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(A) :: Só faltava mesmo uma migração caótica de javalis

Só faltava mesmo uma migração caótica de javalis

De Albufeira a Viseu, passando pelas praias de Setúbal, os bácoros estão a aparecer em todo o lado. E ninguém está preocupado em pôr ordem nisto, pelo menos até os suínos irem passear ao Martim Moniz

Tiago Dores
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Meus caros, após profunda reflexão, desejo partilhar convosco o seguinte: “não podemos viver uma espécie de censura moderna em que as pessoas só conhecem, sabem e debatem os assuntos mais polémicos, os assuntos de pequenos incidentes, dos pequenos episódios, e deixar aquilo que é mais importante escondido em notas de rodapé ou mesmo omitido dos grandes espaços de veicular e comentar a informação.” Ora, tendo isto em conta, hoje vou falar de javalis.

Sem deixar de assinalar, no entanto, algumas coisas de pormenor, como o investimento “estratégico” de mais de 300 milhões de euros que o Governo de Luís Montenegro decidiu fazer na REN. Se, enquanto contribuinte, me dessem a escolher, teria optado por destinar essa parte dos meus impostos a um novo investimento dinamizado pelo príncipe da Nigéria, que, ao contrário dos governos portugueses, não tem no currículo outros belíssimos investimentos estratégicos, tipo TAP ou EFACEC. Já se a parte “estratégica” for comprar esta posição na REN só para, daqui a pouco, a revender a um investidor mais alinhado com os EUA do que com a China, aí retiro o que disse e volto já aos javalis.

Não sem antes mencionar aquela turista sueca que veio a Lisboa para testemunhar a luz única da cidade e que, por pouco, concluía se essa luz é mais ou menos única do que a luz ao fundo do túnel que testemunham os que passam para o lado de lá. Num instante, uma pessoa está a encher o bandulho com pastéis de nata; no instante seguinte, tem uma forte perceção de pontada no estômago, à qual é totalmente alheio o dito pastel.

E à qual não será tão alheia uma bala perdida. Disparada por um empreendedor do setor agrícola que comercializava louro prensado como droga e que atirou, ao que tudo indica, contra um rival do mesmo ramo de actividade, mas acabou por acertar na turista. O suspeito saiu em liberdade, talvez porque, sendo verdade que vender louro por droga pode consubstanciar o crime de burla, não é menos verdade que, só por mérito deste menino, já se perdeu a conta a quanta gente abandonou o consumo de drogas depois de ficar agarrada a ervas aromáticas ótimas para temperar bifes. Por falar em bifes, lembrem-me de falar nos javalis.

Ainda a propósito de pontadas no estômago, mas desta vez causadas pela fominha, celebrou-se há dias o centenário do nascimento de Fidel Castro, evento em que marcou presença o líder do ainda não extinto PCP. Paulo Raimundo assinalou que Fidel “deixou um rico e atual legado de reflexões, propostas inspiradoras e guias de ação”. Pois deixou. Por exemplo, se alguém quiser refletir sobre as propostas de ação inspiradoras que foram capazes de transformar todo um país numa grande ilha de lata, só pode chegar a uma conclusão: mais valia ser baleado, não fatalmente, a meio de um pastel de nata, do que ter a infelicidade de engolir comunismo durante décadas a fio.

Engolir que, enfim, me leva aos javalis. Que, de repente, de Albufeira a Viseu, passando por Abrantes e pelas praias de Setúbal, andam a aparecer por todo o lado. E ninguém parece minimamente preocupado em pôr ordem nisto. Pelo menos até os suínos pensarem em ir passear ao Martim Moniz. Aí é que vão ver se o regabofe não se acaba depressa, seus bacorinhos.

Mas lá está, os portugueses só sabem ver o lado mau das notícias. Em que outro sítio do mundo seria má notícia ter proteína de primeira, à solta pelas ruas e sem dono? Bastava andar com um grelhador no porta-bagagens e, ao cruzarmo-nos com ela, imobilizá-la — por meios humanos, como é óbvio, e não como o vendedor de louro prensado imobilizou a turista sueca — para depois a pormos a rodar no espeto. E enquanto nos deliciávamos com o petisco, já íamos delineando um plano de contingência para a próxima grande tragédia nacional: uma praga de lagosta a dar à costa.