o seu valor económico é brutalmente negativo.
Conseguir ter mais 10% de físicos ou matemáticos, coisa que, aí sim, o país precisava que todos fossemos, valeria, em termos económicos, múltiplos daquilo que gastamos em exames para evitar tê-los. É que não é só sermos burros, é querermos sê-lo.
Dir-me-ão que aquilo que é de graça depois não tem valor, que as universidades podem escolher ter cursos de elite, que as profissões – como os médicos – têm exigências próprias. Isso é tudo verdade e eu concordo, mas esses são problemas ortogonais que têm várias soluções individuais ou em conjunto. O estado em vez de pagar a totalidade, pode apenas garantir créditos e passar o custo para a carreira futura do aluno (pelo método inglês, não o americano); as universidades podem ter métodos de seleção próprios para cursos específicos, que hoje até existem para vários cursos em áreas como artes, motricidade, militares, etc. Agora, isto é tudo ortogonal ao problema fundamental, e o problema fundamental é “estamos a fazer tudo para educar os nossos filhos ou não?”. A resposta, seja lá que cambalhota o leitor resolver dar, será sempre um redondo “não”. E não é porque se fizeram os exames assim ou assado. É porque é que os fizemos.
A verdade é que se pensarmos no real valor dos exames do 12º ano do qual se montou uma telenovela mexicana que durou meses, esse valor é profundamente negativo. Esses exames não valem nada, só valem chatice e alocaram a eles um ministério inteiro, que se devia dedicar a criar capital e não a lidar com problemas informáticos do século passado. E para quê? Para sermos todos mais burros. Que lindo serviço…